Faço parte do grupo de pessoas que, quando está a viajar ou a residir temporariamente no estrangeiro, tem como vício equiparar constantemente o local em questão com um alegado equivalente em Portugal. As pessoas com quem viajo habitualmente consideram o exercício bastante irritante, o que me motiva a executá-lo não só mais frequentemente como de forma mais rebuscada. Todos aqueles que não conseguem fazer a viagem de táxi do aeroporto até à cidade que se preparam para visitar sem identificar uma “Odivelas” ou um “Rio Tinto” têm o meu respeito. Alguns macambúzios detratores de fachada cosmopolita podem rotular-nos de provincianos, mas é indiscutível que a Toponímia Comparativa é um ramo académico que requer bastante sensibilidade. 

Neste momento, estou a viver no bairro de Williamsburg, em Brooklyn. Depois de breve passeata, concluí tratar-se de Arroios de Nova Iorque. E notem, já cá estou há quase duas semanas, mas a comparação toponímica é obrigatoriamente feita no primeiro dia de impacto com o novo local. A Toponímia Comparativa não se compadece com prudentes reflexões e ponderadas analogias: o método de comparação advém fundamentalmente da forte sensação e do razoável bitaite. Por outro lado, este ramo da ciência também aceita descabidos paralelos fundados em características aparentemente menores. As duas cidades equiparadas no título desta crónica são aparentemente incomparáveis, mas é inegável que o desenho de ambas assenta num quadriculado perfeito e que ambas têm ruas numeradas. Tal como Aveiro é a Veneza de Portugal, Nova Iorque é Espinho dos Estados Unidos da América.

Ainda sou muito jovem para ter uma extensa obra no ramo da Toponímia Comparativa, mas já cheguei a algumas conclusões. Williamsburg é Arroios, mas Shoreditch em Londres e Kreuzberg em Berlim também o são. Tanto Edimburgo como Vigo são um Porto onde se come pior, Brighton é Vila do Conde e Trafalgar Square é o Marquês de Pombal de Londres (uma praça central e emblemática que é verdadeiramente desinteressante). Sejamos sérios, grande parte de Atenas é a Almirante Reis. Sochi na Rússia é Vilamoura do Mar Negro; Khao San Road, em Banguecoque, é a Rua da Oura do Sudeste Asiático. Rijeka e Split, na Croácia? Respectivamente Setúbal e Faro. Não questionem, mas Nova Deli faz lembrar Braga.

Muito desmerecida no género da literatura de viagens, a Toponímia Comparativa é bem mais útil do que o Lonely Planet no que toca a transmitir a energia de cada sítio. Tenho a certeza de que uma aplicação que comparasse cada destino turístico com locais que o viajante conhece bem seria um sucesso estrondoso. Enfim, sou capaz de apanhar o avião e ir vender esta ideia a Silicon Valley — claramente Porto Salvo da Califórnia.

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