Em 2017, a vitória eleitoral de Emmanuel Macron foi uma surpresa. Mais bonito e mais jovem do que os seus antecessores (tinha 39 anos), fizera uma carreira ziguezagueante, entre banqueiro da casa Rothshild e secretário-geral do presidente socialista François Hollande. Nem sequer tinha partido; criou-o à pressa, no ano anterior, o “La Republique en Marche”, sem deputados no parlamento, com uma etiqueta centrista e pró-europeia. De direita, classificou-o imediatamente a esquerda, pois viu nele uma postura pró-business disfarçada de modernidade. À direita era considerado um social-democrata, fraco na imigração e disposto a fazer concessões aos trabalhadores.

Além disso, apresentava uma vida particular peculiar, mesmo para os franceses; era casado com Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha, com três filhos, e que tinha conhecido aos 15 anos, quando ela era sua professora em Amiens. As famílias opuseram-se, ela foi despedida e Emmanuel teve de esperar até aos 18 anos, já em Paris, para retomar a relação. Quando casaram, em 2007, o apartamento foi comprado por um amigo que era inspector das finanças.

Na eleição de 2017, o favorito da direita “civilizada” (isto é, não Le Pen) era François Fillon, do partido Republicano (gaulista), mas um escândalo relacionado com as remunerações recebidas pela mulher no cargo fictício de assistente parlamentar estragou-lhe as hipóteses. Embora os Fillon negassem, foi instaurado um processo judicial que levaria à sua condenação em 2020 por “fraude agravada e falsificação de registos”.

Macron beneficiou desta desistência de última hora, tornando-se o único candidato 'palatável' para o enorme esprectro que vai do centro moderado até à direita conservadora – direita essa que valoriza os “valores cristãos” mais do que as diatribes laicas de Le Pen.

Passou à segunda volta e os eleitores de esquerda viram-se na necessidade de votar nele para impedir a eleição de Le Pen. Um fenómeno que já tinha acontecido em 2002, quando a esquerda teve de apostar em Chirac para travar Jean-Marie Le Pen.

Presidente activo, dialogante e teimoso, dizem as más-línguas que quem o orienta é Brigitte, um boato que, verdadeiro ou falso, não faz qualquer diferença na prática. O facto é que Emmanuel, em ocasiões públicas em que teve de agir sem consultar ninguém, mostrou resolução e uma noção muito equilibrada do seu poder.

No plano interno esteve envolvido em várias medidas controversas - para os franceses, altamente politizados, todas as medidas são controversas. Mas no plano europeu fez boa figura, criando uma amizade quase instantânea com Angela Merkel, mantendo assim o eixo Paris-Berlim que é a espinha dorsal da União Europeia.

O quadro político da eleição deste domingo é bastante diferente. Para já, nos últimos vinte anos não houve nenhum presidente francês que fosse eleito duas vezes. A esquerda, destroçada com o escândalo sexual do seu primeiro candidato em 2017, Strauss-Kahn, seguido do mandato desastroso de Hollande, continua sem destino. Já nem sequer usa os seus rótulos: o partido socialista e as suas franjas chamam-se agora “La France Insoumise” (“A França que não se submete”) e os comunistas, que foram um partido formidável na década de 1950, estão reduzidos a partidos mínimos.

A disputa coloca-se assim entre as várias direitas ou, se quisermos, entre o centro a a direita, ficando os eleitores de esquerda como fiel da balança. Um quadro estranho, no mínimo.

No ano passado pensava-se que o cenário de 2022 seria uma repetição de 2017: Macron e Le Pen a passarem para a segunda volta e depois toda a gente a juntar-se contra Le Pen, mesmo não gostando de Macron.

Os republicanos gaulistas escolheram uma candidata sem grande carisma, Valérie Pécresse. É liberal politicamente e conservadora na economia, mas mal aparece nas sondagens, isto porque o seu espaço político foi completamente tomado por duas personalidades altamente mediáticas, a conhecida Marine e o recém-chegado Éric Zemmour. Este apresentador de televisão e ensaísta radical vai buscar a direita mais conservadora, cristã, anti-muçulmana e anti-imigração.

A diferença entre uma e outro é subtil, mas importante. Le Pen defende o laicismo do Estado e é contra os imigrantes porque tiram os empregos aos franceses, são violentos, não obedecem às leis, etc.. Zemmour crê que os valores da França são o catolicismo e a família tradicional, ameaçados pela chamada “grande substituição”: como os imigrantes, que não param de chegar, têm taxa de natalidade muito superior aos franceses, é uma questão de tempo – e não muito – para a França se tornar um país muçulmano.

Para complicar a situação, Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen e considerada até há poucos anos sua sucessora, descobriu que se revê muito mais nas ideias de Zemmour do que nas da tia e passou-se de armas (que são muitas) e bagagens (que não são assim tantas) para o recém-chegado.

O que é novo, e sem dúvida assustador, é que Zemmour apela às ideias mais retrógradas, pré-Revolução Francesa, que até agora ninguém tinha tido coragem de alardoar abertamente. São eleitores classe média e alta, muito conservadores, que acham Le Pen uma ordinária sem princípios (casada e descasada, com uma vida pessoal “pecaminosa”) e filha de um fascista de origens humildes, o Jean-Marie que fundou a Frente Nacional e a dinastia Le Pen em 1972. (Noutra comparação simplista, é o que a aristocracia alemã pensava de Hitler na década de 1930.)

Ironicamente, Le Pen também tem força entre os trabalhadores de mais baixos rendimentos, inclusive de muitos imigrantes portugueses. Sentem-se excluídos da prosperidade e ameaçados pelos imigrantes não brancos. Num clima radicalizado, o meio-termo soa a tibieza e Marine sabe apelar aos receios mais simplistas dos eleitores.

Esta disputa entre as direitas pode, evidentemente, favorecer Macron. As sondagens têm variado de dia para dia, uma delas, publicada esta sexta-feira pelo gabinete de estudos ELABE para a televisão BFMTV e a revista L’Express, dá 26% a Macron e 25% a Le Pen.

Já a sondagem do gabinete de estudos BVA para a rádio RTL dá a mesma percentagem de intenções de voto para Emmanuel Macron, 26%, mas 23% para Marine Le Pen. Noutra sondagem do gabinete de estudos Ifop para a revista Paris Match, televisão LCI e SudRadio, o Presidente mantém os 26% e Marine Le Pen detém 24% da preferência dos inquiridos.

No terceiro lugar em todas estas sondagens está Jean-Luc Melénchon, obtendo entre 17 e 17,5%, deixando assim o líder da extrema-esquerda provavelmente de fora da segunda volta.

No quarto lugar, empatados, estão a candidata da direita, Valérie Pécresse, e Eric Zémmour, também na extrema-direita, já sem qualquer possibilidade de chegar à segunda volta.

A questão é que a diferença entra Marine e Emmanuel tem vindo a diminuir. Será então uma repetição de 2017? Talvez não porque, segundo alguns comentadores, desta vez a esquerda não irá tapar o nariz e votar Macron; poderá abster-se na segunda volta, e aí o equilíbrio entre os dois será muito mais próximo

Para a União Europeia, uma vitória de Le Pen será o fim do projecto europeu, tal como tem progredido até agora. Primeiro, o seu nacionalismo levará ao isolamento da França. Depois, a amizade com Putin – de que ela evita falar nestes dias – decerto acabará com a coesão europeia em relação à Ucrânia. Não será bem aceite pelas outras democracias, que se consideram inclusivas e humanistas.

Depois do Brexit, de Viktor Orbán, do governo polaco e da guerra na Ucrânia, não faltava mais nada.
Os franceses é que vão escolher, mas toda a Europa sentirá o resultado da escolha.

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