Com que então o tasco barulhento e mal-frequentado, onde costumo estar ligeiramente tocado às duas da manhã, vai mudar de gerência, é isso? Sim, sim, o Twitter foi comprado pelo Elon Musk, um dos seus utilizadores mais chatos, que publica os memes com menos graça. O dono da Tesla, a marca de carros predilecta dos homens em crise de meia idade, está com uma crise de meia idade. Elon Musk é o clássico cinquentão recém-divorciado que precisa urgentemente de um brinquedo novo, mesmo que isso implique estoirar parte das suas poupanças.

Habitualmente, pessoas com muito dinheiro combatem a melancolia do envelhecimento através da compra de um frugal iate, mas tal seria uma opção aborrecida para o homem que tem uma carripana que faz viagens à cintura de asteroides. Por isso, optou por adquirir o Twitter, rede social onde os incitamentos a golpes de estado andam lado a lado com os queixumes da Geração Z. Antigamente, os ricos compravam jornais; Elon Musk comprou o diário do Adrian Mole do século XXI.

Muita gente tem anunciado o abandono sumário da sua conta de Twitter face ao anúncio do novo dono, o que é um ato corajoso, até porque ninguém quer saber. Anunciar que se vai deixar o Twitter é o mesmo que anunciar que se vai deixar de ir a reuniões de condomínio: em princípio, ninguém sequer reparou que costumavas lá estar. Boa sorte para quem sente a necessidade de firmar essa posição moral, porque vai ser difícil encontrar uma rede social detida por alguém com cândidas intenções. Tal como é duríssimo voltar para casa dos pais depois de nos termos emancipado, é muito complicado ter de voltar ao Facebook depois de termos lá deixado os nossos pais.

Dito isto, é ainda mais patético celebrar esta aquisição como se fosse o 25 de abril de Silicon Valley. Acho muito engraçado festejar uma compra que outra pessoa fez - deviam ficar igualmente contentes quando os vossos amigos vos mostram a air fryer que acabaram de encomendar. Haver tanta gente a acreditar na ideia de que “o homem mais rico do Mundo vai concentrar ainda mais poder e tornar o Mundo num lugar melhor” mostra que os fãs de Elon Musk são mais sonhadores do que ele próprio. Musk descreve-se como um “absolutista da liberdade de expressão”, mas aparentemente torna-se num moderado quando se trata da liberdade dos trabalhadores da Tesla falarem mal da empresa.

Pessoalmente, vou aguardar e esperar que a nova gerência não opere demasiadas mudanças neste tasco onde até me sinto confortável. Contudo, temo uma deriva para o mau gosto. É que os Tesla por fora parecem carros dos anos noventa: não é de excluir que Musk altere o design do Twitter para algo parecido com o mIRC.

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