É um facto que já nesse ano Nobel de 1998, e ainda mais hoje, nunca a vida da maioria das pessoas tinha sido tão longa e tão saudável. A tecnologia proporciona-nos avanços extraordinários. A liberdade parecia consolidar-se como nunca tinha acontecido.
A queda, em 1989, do Muro de Berlim desencadeou euforia em todo o mundo ocidental. Julgou-se que começava uma era de progresso mais justo no mundo. Com mais esperança e declínio de ditaduras e autocracias. Com, esperava-se, mais oportunidades de educação e de trabalho, e com a saúde e a assistência social cada vez mais protegidas. Era a esperança.

Passadas três décadas, percebe-se, no entanto, em todo o mundo ocidental enorme ansiedade e desconfiança sobre o futuro. Será que estas transformações prometem um mundo melhor? Chegam notícias todos os dias de perda maciça de empregos na indústria tradicional dos países ricos. É muito forte o receio de que o curso económico e social deste mundo globalizado, com fronteiras esbatidas, traga amanhãs com mais incertezas na qualidade de vida.

Teme-se que as gerações seguintes tenham menos esperança do que a que alimentou as gerações de agora. Assim cresce a desconfiança, nalguns casos levantada ao nível de revolta, que disparou a partir da crise que começou por ser financeira, em 2008-09. O sistema dominante de governo do mundo ocidental desencadeou então um conjunto coordenado de medidas apontadas para a recuperação financeira e económica, mas que gerou grande depressão e mesmo colapsos na qualidade de vida das pessoas. Entrou-se no tempo da maior desconfiança nos líderes políticos.

A vontade de combater as causas desta frustração é a óbvia explicação para a escalada de movimentos contra o sistema em muito do mundo ocidental. Trump e o Brexit são resultados do voto contra o que estava. A ordem autoritária de Putin emerge na Rússia que Ieltsin tinha deixado em desordem maior. Viktor Orban, com práticas autocráticas, cresce na Hungria porque soube explorar a revolta levantada pela corrupção dos antecessores no regime pós-soviético em Budapeste. Foi com discurso populista que explora a deterioração das condições sociais e económicas numa sociedade cheia de desigualdades que Hugo Chavez precipitou a Venezuela no desastre de uma ditadura que militarizou o regime, aniquila os adversários e, nas mãos do herdeiro Maduro, acelera tragicamente o empurrão do país para o precipício.

Agora, Bolsonaro. Ele apareceu como nostálgico da ditadura militar, racista, homofóbico e misógino, etiquetas que uns clamam e outros contestam. Traz o espectro de militarização da sociedade brasileira. No entanto, seduziu os eleitores a ponto de ter recebido perto de 50% dos votos. O que explica isto? O desespero dos cidadãos gerado pela violência que todos sentem todos os dias na rua ou em casa e pela corrupção à vista de todos. É uma onda de revolta que afasta a racionalidade e que inflama as emoções exaltadas nos altares de crescentes igrejas evangélicas e em constantes manipulações propagadas pelas redes sociais.

O último desaforo a incendiar as almas: Bolsonaro levanta os fiéis contra a confiança no sistema eleitoral ao propagar, no Facebook, que só há segunda volta da eleição presidencial porque o voto eletrónico fez falcatrua com a vontade dos brasileiros. Ele acusa e os seguidores nem questionam se poderá ter sido assim, vício no sistema informático da justiça eleitoral reconhecidamente anti-PT. Os justiceiros do Lava Jato também se envolveram na campanha ao guardarem a divulgação de novos dados da acusação ao PT para as vésperas da eleição. De facto, como escreve Vinicius Mota na Folha de São Paulo, “a Operação Lava Jato varreu quase tudo o que achou pelo caminho”.

O Brasil vai para a decisão no final deste mês partido em três partes: há os que tomaram tanta raiva ao sistema desenvolvido pelo PT que tratam como bando de criminosos quaisquer pessoas dispostas a defender o candidato do PT – e, com essa fúria anti-PT, votam em Bolsonaro; há os que querem tanto reviver o tempo de Lula que, mesmo não gostando do estilo cerebral de Haddad vão votar nele; há os que tanto detestam um como o outro. O debate que terá de haver entre os dois candidatos talvez ajude à escolha entre o apelo messiânico de um e a argumentação racional do outro. Está visto que ambos podem crescer, e que Bolsonaro soube explorar a onda eleitoral. Vem aí uma ponta final de campanha brasileira recheada de insultos e golpes baixos. Em clima de pré-guerra civil, com gladiadores de palavras em total falta de respeito pelo adversário.

A escalada populista no Brasil é a nova etapa de uma deriva que já avançou nos Estados Unidos da América e que entra pela Europa: depois da Hungria e da Polónia, a Áustria e a Itália. Metade do eleitorado italiano votou em partidos contra o que estava. Em França, a extrema-direita juntou um terço dos votantes na última presidencial. A Roménia, a Eslováquia e Malta, com governos que piscam o olho à esquerda, estão na mesma gangrena da ética política que gera revolta.

Está criado o enquadramento para que avance a onda populista. Já sai à rua em Espanha e tem afloramentos em ecrãs portugueses.

Os cidadãos sentem que não têm meios de controlo democrático sobre as decisões que lhes dizem respeito e que os afetam. Assim perdem a confiança nos governantes que se mostram incapazes de tratar as aspirações das pessoas com a tomada de decisões políticas que permitam dar-lhes resposta eficaz.

Os movimentos populistas, à direita extrema como na esquerda extrema, estão a ser sagazes a identificar as necessidades e aspirações das pessoas que se sentem na margem e aos quais os políticos dos sistemas instalados não têm sabido dar resposta. A democracia-cristã que foi força dominante na Europa colapsou. Os socialistas e social-democratas estão desde os anos 90 à procura da identidade – praticamente desapareceram em França, depois das maiorias absolutas nos anos 80 de Mitterand.
Quando o adversário político passa a ser tratado e desprezado como inimigo, é a convivência democrática que se afunda. A batalha política está a ficar sem regras de respeito democrático.

As lições da história do século XX mostram-nos que a liberdade e a democracia não são valores com sobrevivência assegurada. O Brasil é o exemplo de como a moderação e a boa convivência estão a ficar perdidas. Lá no Brasil, Fernando Henrique Cardoso e – há que o lembrar – o Lula inicial na presidência, foram líderes políticos que souberam construir consensos plurais para o desenvolvimento, sem ódios. Viu-se muita gente de direita a aplaudir Lula como antes se tinha visto muita gente das esquerdas a reconhecer Fernando Henrique.

Agora, o povo que está no chão quer levantar-se desse chão. Falta que haja líderes políticos com grandeza democrática.

A TER EM CONTA:

Ignorar os alertas dos cientistas do clima leva-nos ao desastre. Aqui está o SOS por nós todos e pelos que virão já a seguir. Também está aqui e aqui. Todos temos de agir. É mesmo emergência que não dá para ficar em modo de espera.

Uma tragédia, tremenda — uns cinco milhares de mortes, devastação sem fim —, que escapou tanto à nossa atenção mas The New York Times documenta na primeira página.

Quando a destruição de um quadro o torna mais valioso no mercado. O golpe de Banksy com auto-destruição do quadro no leilão milionário. O golpe explicado pelo próprio criador.

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