O dia em que os telemóveis falharam

Nesse mês de Setembro de 1998, fiz 18 anos e vim viver para Lisboa — é por isso que esse último dia da Expo está marcado na minha memória por mais razões do que o mero encerramento duma exposição. O certo é que decidira meses antes: havia de estar nessa última noite. Afinal, não pudera ser voluntário na exposição, mas podia assistir ao fim.

Pois, os meus pais, entre a aflição de ver o primeiro filho a sair de casa e a vontade de também estar lá no último dia da Expo, fizeram-se à estrada para ficar, durante horas, a tentar entrar na Expo pela Porta Norte. Pelo que me contaram dias depois, conseguiram.

O plano era encontrarmo-nos dentro no recinto. Para isso, confiava no meu telemóvel, que recebera — se bem me lembro — no dia dos meus dezoito anos, duas semanas antes. (Por esses dias, tínhamos a TMN e a Telecel — a Optimus entrara no mercado nesse mesmo mês. Só estes nomes já nos deixam na boca o sabor desses anos, um pouco como as roupas que vemos nos vídeos da altura.)

Depois de atravessar a cidade de metro, esperei pacientemente na bicha para entrar. Nunca tinha visto tanta gente no mesmo sítio. Nada daquilo avançava.

Esperei, paciente. O tempo passava. Pensei: o último dia da Expo vai ser isto. Mas, a certa altura, a organização decidiu abrir os torniquetes e deixar toda a gente entrar — porque essa mania de verificar os bilhetes estava a demorar muito tempo.

A multidão moveu-se como lava e, de repente, vejo-me a ser arrastado sem tocar com os pés no chão. Levitei, nesse dia. Tentei encontrar um sítio mais desafogado, mas não havia. Ouvi dizer, por esses dias, que estiveram por ali, entre quem entrou e quem tentou entrar, um milhão de pessoas. Descontando a habitual tendência nacional para a hipérbole, eram mais que muitos.

Andei por ali, como garrafa no mar. Meses depois, uma amiga minha disse-me que me viu ao longe, mas não conseguiu chegar-se ao pé de mim para dizer olá.

O dia em que me perdi dos meus pais

Bem, a missão era clara: encontrar os meus pais. Mostrar-lhes que estava bem, que me orientava em Lisboa. Foi, sem dúvida, o pior dia para mostrar uma coisa dessas.

Comecei por tentar telefonar-lhes para ver onde estavam. Não consegui: tantos telemóveis em tão pouco espaço rebentaram com as antenas. 

Pensei então em pôr-me num daqueles enormíssimos pontos de encontro que ainda hoje lá estão — uns postes às riscas brancas e vermelhas com publicidade no cimo. Nada feito: a multidão era tanta que encontrar uma pessoa em particular seria mais difícil do que encontrar um fio de palha num monte de agulhas.

Nessa noite, não vi os meus pais — mas vi os outros portugueses quase todos.

O dia em que Portugal gritou por Portugal

Sem pais, deixei-me andar. Fui vagueando, procurando clareiras, cansado, com fome, mas com aquela estranha felicidade das multidões. 

Começou então o fogo de artifício que marcava o fim da Expo. Todos começaram a gritar «Portugal! Portugal!».

Não, não era o lamento de Jorge Palma — que certamente actuou durante a Expo, durante a qual houve para cima de 5000 espectáculos, o maior de todos os festivais de Verão deste país — mas era qualquer coisa estranha, um daqueles picos de confiança nacional que antecedem, com inevitabilidade quase matemática, uma grande crise.

Essa sensação de estarmos numa multidão em que os corações batem em uníssono é uma força tremenda, irracional, saborosa e, nas mãos erradas, muito perigosa. Felizmente, ali não havia perigo. Era apenas um grande número de portugueses, com as faces a brilhar do suor, a ver o mesmo fogo de artifício e a gritar o nome do seu país.

Ah, e também chamámos todos pela Elsa, ou não estivéssemos em 1998.

O dia em que o metro encheu

Sei que houve quem por ali ficasse até o sol nascer. Mas eu era um mero adolescente a viver os primeiros dias na grande cidade e tinha de voltar para casa.

Libertei-me da multidão e subi a rampa que havia onde hoje é a entrada do Vasco da Gama. Olhei para aquilo tudo. Tinha a sensação de estar a viver uma data importante. Pensei até que o país mudara nessa noite. Hoje, rio-me dessa ingenuidade, mas o que querem? À falta de revoluções, um adolescente contenta-se com encerramentos de eventos internacionais.

Revolução terminada, pus-me a caminho da casa da minha Prima Raquel, que me acolhera nesses primeiros tempos de Lisboa. Havia que atravessar a cidade de metro. Mas, para isso, era preciso entrar no metro. Na plataforma, havia tanta gente à espera que, desconfio, um mero espirro atiraria umas boas vinte ou trinta almas para a eternidade da linha electrificada.

Um polícia, convencido que era o Júlio Isidro nos tempos em que enfiava humanidade dentro de veículos, andava a empurrar com convicção aquele refogado de portugueses para dentro da lata. Quando dei por mim, estava dentro duma carruagem, com a bochecha esborrachada contra o vidro, as mãos ensanduichadas entre partes de outros corpos e as pernas bem arrumadas por entre outras sardinhas como eu. Sem conseguir mexer a cabeça, fui vendo os nomes das novíssimas estações a passar, aprendendo devagar os nomes da minha nova terra.

Nos ouvidos, ainda pulsava o grito da noite, mas ali não havia quem gritasse pelo país. Ninguém conversava. Ninguém falava ao telemóvel. Ninguém reclamava sequer. Concentrávamo-nos em respirar — até que, num alívio, a carruagem se partiu a rir quando uma voz abafada entre rabos, pernas e braços perguntou: «Mas alguém pagou bilhete para andar nisto?»


Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Escreve no blogue Certas Palavras.

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