Bactérias sem fim

Os antibióticos foram uma das grandes invenções da Humanidade — quantas pessoas não sobrevivem todos os dias por causa desses medicamentos!… O mecanismo é fácil de compreender: há uma bactéria que provoca uma doença? Mate-se a bactéria!

Mas as bactérias têm uma boa defesa: a evolução por selecção natural…

Explico. Imaginemos bactérias que se dividem todas as horas. Se começarmos com uma simples bactéria solitária, um dia depois teremos mais de oito milhões de bactérias! Um horror. (Não acredita? É fazer as contas: uma bactéria divide-se em duas; duas bactérias dividem-se em quatro — 24 gerações depois, temos oito milhões.)

Ora, é aqui que entra a evolução. Qualquer tipo de reprodução — através de divisão ou do sexo — pode correr mal. Nem sempre os genes passam incólumes de uma geração para a seguinte. Há erros! Ou seja, pequeníssimas mutações — raras, é certo, mas importantes.

Em oito milhões de bactérias, a hipótese de haver algumas que vêm com defeito é mais que muita.

As vantagens do erro

Antes de falarmos dos antibióticos, note-se que a Natureza usa o erro como grande motor da evolução.
Imagine o mesmo cenário acima descrito: uma bactéria transforma-se em oito milhões de bactérias num só dia.

De vez em quando, há um erro na divisão e aparece uma bactéria com genes ligeiramente diferentes. Um desses erros talvez não prejudique nem beneficie a bactéria. Muda-lhe a cor, talvez. Ou a forma... Mas ela lá continua a dividir-se ao fim de uma hora.

Pois bem: imagine-se agora que um dos erros leva a que a bactéria diminua a frequência de reprodução. Passa a reproduzir-se apenas ao fim de duas horas. Essa nova linhagem — chamemos-lhe as Vagarinhas — rapidamente desaparece, afogada num mar de bactérias normais...

Pois imagine-se que, por puro acaso, uma das bactérias começa a reproduzir-se ao fim de meia-hora! Podemos chamar a nova linhagem de Rapidinhas… Passadas 24 horas, temos mais de 140 biliões de Rapidinhas! (E biliões portugueses, que são bem maiores que os biliões americanos... Por cá, são 140 milhões de milhões...)

As Normalinhas estariam enterradas neste mar de Rapidinhas... Das Vagarinhas nem vestígios...
Claro que estas gerações todas teriam tido os seus erros, as suas desacelerações, as suas acelerações... Mas o princípio geral é este: qualquer factor que melhore as probabilidades de reprodução — mesmo que muito subtilmente — tem efeitos estrondosos ao fim de umas quantas gerações.

É este, aliás, o mecanismo — que decorre da simples lógica matemática — da evolução por selecção natural de todas as espécies. A evolução selecciona os organismos que ganham alguma vantagem por mero erro de reprodução.

Aliás, a evolução não selecciona nada: os organismos seleccionam-se a si próprios ao reproduzirem-se mais. Um mecanismo simples e extraordinariamente poderoso…

E os antibióticos?

Voltemos às bactérias que nos invadem o corpo. Imaginemos que o erro que aparece numa das milhões de vezes que uma bactéria se reproduz não aumenta a frequência de reprodução — mas torna o bicharoco ligeiramente mais resistente a um determinado antibiótico.

Se a pessoa não tomar nenhum antibiótico, essa mutação aleatória não faz mal. Aquela bactéria solitária é apenas uma entre muitas e não terá vantagem em relação às vizinhas. Mas se a pessoa tomar um antibiótico, então as bactérias sem a tal mutação começarão a morrer e a bactéria resistente começará a tomar conta do território. Quando a pessoa infectar o colega do lado, já vai infectá-lo com a nova bactéria resistente.

Este efeito ocorre sempre — os antibióticos vão perdendo eficácia ao longo do tempo. Mas se os tomarmos em excesso, damos mais oportunidades às bactérias para se adaptarem...

Talvez me digam: mas se eu estiver infectado, mais vale tomar! Se não estiver infectado, também não estou a beneficiar bactérias nenhumas... O problema é que temos sempre muitas bactérias no corpo — se não houver nenhuma infecção, o antibiótico irá moldar as bactérias inócuas que temos no corpo. Ficarão resistentes ao antibiótico. Se, no futuro, estas bactérias se tornarem perigosas, serão perigosas e resistentes àquele antibiótico! O caldo está entornado…

O problema das bactérias resistentes já é grave pelo mundo fora. Não há soluções — mas convém não ajudarmos as bactérias. Elas não fazem por mal, mas matam mais do que moem. O antibiótico é uma excelente arma na guerra biológica com os micróbios — mas não convém dar a conhecer a arma ao inimigo com mais frequência do que a estritamente necessária.

Marco Neves | Tradutor, professor e autor. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. O seu livro mais recente é o Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

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