As distâncias do Universo que conhecemos – e que é apenas uma pequena parte do Universo total, cujas dimensões estão além da nossa compreensão – são de tal ordem que se medem em termos de anos-luz.

A energia tem muitos comprimentos de onda, e apenas uma parte é visível aos nossos olhos – a luz. Ora, a luz viaja a uma velocidade de 300 mil quilómetros por segundo (299.792.458 m/s, mais exactamente). Portanto, um acontecimento luminoso, uma explosão, por exemplo, que ocorra a, digamos, 300 milhões de quilómetros da Terra, levará um milhão de segundos a ser vista à superfície do nosso planeta – mais de 11 dias.

Calcula-se que o Universo conhecido tenha cerca de 156 mil milhões de anos-luz e, além disso, está sempre a expandir-se, a aumentar a distância entre os corpos celestes. Isto quer dizer que fenómenos que aconteceram há milhões de anos terrestres ainda podem ser vistos na Terra. Por exemplo, “a Galáxia de Andrômeda, a mais próxima da Via Láctea, está a dois milhões de anos-luz de nós. Isso significa que, ao observá-la, não estamos a vê-la como é hoje, e sim como era há dois milhões de anos.”

Então, a questão de ver como o Universo começou só pode ser esclarecida se um telescópio lançado no espaço percorrer uma distância suficientemente grande para conseguir captar a luz das primeiras estrelas e, assim, aproximar-se desse momento – o chamado Big Bang, o momento em que uma explosão provocou o nascimento do Universo. O Big Bang é apenas uma teoria, mas é a melhor teoria que temos no momento.

Diga-se, de passagem, que este conceito não contradiz a ideia de que tudo foi criado por uma entidade, Deus, Grande Arquitecto do Universo, ou qualquer outro nome que se lhe dê. As alminhas crentes podem estar descansadas. Saber como foi não é o mesmo que saber porque foi. Aliás, quem primeiro propôs a ideia do Big Bang, em 1931, foi um cientista que também era padre católico, Georges Lemaître.

Desde que a teoria foi aceite pela comunidade científica, tornou-se uma obsessão construir telescópios cada vez mais potentes e, depois, lançar para o espaço telescópios que pudessem, de algum modo, diminuir a distância, logo, o tempo, entre o início do mundo e a actualidade terrena.

Em 1990 foi lançado o projecto mais ambicioso até à data, o telescópio espacial Hubble. Baptizado em honra do astrónomo Edwin Hubble, o satélite está a uma altitude de 547 quilómetros acima da superfície terrestre, ultrapassando as limitações da atmosfera, o que lhe dá uma visão mais clara do espaço. Nestes trinta e dois anos o aparelho foi melhorado com a adição de instrumentos mais aperfeiçoados, transportados por cinco missões pilotadas. As suas observações deram origem a milhares de descobertas interessantes sobre o Universo, mas, evidentemente, pouco acrescentaram em termos de aproximação espaço-temporal do início do mundo. Ver a uma distância de quase 600 quilómetros da superfície é muito pouco.

Daí que se tenha começado logo a conceber um telescópio que pudesse viajar para muito mais longe no espaço, em vez de ficar a circular numa órbita. Construído numa fábrica da Northrop Grumman na Califórnia, o novo aparelho é o resultado da colaboração entre a NASA, a ESA (Agência Espacial Europeia) e a CSA canadiana. Chama-se James Webb, em homenagem a um antigo director da NASA, e está na rampa de lançamento de Kourou, na Guiana Francesa, dentro de um foguetão Ariane 5, à espera do momento certo. A data tem sido adiada e agora está marcada para 25 de Dezembro. A construção levou 25 anos e custou dez mil milhões de dólares.

A complexidade deste engenho ultrapassa a imaginação – ou melhor, é resultado duma persistência técnica e científica de grande ousadia, para resolver todos os problemas que a sua missão implica. Trata-se de um telescópio calculado para ler vários comprimentos de onda (e não apenas a luz visível ao olho humano), que terá de viajar durante um mês até chegar a 1,5 milhões de quilómetros da Terra e, uma vez chegado a esse ponto perdido no espaço, “desdobrar-se”, abrindo vários mecanismos para uma situação operacional, com 344 situações “críticas” – quer dizer, se uma delas falhar, fica inoperacional. Cinco elementos são enormes filtros térmicos (uma espécie de teias translúcidas) para manter a temperatura dos equipamentos a 45ºC acima do Zero Absoluto. Outro é um espelho formado por hexágonos de berílio revestidos a ouro, com 6,5 metros de diâmetro, que captará a energia necessária para o funcionamento dos instrumentos.

Entre esses instrumentos está um espctrógafo chamado NIRSpec, concebido para detectar a luz que as estrelas e galáxias emitiam 400 milhões de anos após o Big Bang – portanto ainda estamos longe da origem, mas muito mais próximos do que estávamos.

(Dentro da “petite histoire” do projecto, o espectógrafo foi concebido e construído em Espanha por uma equipa que integra uma cientista portuguesa, Catarina Alves de Oliveira. Já estamos mais bem colocados do que quando uma costureira portuguesa ajudou a fazer a bandeira desfraldada na Lua por Neil Armstrong, em 1969...)

Entre os muitos artigos escritos sobre o projecto, como o do The New York Times acima citado, vale a pena ler o de Marina Koren na revista “Atlantic” que relata em pormenor as espectativas da comunidade científica.

Portanto, a missão do Webb é diferente da do Hubble, que continuará a sua prospecção do espaço independentemente. O Webb, resumiu John Mather, o cientista-chefe do projecto, tem como objectivo observar os primeiros acontecimentos produzidos pelo Big Bang ou, como ele gosta de dizer “Como é que chegamos até aqui?”

Numa Humanidade cada vez mais esfomeada, dividida e auto-destrutiva, é consolador saber que ainda há oportunidade para gastar dinheiro e neurónios num projecto que nos une a todos: saber como começou esta aventura galáctica de magnitude absoluta, na qual somos um simples grão de pó de duração instantânea – mas com uma imensa curiosidade!

[Atualizado às 19h23]

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