Domingo passado, o escritor e jornalista Manuel Rivas, no seu “Navegar al Desvío”, recuperava uma frase de uma ex-prostituta, entrevistada no âmbito de uma reportagem sobre escravidão no século XXI. Mais do que deixar a pensar, provocou-me um verdadeiro curto-circuito mental, onde se misturaram alguns dos acontecimentos que marcaram a actualidade nos últimos dias...

A frase: “A profissão mais antiga do mundo não é a prostituição, é olhar para o lado”. Repentinamente, passaram-me pela cabeça notícias tão diversas quanto o confronto entre claques do Benfica e do Sporting, que resultaram numa morte por atropelamento; o jogo online “Baleia Azul”, que torna os jogadores, quase sempre adolescentes, em potenciais suicidas; e por fim, os dez anos sobre o desaparecimento da “pequena Maddie”, e toda a cortina de fumo que ensombrou e ensombra a investigação policial, impedindo qualquer conclusão razoavelmente sustentada. O que liga estes três casos, que chocam qualquer pessoa comum, é a ideia de nos dedicarmos a “olhar para o lado” até que o drama nos bata à porta.

Olhamos para o lado quando perpetuamos, por indiferença e negligência, a impunidade das claques desportivas, que além de serem focos de criminalidade, desvirtuam qualquer principio ético do desporto. Não apenas deixamos arder, como achamos normal que os maiores clubes permitam que as claques persistam na sua actividade. De alguma forma, caucionam e alimentam-nas. E nós com eles: nem que seja por partilharmos o mesmo estádio – e quem diz nós, diz as mais relevantes figuras da nação -, somos de alguma forma cúmplices daqueles bandos de foras-da-lei.

Olhamos para o lado quando deixamos os nossos filhos “à solta” na rede, sem qualquer espécie de pedagogia ou regra. Somos capazes de os impedir de irem sozinhos, depois de anoitecer, ao cinema ali da esquina – mas não nos preocupamos com uma plataforma que, a qualquer hora do dia ou da noite, tem predadores à solta, de cara tapada e impunidade garantida pela própria natureza do meio. É preciso haver mortos e feridos para acordarmos para uma realidade que vive connosco há já muitos anos, e que continuamos a ignorar. A internet é a mais rica criação das últimas décadas, e talvez a mais relevante forma de viver, hoje, com democracia e em liberdade – mas pelas mesmas razões, a que nos deve merecer maior atenção quando estão em causa aqueles que, pela idade e inexperiência de vida, precisam de protecção e cuidado.

Olhamos para o lado quando aceitamos, sem maior reclamação do que a clássica frase “são todos iguais”, que a justiça tenha filhos e enteados, e que haja investigações sem fim, suspeitos sem culpa formada, e casos que se arrastam por tempo indeterminado.

É preciso que nos bata à porta a tragédia, “o que só acontece aos outros”, para acordarmos para realidades que deviam envergonhar toda a gente e obrigar a agir, a reagir, em vez de adormecer. Já não acredito que mudemos a tempo de eu ver – mas morrerei a pedir que o tempo do meu filho, dos meus netos, seja outro. Sabendo olhar de frente e acabando de vez com a mais antiga profissão do mundo.

Três matérias a não perder esta semana

A estrela da política mundial, Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, deu uma excelente entrevista à revista Bloomberg Businessweek. Fala de tudo, e obviamente não evita Donald Trump.

O jornalismo no seu melhor, esclarecedor e “explicador”, sabendo enquadrar em cima do momento. Donald Trump interrogou-se sobre a Guerra Civil americana, a Time respondeu-lhe com palavras que têm 150 anos...

Ainda os EUA: um livro que explica a desigualdade social e a classe média americana, num excelente resumo e análise da revista The Atlantic. A ler.

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