Num destes dias, cansados de estar os quatro em casa, lá fomos — em segurança — brincar um pouco ao pé do Tejo, ali para os lados de Belém. Enquanto sentíamos o sol na cara, pus-me a pensar no tema para esta crónica. De que falaria esta semana? O Simão jogava à bola e o Matias, de dois anos, apontava animadíssimo para os barcos no rio, os comboios a passar — e os aviões a aterrar. Eu olhava para cima, intrigado com duas coisas: a felicidade que os meios de transporte trazem às crianças e a minha vaga comoção por ver os aviões, de novo, a passar por cima da cidade e a atrapalhar os ouvidos dos lisboetas. 

Foi então que me veio a ideia: um avião… Não é mau tema para a crónica. Como já tenho feito noutras semanas, vou de viagem a bordo da palavra.

Ora, ao contrário de outras palavras cuja origem se perde nos quilómetros de conversas que ninguém registou, esta parece ter um certificado de nascimento com todos os carimbos. Fomos buscar a palavra ao francês avion, palavra que foi inventada por uma pessoa em particular: Clément Ader. O engenheiro francês criou vários protótipos de máquinas voadoras, a que chamou, sucessivamente, "Éole", "Avion II" e "Avion III". Mais tarde, a Força Aérea francesa pegou no nome próprio "Avion" e transformou-o no nome comum "avion". Assim nasceu a designação destes pesados mecanismos aéreos. A palavra lá nos chegou do francês, prontinha a ser modificada com o portuguesíssimo e difícil ditongo «-ão». Mantemos em paralelo a palavra "aeroplano", relacionada com a inglesa "airplane".

Clément Ader é um dos pioneiros da aviação. Conseguiu levantar voo numa das suas máquinas, mas o voo não foi controlado. Imagino que ainda haja quem o considere o primeiro a voar com uma máquina mais pesada que o ar. Se formos ao Brasil, também encontraremos quem refira Santos-Dumont como o inventor do avião. Como sabemos, os Irmãos Wright mantêm-se nas enciclopédias como os verdadeiros inventores de um avião capaz de voar.

Na verdade, se todos estes pioneiros se encontrassem hoje, vindos dos céus onde andam a voar, conversariam como colegas, entusiasmados com os desenvolvimentos que não chegaram a conhecer. Muitas invenções são fruto não só do engenho individual, mas também da acumulação de conhecimentos técnicos. Mesmo as falhas vão contribuindo para sabermos o que resulta e o que não resulta. A certa altura, parece que muitos ficam numa posição em que basta dar um pequeno passo. Quem efectivamente o dá é uma questão de coragem e talento — mas também de alguma sorte.

Enfim, a palavra "avion" também parece ter sido inventada do nada por Ader, mas foi criada com base na palavra latina "avis". Também as palavras parecem dar grandes saltos, mas são quase sempre fruto da lenta acumulação de usos colectivos, palavras antigas com novos significados, vagas conotações destes ou daqueles sons... Quando precisamos de uma palavra nova, olhamos em volta e vemos o que se dizia antes, o que dizem os vizinhos — e por vezes a invenção surge sem ninguém dar por isso, naturalmente, sem que se registe o inventor. É assim com quase todas as palavras que usamos. Por acaso, o nome que damos ao extraordinário bicho que entusiasma o meu filho ao descer, majestosamente, pelos céus de Lisboa, tem mesmo um pai. Mas as palavras libertam-se dos donos: todos as usamos sem prestar contas a ninguém.

Para terminar, duas sugestões de leitura: 

  • "The Evolution of Everything", de Matt Ridley, que mostra como, para lá da biologia, encontramos processos evolutivos em muitas áreas sociais, da língua à tecnologia. 
  • "O Aviado"r, de José Correia Guedes, um piloto da TAP que nos conta inesquecíveis histórias da aviação.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu último livro é o Almanaque da Língua Portuguesa.

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