Quem trabalha em tradução tem mais histórias para contar do que se pensa: afinal, recebemos documentos não só de fábricas de máquinas de lavar, mas também de advogados, jornalistas, clientes longínquos — e ficamos assim a conhecer um pouco melhor o funcionamento do mundo. Temos histórias para contar, sim — mas não podemos contá-las. A confidencialidade é uma das nossas obrigações. Ficamos calados, mas com um sorriso nos lábios: o nosso trabalho é bem mais animado do que imagina quem nos vê de fora.

A história que vou contar não é segredo. Um dia, a nossa equipa recebeu um pedido de orçamento de uma empresa japonesa. Até aí, nada a assinalar: acontece muitas vezes. O texto a traduzir era uma declaração técnica sobre uma máquina fotográfica que estava em inglês. Também nada a assinalar — recebemos pedidos muito variados todos os dias.

O peculiar do pedido era a língua de chegada (como dizemos entre tradutores). Não era para traduzir para português, o mais habitual quando uma empresa japonesa contacta uma empresa de tradução portuguesa, mas sim para mirandês.

Ficámos baralhados. O mirandês é uma língua reconhecida oficialmente e tão digna como qualquer outra, mas era o primeiro trabalho que alguém nos pedia para esse idioma. Seria engano?

Perguntámos ao cliente se confirmava a língua de chegada. Lá do Japão veio a resposta, num inglês perfeito: «Sim, mirandês, uma língua falada em Trás-os-Montes, no concelho de Miranda do Douro. Qual é a dúvida?»

Engolimos em seco e pusemo-nos ao trabalho. Os tradutores de mirandês que contactámos (não são muitos) ficaram também admirados, mas lá conseguimos entregar a declaração em mirandês. 

Por que razão precisava o cliente daquela declaração? Percebemos depois que a queriam em todas as línguas oficiais ou oficialmente reconhecidas da Europa e o mirandês era a única que lhes faltava. 

O mirandês é falado há muitos e muitos séculos, pertencendo à mesma família que o asturiano e o leonês. É falado por alguns milhares de portugueses, promovido pelas instituições municipais e reconhecido pelas instituições nacionais desde 1999, na sequência de uma decisão unânime da Assembleia da República. 

Há pessoas a quem faz confusão esta insistência em proteger línguas minoritárias — mas, se tentarmos imaginar a nossa própria língua (ou a língua dos nossos avós) numa situação em que estivesse a desaparecer, talvez seja mais fácil perceber o que sente quem se preocupa com o desaparecimento do seu idioma. 

Uma das estratégias para proteger uma língua em perigo é traduzir para essa língua. Há tradutores a trabalhar em mirandês, embora raramente tenham projectos técnicos entre mãos. 

O mais famoso foi Amadeu Ferreira, falecido em 2015 — não só foi um incansável defensor do mirandês, como traduziu Camões e Pessoa — e ainda teve tempo de trazer livros do Astérix para essa outra língua portuguesa. 

Há quem pense que não é possível traduzir todos os textos para idiomas falados por poucas pessoas. Como encontrar vocabulário? Ora, é sempre possível — e, sim, implica, por vezes, criar ou importar palavras, mas isso é o que acontece em todas as línguas. Também o português recebeu palavras novas ao longo da história — e até o inglês tem muitas palavras criadas por tradutores. Mas, na maioria das vezes, nem é preciso inventar palavras: as línguas, sejam faladas por milhões ou por duas pessoas, são bem mais ricas e maleáveis do que pensamos. 

Havendo quem aceite o desafio, podemos traduzir qualquer texto para qualquer língua. A tradução alarga as línguas — e as culturas de quem as fala. 

Para terminar, deixo o início d’Os Lusíadas, pelas mãos de Fracisco Niebro (pseudónimo de Amadeu Ferreira): 

Aqueilhas armas i homes afamados

Que, d’Oucidental praia Lusitana,

Por mares datrás nunca nabegados,

Passórun par’alhá la Taprobana...

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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