A história começa em 1988.  É o ano da publicação da primeira edição dos "Versículos Satânicos", de facto um livro de aventuras em que a ironia e a inteligência acutilantes de Salman Rushdie contam as aventuras de dois indianos, Gibreel e Saladin, supostamente mortos num atentado contra o avião em que seguiam da Índia para Inglaterra, quando voava sobre o Canal da Mancha.

Rushdie cultiva o realismo mágico com a atmosfera do sub-continente indiano onde nasceu (Bombaim, 1947). É com essa magia narrativa que os dois protagonistas da história afinal ressurgem, sãos e salvos, numa praia no sul de Inglaterra. Tornam-se mais dois imigrantes na Londres que em '79 tinha entrado na vigência da década da, para muitos, desalmada "Dama de Ferro", Margaret Thatcher.

Os dois protagonistas criados por Rushdie representam o Bem e o Mal, o Messias e o Demónio, naturalmente em colisão. No segundo capítulo, Gibreel está a perder a sanidade e vive assombrado por episódios que fazem parte da lenda da história islâmica. Gibreel é tomado por visões alucinadas.

Uma dessas visões torna-se a história imaginada que pôs o ayatollah Khomeini a emitir uma fatwa que inflamou o fanatismo islâmico contra Salman Rushdie, com a pretensão de o matar.

Rushdie recupera uma lenda segundo a qual o profeta Maomé teria sido enganado pelo Diabo, que lhe teria ditado versos que foram incorporados no Corão, embora depois retirados quando o profeta terá percebido ter sido armadilhado. Ora, Rushdie inventa uma personagem meio caricata, o profeta Mahound – alusão óbvia ao profeta Maomé – que é enganado por Satã. 

Ter imaginado um episódio assim de suposto desrespeito pelo profeta foi quanto bastou para pôr em fúria o fanatismo religioso.

A perseguição ao livro, publicado em setembro de 1988 até começou na Índia onde Rushdie nasceu: logo no mês seguinte, outubro, o primeiro-ministro Rajiv Gandhi, às voltas com difícil campanha eleitoral, antecipa-se na vaga de intolerância e decreta a proibição dos "Versículos Satânicos" em toda a Índia. O proibicionismo propagou-se logo a seguir a mais 23 países.    

Em 14 de fevereiro de 1989, o ayatollah Ruhollah Khomeini, através de uma fatwa, convoca todos os “muçulmanos zelosos” para que “executem o autor do livro blasfemo” tal como “todos os ligados ao conteúdo” para que “ninguém volta a insultar a santidade islâmica”.

Foi uma ampla condenação à morte a ser executada pelos terroristas do fanatismo islâmico.

Uma expressiva recompensa em dinheiro foi prometida a quem faça consumar a morte do escritor e seus associados, acusados de pretenderem “ridicularizar o profeta e o Corão”.

Salman Rushdie passou a estar constantemente rodeado por escolta de guarda-costas. Deixou de aparecer em qualquer lugar público. Naquele ano de 1989, foi escondido em 56 domicílios diferentes. Temiam-se atentados à distância, era preciso garantir-lhe um esconderijo que ninguém pudesse detectar.

Levantaram-se os movimentos de solidariedade com Rushdie e contra a intolerância. Nos EUA, Susan Sontag e Tom Wolfe organizaram sessões públicas de leitura coletiva dos "Versículos Satânicos". Foram muito participadas, mas obrigaram a extremos cuidados de segurança. Em resposta ao ativismo nos Estados Unidos, milhares de paquistaneses atacaram o centro cultural americano em Islamabad. Houve vários mortos e dezenas de feridos. A tensão cresce com mais manifestações e mais mortes, no Paquistão, no Bangladesh, na Turquia e em vários outros países.

Em resposta ao ódio do fundamentalismo religioso islâmico, em 2 de março de 1989, 700 intelectuais e artistas de 72 países assinam um manifesto de apoio a Rushdie e à liberdade de expressão.

Mas o ódio estava à solta. Nos meses seguintes, Ettore CaprioloIo, tradutor dos "Versículos" para italiano, foi esfaqueado à porta de casa em Milão – conseguiu sobreviver; Hitoshi Igarashil, tradutor para japonês, foi morto, também à facada; William NygaardIl, tradutor para norueguês, resistiu vivo a um ataque a tiro em 93; Aziz Nesin, intelectual turco, promotor de apoios a Rushdie, foi vítima em 93 de um ataque incendiário, no salão de um hotel, em que morreram 37 pessoas, entre elas vários poetas e romancistas. Tudo, violência desencadeada pelo diabólico ayatollah Khomeini, entretanto falecido.

A crise provocada pela perseguição a Rushdie tinha provocado o corte de relações diplomáticas entre Londres e Teerão. Rushdie, em tentativa de apaziguamento, publicou um texto, "De Boa Fé", de apelo à sensatez e à inteligência. Foi ignorado pelos fanáticos. 

Pensou-se que em 98, dez anos depois da publicação dos "Versículos", e com Rushdie sempre oculto, poderia haver alguma pacificação: o reformista Khatami foi eleito presidente do Irão e ousou propor que a fatwa não fosse executada; mas em 95, Ali Khamenei, guia supremo e, como tal, autoridade máxima no Irão, ditou que executar Rushdie é uma tarefa prescrita pela fatwa e que ninguém a poderia anular a não ser quem a proclamou – mas quem a proclamou, Khomeini, já não era vivo, portanto a fatwa permanecia para a eternidade.

Salman Rushdie já tinha mudado residência de Londres para Nova Iorque. Continuou a ser protegido por um corpo de segurança, mas confiou que na América o maior risco estivesse neutralizado.

Em 2015, na apresentação do livro "Dois Anos Oito Meses e Vinte e Oito Noites", apareceu numa sessão muito vigiada e começou por dizer: “Se vivemos sob medo e pressão constante não conseguimos criar arte”. Rushdie sabia bem do que falava. Decidiu que haveria de voltar a chamar um táxi e a entrar em livrarias e restaurantes.

Então, em 2012, Rushdie já tinha escrito "Joseph Anton", um livro de memórias, em que conta ao longo de quase 700 páginas o inferno de viver sob escolta permanente, de casa em casa. "Joseph Anton" é um retrato autobiográfico do pesadelo. O nome do livro remete para dois escritores essenciais na formação de Rushdie: Joseph Conrad e Anton Tchekov.  O terceiro é Lewis Carroll, o escritor da "Alice no País das Maravilhas", que despertou a imaginação de Rushdie e o gosto de escrever também para os mais novos.

Rushdie já era um escritor admirado meia dúzia de anos antes de publicar os "Versículos Satânicos". Em 1981 escreveu aquela que será a sua mais notável criação literária, "Os Filhos da Meia Noite". Esta história começa quando os ponteiros do relógio marcam a meia-noite de 15 de agosto de 1947, o instante da proclamação da independência da Índia e do Paquistão, libertando-se do domínio colonial britânico. Nasciam naquele momento duas nações em choque permanente, a Índia hindu e o Paquistão muçulmano. O laico Rushdie explica com profundidade mas extraordinária clareza o relacionamento, marcado pelo antagonismo, entre aqueles dois povos.

Vieram depois livros memoráveis: "O Ultimo Suspiro do Mouro", "Shalimar, o Palhaço", "Oriente Ocidente", "A Feiticeira de Florença", "Fúria", "O Chão que Ela Pisa", "Nicarágua: o Sorriso do Jaguar" e outros mais. Entre estes "Harun e o Mar de Histórias", dedicado ao filho e escrito para ser lido pelos mais novos.

Há três anos, publicou "Quichotte". Inspira-se no clássico de Cervantes para contar a história de um autor falhado de romances de espionagem.

Em todos – de modo muito especial em "Oriente Ocidente" – Rushdie analisa com sabedoria as contradições das sociedades do nosso tempo. Em todos aparece a influência dos grandes Conrad e Tchekov, mas também, poderosíssima, a de Gabriel Garcia Marquez.

Em quase toda a obra literária, também na vida, de Salman Rushdie está a denúncia da intolerância e desse ódio que levou a que um criminoso com apenas 24 anos faça que a vida de Rushdie, 24 horas depois de ter sido esfaqueada, esteja dependente da máquina que o faz respirar. 

A defesa da liberdade – frente à tirania, a estupidez, o fanatismo – tornou-se elemento essencial de toda a vida de Salman Rushdie. É uma inspiração para todos nós.

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