Quando explico que não vejo o noticiário há dez anos, sou muitas vezes recebida com olhares de surpresa. A verdade é que, quando se vive com um distúrbio de ansiedade, aprendemos a encontrar estratégias para interagirmos com o mundo de forma saudável. Para mim, uma dessas estratégias passa por moderar as notícias que consumo.

Ultimamente, tenho sentido que estar no lado do receptor do fluxo de comunicação é uma experiência semelhante a estar escondido num bunker à espera de ouvir o próximo estrondo. Cada notícia sobre a pandemia surge como uma reafirmação de uma penúria emocional colectiva: contínua, pesarosa e sem fim concreto à vista. De tal forma que — à semelhança de outros — dou por mim a ter saudades de coisas das quais nunca pensei sentir falta.

Tenho saudades dos pombos lisboetas, do cheiro a pipocas à saída do metro e até mesmo de ser interpelada — antes das oito da manhã — para responder a uma pergunta do Bom Português. Tenho saudades de sair do trabalho, passar ao lado do estádio de Alvalade e ver a alegria dos miúdos a treinar enquanto pais e avós os observam atentamente num misto de orgulho e preocupação.

Com a pandemia, estes e outros pequenos rituais diários desapareceram, assim como as pessoas e paisagens que faziam parte do meu quotidiano. Restam-nos as memórias. No entanto, há ainda um outro sentido de perda mais peculiar. O do luto de um futuro que não pode ser cumprido. A saudade de estarmos em carne e osso com aqueles que amamos, criando novas memórias e experiências. Afinal, somos o país das saudades: como é que lidamos com este sentimento de perda perpétua?

Não há fórmulas mágicas para resolver esta sensação de vazio, mas há hábitos velhos que podemos trazer para um mundo novo. A escrita é um deles. Qualquer pessoa que tenha mantido um diário durante a sua infância, ou adolescência dir-vos-á que lá escreveu muitas coisas das quais agora se envergonha, ou que, no mínimo, espera que não venham a ser reveladas. É certo que um diário pode ser um conjunto de confissões embaraçosas, mas também é uma prova viva das catarses que a escrita proporciona.

As formações em journaling proliferam por alguma razão. A ciência mostra-nos que o “deitar tudo cá para fora” pode funcionar, efectivamente, como um mecanismo de cooperação. Um diário pode assim servir como um depósito em papel das nossas mágoas e angústias.

Há uma frase famosa da diarista Anaïs Nin que diz que escrevemos para experienciar a vida duas vezes: no momento e em retrospectiva. Mas e se escrevermos sobre aquilo que dói, valerá a pena revivê-lo?

Eu digo que escrever é sempre transpor e transformar. Criamos na palavra escrita algo que é simultaneamente nosso e — uma vez no papel — não mais parte de nós. Transforma-se em passado assim que a tinta atinge a folha. Quero crer que essa transformação atenua, alivia e, com o tempo, torna o trágico menos terrível.

Continuo ansiosa pelo futuro e com saudades do que já foi, mas sei que posso contar com o pequeno milagre da escrita. Mais tarde irei folhear os meus diários dos tempos de confinamento e quem sabe se não irão surgir alguns sorrisos. Fica o conselho para ti. Se escrever é viver duas vezes, escreve a saudade.

*Andreia Esteves escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

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