O diário Tulsa Tribune, quando aquela efervescência branca se levantou, reduziu tudo a “uma romanceada, muito ficcionada, abordagem de um rapaz a uma rapariga dentro de um elevador”. Mas, entre a comunidade branca, o facto de um negro ousar pretender namoriscar uma branca, ativou apetites de linchamento, que foi consumado. 

A barbárie, na madrugada de 1 de junho de 1921, devastou ao todo 35 quarteirões do bairro de Greenwood, onde vivia, segregada, a mais próspera comunidade negra na América. Era uma população enriquecida com a indústria petrolífera. Greenland passava por ser a Wall Street dos negros. Foram incendiadas mais de 1250 casas no bairro onde viviam 10 a 12 mil pessoas. Mais de 200 lojas ficaram reduzidas a cinzas, tal como dois hospitais públicos, duas clínicas privadas, 23 igrejas, 15 consultórios médicos, seis escolas, três cine-teatros, duas bibliotecas, sete livrarias, nove hotéis ou pensões e a redação e tipografia de dois jornais. A polícia de Tulsa foi então cúmplice desta fúria branca.

O que aconteceu há exatamente 100 anos naquele vasto bairro de Greenwood, foi limpeza étnica da mais empreendedora comunidade negra nos EUA. A conspiração para este crime teve a participação de vários eleitos políticos brancos e de gente da polícia.

A América daquele tempo soube do essencial deste que é o provavelmente mais atroz dos episódios de racismo nos EUA. Soube, teve vergonha e escondeu.

O massacre de Tulsa, há 100 anos, é uma tragédia que abre, com dimensão máxima, a “cancel culture” nos livros de história nos EUA. Toda a memória daquela barbárie ficou censurada em todo este tempo.

O atual presidente dos EUA, Joe Biden, tem o grande mérito de ter tido a sensibilidade para restituir verdade, memória e honra às vítimas, representadas pelos descendentes – mas também duas sobreviventes, Viola Fletcher, com 107 anos, e Lessie Randle, com 106.

Biden teve a coragem para ir a Tulsa chamar as coisas pelo nome: “o que aqui aconteceu não foram distúrbios raciais, foi o massacre de negros por brancos” e declarar que “o supremacismo branco é a maior ameaça que a nossa nação enfrenta”. O atual presidente pronunciou mais duas frases valentes: “Devemos enfrentar as raízes do medo racial instalado no nosso país. Temos de nos empenhar para abatermos o racismo sistemático que sufoca o nosso país”.

Tulsa, 100 anos depois, é uma nova etapa no percurso de Joe Biden para tentar pacificar a América um ano depois da morte de George Floyd. Mas a tensão em volta desta evocação mostra como as feridas raciais estão muito abertas. As ameaças desencadeadas por grupos supremacistas brancos atingiram tal dimensão que o músico John Legend (Óscar pela banda sonora do filme "Selma") cancelou o concerto previsto.

O voto afro-americano foi determinante para a eleição de Joe Biden e Kamala Harris. A nova presidência elegeu a luta contra a discriminação e desigualdade como ambição forte deste mandato. Um dos objetivos é o de ampliar a participação dos cidadãos nas eleições, o que passa por criar as condições que têm faltado para que as minorias raciais votem.

A oposição republicana está a manobrar para conseguir precisamente o contrário: 11 estados republicanos mais conservadores estão a tratar de mudar a lei de modo a dificultar o voto das minorias. Repetem os argumentos que Trump usou, invocam que o voto por correspondência propicia a fraude.

O direito ao voto tornou-se uma questão política do momento nos EUA. A presidência e a maioria dos democratas quer que todos os cidadãos dos Estados Unidos possam votar; os republicanos pretendem uma rede de limitações que justificam como modo de garantir a fiabilidade do ato eleitoral.

Já estão para discussão no Congresso em Washington mais de 360 normativas apresentadas por republicanos de 47 dos estados, todos com o objetivo de dificultar o acesso à votação. As propostas envolvem detalhes, mas que contam: por exemplo, é sabido que em várias regiões um dos períodos de maior afluência de negros para votar é entre as 6 e as 8 da manhã (num só condado, o de Harris, 100 mil eleitores votaram nesse período nas últimas presidenciais); tendo em conta essa realidade, vários estados alargaram a abertura dos locais de voto ao período entre as 6 da manhã e a meia-noite; agora, há propostas republicanas de retoma do antigo horário entre as 9 da manhã e as 6 da tarde. Também há propostas que declaram delito a oferta de água e comida aos eleitores em filas de espera, prática frequente na Florida onde há quem espere mais de três horas pelo momento de votar. Neste estado da Florida, nesta última eleição presidencial, 4,8 milhões de eleitores votaram por correio. Agora, os republicanos propõem restringir muito essa possibilidade, através de limitações burocráticas. Outras propostas visam extinguir o uso de postos de abastecimento de combustível como locais de voto ao longo de 24 horas. 

Os eleitos republicanos pretendem endurecer já neste mês as leis sobre votação, com os olhos postos nas legislativas de novembro do ano que vem, quando haverá que renovar os 435 lugares na Câmara dos Representantes e 34 dos 100 lugares no Senado, agora com liderança democrata.

O presidente Biden já qualificou esse pacote de propostas republicanas de “assalto sem precedentes ao nosso modelo democrático”. Biden escolheu a cerimónia de memória em Tulsa para anunciar que este mês de junho “vai ser de ação” para combater politicamente essa “pretensão de restrição de direitos de voto”. A vice-presidente Kamala Harris, até agora muito discreta, está destacada para liderar essa campanha de defesa do direito de voto.

Está previsto que o Senado comece a discutir o “pacote sobre o processo eleitoral” já a partir de 21 de junho. Os democratas têm maioria de quatro lugares na Câmara dos Representantes e o empate 50/50 no Senado, em teoria, é desfeito a favor dos democratas, por efeito do voto de desempate da presidente da assembleia (Kamala Harris). Mas Biden já lamentou que dois senadores democratas se preparem para, nesta legislação, “votarem ao lado dos nossos amigos republicanos”. 

Está em causa garantir, de modo transparente, o voto de todos os cidadãos nos Estados Unidos da América. Quando passam 100 anos sobre o massacre de Tulsa que teve a ocorrência censurada, a questão racial continua a ser crucial nos EUA. 

Donald Trump já abriu neste fim de semana, na Convenção republicana na Carolina do Norte, a batalha, que se anuncia rude, para as legislativas de 2022. Ele coloca-se à cabeça dos republicanos e usa os métodos a que nos habituou para tentar dinamitar a presidência Biden e a maioria democrata que, diz ele, “estão a destruir os Estados Unidos”. 

É o choque de sempre entre a América dos brancos e a América de todos. Agora, com a batalha avivada.

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