Mas isto não é só sobre gastronomia. Por estes dias, tem-se falado do que é ser português, também a propósito da atribuição de nacionalidade, em ambos os parlamentos, o da Assembleia e o do Twitter. E foi neste último que li que o seguinte, vindo de uma verdadeira e iluminada alma portuguesa: “Eu não sou portuguesa porque nasci em Portugal. Eu sou portuguesa porque a minha mãe e pai são portugueses e passaram essa herança genética pra mim. Podes-te identificar com a cultura de um país, mas não és parte do povo.”. Não estava exactamente assim, mas quase. Tive só de corrigir pequenos erros gramaticais, mas também não é por não se saber usar correctamente a língua portuguesa que se é menos português de herança genética.

Convém, claro está, perceber o que é isto de ser português de herança genética. A verdade é que a ciência – seja o que isso for consoante aquilo em que quisermos acreditar – já provou, por exemplo, que é através dos genes passados pelos nossos pais que adquirimos o gosto por conduzir pela faixa do meio da auto-estrada, por estacionar em segunda fila porque é mesmo só um instante, ou por não votar porque o que é que isso vai mudar.

Para se ser português de Portugal, não basta nascer no território cansativamente conhecido por racismo à beira-mar plantado. Até podes ter tido essa incomensurável sorte, mas se não tiveres em ti os genes que te fazem adorar touradas ou dizer que todos os políticos são corruptos, então não és filho de boa gente, porque és gente que não sente. És um bocado como o bacalhau. Estás ligado a Portugal, adoras cá estar e até te imiscuis na cultura mas, no fundo, és da Noruega. Da Noruega a sério, claro, de brancos loiros, que isto até lá já está a ser conspurcado pelos coisos.

Se atribuirmos a nacionalidade portuguesa a qualquer um que cá nasça, sem fazer previamente um teste de ADN que comprove que tem em si o cromossoma dos ovos escalfados com ervilhas e do acordeão em trocadilho menor, então ficamos aqui ao deus-dará. É vê-los, aos tais coisos, a vir todos para Portugal em barda para ter filhos portugueses, mesmo que isso implique gastar provavelmente todo o seu dinheiro, deixar as suas origens e passar a viver a milhares de quilómetros delas. E ainda há quem tenha o desplante de dizer que isto é um exacerbado exagero, propositado e justificado pleonasmo, porque toda essa conjuntura é algo que ninguém almeja de ânimo leve. Poupem-me. Qualquer nacionalista, entenda-se qualquer pessoa que sente Portugal como deve sentir, sabe que somos o melhor país e povo de todo mundo e até do Universo. Logo, toda a gente do mundo, até a gente inferior, quer ser portuguesa e viver em Portugal, como humildemente todos sabemos.

Resta-nos então concluir que rejeitar esta proposta de atribuição de nacionalidade não é minimamente racista, até porque todos até temos amigos que são coisos. Mas se querem mesmo ser portugueses não basta cá nascerem, estudarem, trabalharem, ou contribuírem para a economia com o trabalho e o pagamento de impostos. Ou têm genes de bigode e vistas curtas, ou esperam umas dez gerações até se aculturarem e perceberem que Portugal é dos portugueses, mesmo que seja Portugal dos Pequenitos.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- No Twitter: Sigam o José Pedro Monteiro, sinónimo de lucidez.

- Em podcast: Episódio do "Perguntar Não Ofende", do Daniel Oliveira, com a Beatriz Gomes Dias.

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