(1) Javalis e (2) Facebook

Já sabemos que as lamúrias sobre as redes sociais costumam ser um tanto ou quanto exageradas. Mas há verdadeiros problemas com a nossa capacidade de distinguir a verdade da ficção no Facebook. E nem vou começar pelas famosas notícias falsas.

Aqui fica um caso muito pessoal. Há uns tempos, contei no Facebook como um pobre javali deu de cornos com o meu carro — e logo a seguir dou de caras com um responsável da seguradora que me pede, sem se rir, a declaração amigável bem preenchida. Perguntei eu então no Facebook como convencer um javali a assinar tal documento.

A má piada foi o suficiente para alguns amigos acharem que eu tinha inventado a história e estava a escrever um pequeno conto humorístico. Soube disso quando mostrei o carro acidentado a um amigo e ele ficou de boca aberta: “Espera lá, mas aquilo aconteceu mesmo?” E eu lá lhe disse que, sim, às vezes dá-se o estranho caso de algum ingénuo escrever um episódio verdadeiro no Facebook. Nem que seja sobre um javali a bater num carro.

(3) Trump e (4) Portugal

É verdade: no Facebook, a verdade sofre torturas indescritíveis, mas nem sempre é porque alguém nos quer mentir. Muitas vezes, é por causa das tendências e das fraquezas de todos nós multiplicadas pela força da multidão clicante.

Façam a experiência: comecem um boato sobre uma personagem estrangeira que diz mal de Portugal. É quase tão perigoso como gritar “fogo” num teatro! (E, por isso, peço encarecidamente que ignorem a minha sugestão e não façam a experiência.)

Há uns tempos, encontrei um artigo muito partilhado cujo título dizia que Donald Trump insultara os portugueses, comparando-nos depreciativamente com os espanhóis. No mural virtual onde agora vivemos grande parte do dia, assisti um festival de partilhas, comentários, textos tremendos e cabelos arrancados.

Também fiquei um pouco indignado, mas cometi o pior erro de quem gosta de ficar confortável nas suas indignações: em vez de carregar no botão “Partilhar”, carreguei na própria notícia para a ler.

Ora, o texto explicava que era tudo mentira. Era uma partida. Trump não apontou a bazuca a Portugal. Menos mal — mas depois caiu-me a ficha: é tão fácil, mas tão fácil pregar estas partidas. Acreditamos em quase tudo, bastando para isso que o texto confirme o que já pensamos ou nos faça cócegas na identidade (seja ela qual for). E, reparem, estou a falar dum texto que se declarava como falso…

(5) Vacinas e (6) amigos

Se eu agora publicasse no Facebook a frase “Força: continuem a não vacinar as crianças!”, os meus amigos mais próximos reconheceriam a ironia sem dificuldade. Primeiro, porque sabem o que penso sobre o assunto. Depois, provavelmente, muitos leram as notícias sobre os novos casos de sarampo que parecem estar relacionados com uma menor cobertura da vacinação — e veriam na minha frase uma reacção a essas notícias.

Mas, lá está, no Facebook somos “amigos” de muitas pessoas de quem não somos amigos (ah, bendito inventor das aspas). Mais: acho que todos nós — felizmente — temos amigos (sem aspas) que não pensam como nós e não lêem exactamente as mesmas coisas que nós. Mais: até os nossos melhores amigos não nos conhecem tão bem como às vezes pensamos. Não andamos pela vida com um bloco de apontamentos a registar as opiniões e inclinações dos amigos. Aliás, aquilo que sabemos sobre alguns deles terá muito que ver com o grau de embriaguez naquelas noites tontas em que contámos a vida uns aos outros. É sabido que, a partir dum determinado nível de álcool no sangue, os segredos que nos contam desaparecem ao primeiro sinal de café na boca.

Por isso, se eu escrevesse essa tal frase sobre as vacinas no Facebook, é bem provável que a ironia se evaporasse e por lá ficasse um perigoso apelo à não vacinação das crianças.

Isto dá para os dois lados: estou convencido que já li textos impregnados duma ironia tão fina, mas tão fina que eu não a vi.

(7) Mas quem matou a ironia?

Quando escrevemos no Facebook, não estamos no meio dum pequeno clube de gente parecida, condição quase imprescindível para que as piadas, o sarcasmo e a ironia sobrevivam.

Sempre fizemos parte de muitos desses clubes: todos temos piadas que só usamos com estes amigos e não outros. Ora, no Facebook, esses clubes estão todos misturados e não nos conseguimos adaptar à pessoa com quem estamos a conversar. Os nossos textos aparecem aos olhos da nossa amiga Rita, mas também do tio da Rita, da mãe da Rita e do namorado da Rita — e se escrevemos um post irónico sobre um certo líder partidário (“Fulano da Silva é a decência em pessoa!”), a Rita vai gostar do nosso sarcasmo (com sorte), mas o tio da Rita vai ficar desiludido com as nossas inclinações. Ou então — pior — não percebe a ironia e fica convencido que achamos mesmo que Fulano da Silva é um político decente.

O problema não é a qualidade da leitura, mas antes a quantidade de escrita e de contactos entre quem escreve e quem lê. Afinal, quantos mais quilómetros de escrita percorrermos, mas probabilidade haverá de termos um acidente.

Alguns desejam voltar aos tempos em que poucos escreviam e uns quantos liam o melhor possível. Mas talvez seja melhor fazer o esforço de aprender a viver, aos poucos, com estes meios de comunicação um pouco mais impiedosos. Sim, vamos ter acidentes. Mas a única maneira de os evitar é não sair de casa. Mais vale arriscar, pôr o pé no pedal e escrever sem tanto medo dos javalis que, mais tarde ou mais cedo, se atravessam à nossa frente.

Marco Neves | Autor do blogue Certas Palavras. Publicou em Janeiro o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa.

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