Isto para me lembrar, com algum embaraço, que as minhas aversões tauromáquicas originais talvez não passassem de xenofobia. Possivelmente os mais novos não se recordam, mas até há pouco tempo imperava uma inimizade latente com Espanha, inimizade e latência ambas mais notórias do nosso lado (o país vizinho já continha dentro de si países suficientes com os quais se chatear). As razões históricas para o diferendo com nuestros hermanos são variadas - algumas remotas, algumas recentes – mas o desaguisado tornou-se num folclore forjado e sem importância, ao ponto de se estabelecerem armistícios anuais para o dia do Festival da Eurovisão.

No fundo, eu não gostava de touradas da mesma forma falsa com que não gostava de espanhóis. “Eles falam demasiado alto; percebem pouco do que lhes dizemos; têm as séries de televisão todas dobradas; divertem-se com touros ensanguentados” – e era neste chorrilho ligeiro de preconceitos e generalizações que se esgotava a minha opinião sobre a tauromaquia. Mas essa terra de onde não vem “nem bom vento nem bom casamento”, continuava a servir-me como destino de eleição para férias: eu, jovem, aguardava o alvoroço musical das falas altissonantes nas calles; reservava o meu mais prazenteiro sotaque castelhano para quebrar desentendimentos; divertia-me com o David Hasselhoff adulterado na versão dobrada do Baywatch; gritava “olé” à genica de uma cultura vizinha que me desarmava as inimizades.

Falsa xenofobia e aversão simulada – ficava por aqui o meu paupérrimo currículo anti-tourada. Mas aparentemente consegui piorá-lo. Num disco que lancei em 2013 (já com mais Ribatejo do que Espanha no coração e no estômago), desenhei para a capa uma ilustração da festa brava. Auto-retratei-me vestido de toureiro, a passar o capote por cima dum touro. Quando seria de esperar alguma contestação àquela imagem, o que me chegou antes foi mesmo um elogio, elogio esse que partiu duma associação tauromáquica. Numa mensagem de Facebook, saudaram o meu apoio à causa, e com isto ignoraram a subversão contida na ilustração. Nada tinha de subtil, essa subversão; descrevo o desenho para que percebam: na mão esquerda da minha personagem, não é um ferro que seguro, mas sim um cabide (e daqueles rascas, feitos só de arame). No lombo do touro nem uma só bandarilha aparece – essas estão reservadas para as costas do toureiro onde me retrato. Bicho e homem surgem com uma expressão desinteressada, como se acção dramática da cena se esgotasse no movimento, e qualquer outro valor se esfumasse.

Não se exige muita minúcia para entender que a minha ilustração é crítica do confronto entre homem e animal; na mais branda das hipóteses, a ilustração é trocista. Foi, portanto, com espanto que recebi elogios vindos daqueles que mais poderiam ter-se ofendido. Manuel Alegre afirmou recentemente que “quem não percebe a corrida (de touros) também não percebe a poesia, não percebe a literatura”, mas a minha experiência dita antes isto: quem percebe a corrida nada entende de interpretação de imagens. Tanta literacia taurina pode ter desenvolvido iliteracia visual.

Considerando o que descrevi sobre a tal ilustração do disco, faço crer que em 2013 finalmente saí do armário e me revelei avesso às touradas. Só que não; ainda não. É verdade que o propósito daquela minha capa era uma condenação do acessório, uma crítica da nobreza atestada através de confrontos desnecessários, uma censura dos homens que se medem aos cornos. É ainda verdade que usei o contexto tauromáquico de forma depreciativa, e que pretendi fazer crer que na dança mortal entre homem e besta, o prestígio se nivela pela bestialidade, não pela humanidade. Mas, para todos os efeitos, nada disto foi um manifesto anti-tauromaquia; se calhar até foi o contrário: assumi o reconhecimento estético da beleza daquela cena brava. A força simbólica e pictórica duma tourada, mesmo que usada para depreciação, não deixa de ser força. Dei por mim rendido a um imaginário poderoso, dei por mim apegado àquela imagética. Foi como se não conseguisse evitar dar um aval cultural à tourada, e àqueles que querem preservá-la por lhe chamarem cultura.

Em que ficamos? Em quase nada. Quem suspeita que eu pouco disse neste texto acerta no essencial: pouco disse, de facto.  É um assunto para o qual tenho pouco a dizer. Na verdade, basta-me isto: sou contra as touradas porque não há nada no espectáculo que me pareça justificar o mau trato público de um animal. Nada! É o argumento que me chega para qualquer conversa sobre o assunto. Se me quiserem explicar que aquilo não é bem um “mau trato”, limito-me a discordar. Se me quiserem explicar contextos que validam o “mau trato”, limito-me a discordar. É um assunto para qual tenho pouco a dizer; basta-me andar com uma carrada de “Não concordo” na ponta da língua.

O meu “Não concordo” será sempre mais frequente do que o “Concordo”, mesmo que o debate seja com gente que, tal como eu, rejeita as touradas. A forma pacata com que tenho abordado o tema também tem que ver com a falta de correligionários. Revejo-me pouco na turba que protesta. A malta concertada anti-touradas não concordaria comigo, por exemplo, nisto: o especismo faz-me pouca espécie, já a equiparação absoluta entre homens e animais parece-me imoral – aliás, considero o bom trato dos animais como uma prática obrigatória, mas exactamente porque ela define e atesta a superioridade humana em relação aos bichos.  Outro exemplo: prefiro que todos os toureiros do mundo estejam vivos e de boa saúde (mesmo que lhes deseje o desemprego); nunca me congratularei por gente ferida numa arena. Ainda outro exemplo: não resumo os aficionados a bárbaros, ou a imbecis sanguinários. Resumo-os a pessoas que estão erradas em relação a um assunto – e há tanta outra gente disposta a bandarilhar-me pela brandura deste resumo...

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

A minha urgência em recuperar tempo perdido e ser cada vez mais ribatejano tem um nome: Taberna Ó Balcão.

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