O episódio do presumível encerramento, já este domingo, do clássico restaurante lisboeta “La Gondola”, junto à Praça de Espanha – quando a sede da RTP era na Avenida 5 de Outubro, muita “televisão” nasceu naquelas mesas... -, é um desses casos absurdos em que a legislação, os contratos com dezenas de anos, e a insensibilidade empresarial se juntam para conseguir a pior solução possível.

Basta conhecer o espaço inaugurado em 1943 (ainda que construído em 1928, à época para habitação), uma vivenda discreta, com uma esplanada escondida por baixo de uma enorme buganvília, entretanto casada com uma roseira, conservada no interior com o conforto acolhedor assemelhado ao dos restaurantes ingleses, para perceber que estamos perante um daqueles ícones que resistiram à suposta organização, à concentração dos serviços, e ao desrespeito que a segunda metade do século XX cultivou sobre a memória edificada de Lisboa.

Esses tempos parecem cada vez mais afastados. Mais facilmente vemos a famosa Leitaria do Paço, original do Porto, ganhar nova vida, sem perder identidade, em Lisboa, do que a vemos fechar portas para dar lugar a um banco. O mesmo se passa com marcas emblemáticas como a Confeitaria Nacional, ou mesmo as Cervejarias Trindade e Portugália.

Mas, para não nos esquecermos que somos os portugueses do costume, alguém se lembra, de vez em quando, de “matar o coelho a grito” e desbaratar essa memória que, ainda por cima, nos traz dividendos turísticos... Vai daí, e por acordos e contratos entre a Câmara de Lisboa, o Montepio, e o próprio “La Gondola” (o arrendamento vem desde 1951), trocas de terrenos e negócios desse tipo entregaram ao banco, em Dezembro de 2016, o espaço do restaurante. Com um atraso “ligeiro”, a desocupação dá-se este fim de semana.

Parece que o contrato que a atual proprietária do restaurante detém é claro quanto ao futuro: transformar a vivenda em sede do Montepio. Do mal, o menos, sempre havia prestigio na ideia. Mas também se especula sobre a excelente localização do espaço para um novo edifício de escritórios...

Ora, tento colocar-me no lugar daqueles que têm de decidir o futuro do imóvel, observo as tendências mundiais de recuperação e conservação de edifícios com História, e da rentabilização desses espaços justamente por conta do passado, e pergunto-me: não seria mais razoável, inteligente, e porventura lucrativo, a prazo, recuperar o prestigio e a dignidade do “La Gondola”, manter e dignificar a restauração, contar as suas Histórias e vender essas Histórias, promover a casa para lá das fronteiras limitadas dos lisboetas que a conhecem? É aceitável destruir património e passado para edificar o que não tem passado e não se sabe se terá futuro? A pergunta, sei agora, pode também aplicar-se à livraria Sousa & Oliveira, no Porto, que tudo indica virá a ser um hostel.

A modernidade na gestão também passa pela sensibilidade em relação às tendências e ao futuro que estas decisões determinam. Ao rebentar com o “La Gondola” e fazer ali o que quer que seja, o Montepio está a destruir valor sem qualquer garantia de o recuperar com escritórios cheios de fibra ótica e inteligência artificial. Podem chamar-lhe o que quiserem – mas não lhe chamem gestão moderna, inteligente, e responsável.

Nem gestores aos que tomam estas decisões. Chamem-lhe talvez... merceeiros em gabinetes de luxo.

Noutras latitudes...

A escalada do tráfico, consumo e consequentes overdoses que a droga tem provocado nos Estados Unidos começa a justificar expressões como “estado de emergência”. Eis aqui uma matéria do “Baltimore Sun” que nos aproxima de uma terrível realidade.

Para quem ama fotografia, é imperdível uma viagem pela galeria de vencedores do National Geographic Travel Photographer deste ano de 2017. Seja pelo link da The Atlantic, seja pelo site do National Geographic, a exposição “digital” merece um olhar atento.

E agora que entrámos no mês rei do descanso, uma matéria que pode ser útil e a revista Time revela: seis aplicações que tornam as suas férias mais baratas, seja num hotel ou num aluguer de automóvel. Nunca é tarde para poupar...

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