(1) Fotografias e (2) políticos

Já todos passámos por isto: no final dum jantar de amigos, vemos as fotos que temos no telemóvel e lá aparece uma em que estamos horríveis, ou então com ar de aborrecimento mortal, ou a beber como se não houvesse amanhã — quando na verdade só demos um gole no vinho.

Ora, um político anda sempre com fotógrafos atrás. Os milhares de fotos que são tiradas incluem, inevitavelmente, algumas fotos menos simpáticas — e lá no meio estarão caras ou gestos ou disposições que se enquadram em qualquer história que queiramos contar.

É precisamente por estarem tão expostos que uma fotografia de um político quer dizer muito pouco. Podemos encontrar fotografias para todos os gostos. Aliás, para cada personagem da telenovela da vida real que vemos nos telejornais podemos encontrar milhares de fotografias a provar o que quisermos. Se procurarem bem, encontram certamente uma ou duas imagens de Obama com ar de poucos amigos...

(3) O papa e (4) o aborrecimento

Aposto que o papa não simpatiza por aí além com Donald Trump. Enfim, nem é preciso apostar: se lermos o que o papa já disse sobre o milionário americano, saberemos o que Francisco pensa de Donald.

Agora, aquela foto que correu mundo em que Francisco está com cara de caso ao lado dum Trump sorridente é uma boa piada — mas nada mais do que isso. Quem procurar, encontra outras fotos em que o papa está sorridente a conversar com Trump — afinal, Francisco é chefe de Estado e sabe que o protocolo não se compadece com simpatias e antipatias.

Este tipo de imagem muito conveniente é uma espécie de droga mental: são imagens demasiado boas para não serem partilhadas. Confirmam aquilo em que acreditamos e lá vai um clique no “Partilhar”. Faz mal? Neste caso, nem por isso. Até estou a ver Francisco a olhar para a imagem e a rir-se: “Olha, bem apanhado!”

Mas é só isso.

(5) Véus na (6) Arábia Saudita

Um pouco menos inofensiva é a questão dos véus na Arábia Saudita...

Houve quem pegasse em fotos de Melania Trump sem véu na Arábia Saudita e as comparasse com fotos de Michele Obama com um véu. Ah, dizia-se por certas áleas facebookianas mais viradas para simpatizar com o presidente americano: Michele não teve coragem! A nova primeira-dama é que a sabe toda!

Só que também já houve, há uns anos, quem pegasse numa foto de Michele na Arábia Saudita — sem véu! — para provar o mesmo: que era corajosa em mostrar àqueles senhores como são as coisas. Lembro-me de ler até que era a primeira vez que tal acontecia. Ui!

Voltemos atrás: a foto de Michele com véu que alguns usaram para compará-la desfavoravelmente com Melania foi tirada numa mesquita — ou seja, as situações eram diferentes. Tal como parece ser hábito que as mulheres ocidentais, quando são recebidas pelos sauditas, não usem véu, também é habitual que, num contexto religioso, o véu seja usado — numa mesquita na Indonésia ou no Vaticano...

É bom? É mau? Não sei: mas sei que as imagens não dizem nada sobre a coragem ou falta dela de Michele ou de Melania. Dizem apenas que as primeiras-damas se limitaram a fazer o que é habitual em cada uma daquelas circunstâncias.

Minto: aquelas imagens dizem muito mais. Dizem o que cada um quiser que digam! Então se as andarmos a recortar e a colar à vontade do capricho, o que fica é apenas uma fotografia do interior das nossas cabeças.

(7) Palavras

Sim, uma imagem vale por mil palavras, mas podem ser mil palavras bem mentirosas. É sempre possível pegar num momento, numa frase, num comportamento isolado e daí concluir tudo e o seu contrário.

Somos bichos visuais. Ficamos enfeitiçados com as imagens. Gostamos de ver com os nossos olhos — e acreditamos sem hesitar no que os nossos olhos nos dizem. Só que os nossos olhos são bem mais traiçoeiros do que parecem e, muitas vezes, vêem o que queremos que eles vejam.

Embriagados pelas imagens e pela crença desmedida nos nossos olhos, esquecemo-nos de ler ou de ouvir com atenção — esquecemo-nos, por exemplo, de ler e ouvir o que Trump disse na Cimeira da NATO, que talvez venha a ter consequências económicas para Portugal que serão motivo para poucos risos. Ou então não nos lembramos de ler um pouco mais sobre a Arábia Saudita, um país bem mais perigoso do que parece, com ou sem véu na cabeça de Melania.

Na verdade, as palavras enganam — mas as imagens enganam ainda mais. A única maneira de combater o feitiço é hesitar um pouco antes de chegar a conclusões e ler um pouco mais. É um começo.

Marco Neves | Autor do blogue Certas Palavras. Publicou em Janeiro o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa.

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