Quem vê um eclipse total jura não querer perder mais nenhum. Organizam-se excursões e viagens em que o único problema real é mesmo o dinheiro. É uma experiência do outro mundo, garante-se, com humanos e animais despassarados com a escuridão tão súbita. Na era do digital e dos 360 sempre garantidos, talvez esta hipótese, para quem possa, seja mesmo a Grande Experiência.

Vemos os mapas das totalidades e ficamos encantados. Estas autoestradas de fabrico lunar são o derradeiro pasmo dos céus. Tudo muda como do dia para a noite, e não é só metafórico.

Este 8 de abril vamos assistir a um desses momentos e será preciosamente acompanhado de um cometa que tem merecido um epíteto curioso: cometa do diabo, por parecer ter dois chifres decorrentes da configuração da sua cabeleira. Tem a ver com o vento solar e com a sua própria forma.

Hoje em dia, com exceção de uma parcela muito particular da humanidade, não se acredita em maus presságios, mas a coincidência dos dois acontecimentos tem despertado curiosidade. E sim, será possível ver o cometa durante os poucos minutos de totalidade. Não estará longe de Júpiter (no céu), sendo Vénus também visível. Mercúrio não, por estar muito alinhado com o Sol nesta segunda-feira.

O eclipse vai cair ao mar mesmo antes de chegar à Península Ibérica. Nada se verá daqui e não adianta pespegar óculos para o efeito. O cometa será visível, assim que anoitecer, mantendo a magnitude que tem apresentado nos últimos dias e que ainda terá durante algum tempo. É um viajante que aparece de tantos em tantos anos e vale a pena saudá-lo com uma observação cautelosa.

Mas o verdadeiro acontecimento? Esse é o eclipse. Não vai chegar à Europa, mas não faz mal. Temos proximamente, em 2026 e 2027, dois espetáculos marcados para a Península Ibérica. O de 2026 vai decorrer ao final da tarde, o de 2027 por volta do meio-dia em pleno Verão.

Quem gosta de datas, que consagre já 2 de agosto de 2027. Quem não gosta também. É que vai mesmo haver um antes e depois.

Os humanos e os cometas

Diz-se que um grande cometa

Virá ao mundo arrasar

E não cuideis que isto é peta

Que alguém tramou de inventar

 

Alguns fazem testamento

Mas a quem irão testar

Se há-de o mundo, num momento

Com tal cometa, acabar

 

Hão-de deixar aos tratantes

Aos patifes e aos pedantes

Se eles todos morrer vão?

Deixarão aos homens sérios

De probidade e critérios?

Mas onde os tem a nação?

Rangel de Quadros, no dia 15 de maio de 1910, escreve estas rimas n’O Cometa, um semanário satírico de Portalegre. Assumia-se no periódico «Não se assustem com o cometa, porque em vez de o cometa acabar com a Terra, vai a Terra acabar com O Cometa». O humor talvez fosse mesmo a melhor forma de lidar com a situação de pretenso fim-do-mundo.

Mark Twain foi igualmente sarcástico. Em vez de antecipar o apocalipse, previu antes a sua própria morte, num caso raro de «presciência» em alguém absolutamente cético. Havia nascido com o cometa, haveria de se ir com o cometa, sentenciou. Nas suas datas de nascimento e fenecimento podem ler-se, com duas semanas de diferença, dois periélios do cometa Halley.

A passagem de 1910, no nosso Ano da República, causou toda a sorte de comportamentos. A ciência, genericamente, assegurava que nada se passaria na Terra. Toda a ciência? Não toda – uma parte resistia ferozmente aos factos sobre órbitas, cinética e teorias dos gases, insistindo em teses de desastre. Muita gente entrou em pânico, muita gente se matou, muita gente comprou pílulas milagrosas para não morrer com os gases venenosos da cauda do cometa e muitos cultos viveram um grande apogeu com vultuosas entradas de dinheiro, que efetivamente de nada lhes serviriam se os funestos presságios que auguravam se concretizassem.

O Halley é apenas uma bolita de neve suja com 15 quilómetros de diâmetro. «Apenas» em temos astronómicos, pois o asteroide que causou a Extinção do Cretáceo-Paleogeno (a que fez desaparecer os dinossauros) tinha aproximadamente o mesmo tamanho. No caso de uma colisão com a Terra, os resultados seriam realmente catastróficos. Mas um cometa não é só o seu núcleo: a cabeleira, feita de materiais sublimados pelo vento solar, pode atingir tamanhos prodigiosos, e o seu comprimento pode inclusivamente ultrapassar o diâmetro do Sol.

Houve grandes cometas no passado. São corpos que se desgastam efetivamente com o tempo e o Sistema Solar já foi muito frequentado por toda a espécie de artefactos astronómicos. A juventude é um fator tremendo em tudo e a astronomia não foge à regra. Muitos corpos se desgastam, muitos corpos desaparecem em colisões e há muito menos pedras vagabundas agora que nos céus e ares dos que nos antecederam. Em 1994, a colisão do cometa Shoemaker-Levy com Júpiter poderá ter mostrado um cenário quase quotidiano há milhões de anos. Vale a pena ver os registos para se ter uma ideia do acontecimento espantoso.

As aparições atuais dos cometas também não são iguais às do passado menos longínquo, uma vez que a poluição e as luzes noturnas afastaram os céus de nós. Nas cidades, pouco vemos além da Lua e dos planetas. Um punhado de estrelas, se precavidamente nos afastarmos dos focos mais intensos. O céu rural também está conspurcado e as zonas dark sky tornaram-se verdadeiros santuários, mas, mesmo aqui, o céu não é o mesmo. Há quase sempre luzes no horizonte e o que sobra, se quisermos ser muito rigorosos, é a zona zenital. A própria Ursa Menor não é muitas vezes visível longe das cidades, com exceção da Polaris.

O céu noturno é tranquilo e rivaliza com a rapidez de cometas e eclipses. Se tudo está assim forjado, que nos resta senão aproveitar?