A ideia do Mars One era tão engenhosa quanto improvável. Depois de uma viagem não tripulada inaugural em 2020 ao astro, quatro astronautas amadores voariam rumo ao planeta vermelho, utilizando os foguetões SpaceX de Elon Musk e tecnologia por inventar, mas projetada para a altura em que realizassem a jornada.

A ideia seria então que os candidatos fundassem a primeira colónia humana em Marte, recebendo mantimentos periodicamente a partir da Terra. E sim, a viagem seria só de ida: os novos “marcianos” viveriam no planeta até ao fim dos seus dias.

Este era o sonho de Bas Lansdorp, CEO da Mars One. Mas se sonhar é fácil, concretizar não. Atraindo elevado interesse mediático aquando a sua "aterragem" em 2012, um pouco por toda a internet se levantaram dúvidas quanto à viabilidade do Mars One, apesar dos seus otimistas vídeos.

Para começar, onde é que se iam obter 6 mil milhões de dólares, os fundos entendidos como necessários para tal iniciativa? Este valor, apesar de ser anormalmente inferior àquele que, por exemplo, a NASA necessita para as suas viagens, seria recolhido através dos lucros projetados de um reality show televisivo onde os ditos concorrentes a astronauta participariam, mostrando como é que pessoas normais se preparam para ir para Marte.

A lógica por detrás desta estratégia residia numa comparação com a rentabilidade da transmissão dos Jogos Olímpicos, mas não tomava em conta o caráter sazonal, e não duradouro, dos mesmos. A ideia não foi forte o suficiente e o programa nunca chegou a descolar, tal como os foguetões.

Apesar da sua estratégia estrutural ter falhado, para captar mais fundos, a empresa enveredou por vender merchandising e insistir em donativos, conseguindo um milhão de dólares. O valor ficou longe dos 6 mil milhões necessários, mas para quem ainda não tinha cumprido nada de visível, bastante bom. E melhoraria quando em 2016 uma empresa suíça, a InFin, comprou a Mars One por 92 milhões de dólares.

Contudo, as fendas começaram rapidamente a aparecer na fuselagem desta nave. Não tendo mantido grandes comunicações com a Terra ao longo de três anos, em 2015, a Mars One anunciou que já tinha filtrado 100 voluntários para treinar para a missão a Marte. Só que foi aí que se levantou o véu quanto a algumas práticas pouco éticas por parte da empresa.

Um dos finalistas, Joseph Roche, começou a fazer uso da plataforma Medium para denunciar situações anómalas e que pintavam o Mars One mais como um esquema financeiro do que um projeto com asas para voar.

Para além de ter mentido quanto ao número de voluntários - anunciou perto de 200 mil candidaturas quando estas não passaram das quatro mil - a empresa estava dependente num sistema de pontos para os voluntários, que, mediante a sua performance, passariam uma série de rondas até ficarem no grupo final. Contudo, para obterem pontos, os próprios candidatos tinham de comprar merchandising à Mars One ou fazer donativos, isto já contando como facto de terem sido obrigados a pagar uma taxa só para participar.

Outro episódio que fez aumentar as suspeitas sob o Mars One foi, relata a revista Slate, quando os responsáveis abriram um projeto de crowdfunding na plataforma Indiegogo para financiar uma missão de satélite, a ocorrer em 2018. Apesar de terem conseguido obter 300 mil dólares em doações, tal engenho nunca foi lançado para o espaço.

No plano científico, a coisa não estava muito melhor, sendo o mais visível exemplo um relatório datado de 2014 do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que apontou inúmeras falhas à missão. De todas elas, talvez a mais grave tenha sido a de que a tentativa de plantar vegetais no habitat artificial em Marte acabaria por criar níveis pouco seguros de oxigénio, obrigando a usar nitrogénio para compensar, baixando a pressão atmosférica e sufocando os próprios astronautas ao fim de 68 dias.

Com o tempo, a informação foi se tornando cada vez mais escassa, mas o último rebite do caixão de fuselagem do Mars One foi fixado em janeiro. Sabe-se agora, como reporta o website Techcrunch, que a empresa responsável pelo Mars One estava dividida em duas partes: uma sem fins lucrativos, chamada Mars One Foundation, e outra com fins lucrativos, denominada Mars One Ventures. Foi esta segunda que foi comprada pela InFin.

O problema é que, como aponta a Forbes, um documento entregue num tribunal civil da cidade de Basileia, na Suíça, dá conta da situação dramática da Mars One, que declarou bancarrota com menos de 25 mil dólares nas suas contas e foi dissolvida. A parte sem fins lucrativos, segundo Bas Lansdorp, vai-se arrastar até obter fundos para retomar o projeto.

Sem obter quaisquer resultados palpáveis durante sete anos, este projeto marciano parece ter chegado ao fim, ou, pelo menos, ficou sem combustível para continuar.


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