A frase de Bocage que dá título ao artigo adequa-se na perfeição ao nosso guia pela cidade de Setúbal. André Macias nasceu em Lisboa e aos três anos foi viver para Setúbal, local de recordações da sua infância e defende a cidade que o acolheu com o entusiasmo e fervor de um verdadeiro setubalense guiando-nos por uma viagem de sons, cheiros, palavras, luz e cor.

Um roteiro literário para inspirar uma visita à cidade de Setúbal e Serra da Arrábida

Sentir a alma poética

  • Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, edição: Companhia das Letras

Com seleção e organização de José Mário Silva, é uma antologia que reúne nomes incontornáveis da poesia portuguesa.

  • Citações e Pensamentos de Manuel Maria Barbosa du Bocage, de Paulo Neves da Silva e Bocage, edição: Casa das Letras

180 citações, 75 reflexões e pensamentos, 100 sonetos, que refletem o grande mestre da expressão de Bocage. Uma intimidade que deambula entre a exaltação, pureza e a profundidade da alma.

  • Serra-Mãe Poemas, de Sebastião da Gama, edição: Ática

Foi poeta e professor e a sua obra encontra-se ligada à Serra da Arrábida, onde vivia e que tomou por motivo poético de primeiro plano.

Obras de ficção onde a espera é saudade

  • Bocage A Vida Apaixonada de um Genial Libertino, de Luís Rosa, edição: Editorial Presença

Um poeta exaltado pela vida, onde coabitam o sublime e o prosaico e onde a inquietação encontra a paz no amor e na poesia. 

Obras para ir Lá Fora!   

  • Flores da Arrábida, Guia de campo, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos, edição: Assírio & Alvim

Cada página possui a descrição da espécie ou subspécie em causa e respectiva fotografia. Para cada planta referimos a sua morfologia (características da planta que a distingue de outras espécies semelhantes), ecologia (ambiente onde vive), fenologia (época de floração), nome(s) vulgar(es) sempre que é conhecido, distribuição em Portugal e no Mundo, utilização bem como o estatuto legal de protecção.

  • Lá Fora, Guia Para Descobrir a Natureza (4ª Edição), de Inês Teixeira do Rosário e Maria Ana Peixe Dias; Ilustração: Bernardo P. Carvalho, edição: Planeta Tangerina

Menção Honrosa Bologna Ragazzi Award. Este livro pretende despertar a curiosidade sobre a fauna, a flora e outros aspetos do mundo natural que podem ser observados em Portugal. Inclui também propostas de atividades e muitas ilustrações, para ajudar toda a família a sair de casa e descobrir - ou simplesmente contemplar - todo o mundo incrível que existe "Lá fora".

Para os Menores de 18!

  • Os Aventureiros e o Mistério da Arrábida N.º 10, de Isabel Ricardo, edição: Saída de Emergência

Os Aventureiros estão prestes a embarcar numa nova aventura, desta vez em plena serra da Arrábida. Paulo parece envolvido numa investigação secreta relacionada com contrabandistas e, durante uma viagem noturna de barco, acaba por desaparecer. Preocupados com o amigo, os aventureiros empreendem uma investigação que se transforma numa noite inquietante e cheia de perigos.

  • Salada de Flores (3.ª Edição), de Fernanda Botelho; Ilustração: Sara Simões, edição: Dinalivro

Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para apoio a projetos relacionados com a natureza/defesa do ambiente na Educação Pré-Escolar, 1º e 2º anos de escolaridade. Aventura da Sara, da Maria, da Carolina e do Rodrigo, quatro amigos, que partem à descoberta da natureza. Os nossos protagonistas ficam a saber que as plantas - sejam elas legumes, flores, árvores ou frutos - têm nomes, apelidos e até famílias, tratando-se umas às outras em caso de doença.

  • Bocage - Antologia Poética de Bocage; Ilustração: André da Loba, edição: Faktoria K de Livros

Este livro convida-o a ler um poema por dia, ou por semana, ou mês lunar. Depois, pode deixá-lo a repousar numa estante, aberto na ilustração que quiser, que é a leitura que André da Loba fez das palavras do poeta.

  • Chamo-me... Bocage, de José Manuel Castro Pinto, edição: Didáctica Editora

Livro que nos conta a história de Bocage duma forma muito simples.

 

A infância do pai do nosso guia e de André é feita de acasos felizes. Tanto um como o outro, por razões profissionais dos seus progenitores, chegaram a Setúbal e ambos cresceram com o Sado como cenário para as suas histórias de vida. Para a mãe de André, moçambicana, a adaptação foi mais complicada, era uma cidade pequena, sentia “África sempre presente, mas cada vez mais longe”, vivendo algo que «O retorno» de Dulce Maria Cardoso retrata de forma ímpar.

Com um passado romano que permanece pela Serra da Arrábida e que convida a um passeio com raiz histórica, Setúbal foi uma cidade esquecida durante algum tempo e um mero ponto de passagem. Tem uma história ligada ao forte investimento na indústria conserveira durante o século XIX, que atraiu várias pessoas de outras zonas como do Alentejo e Algarve bem como da Europa, em especial os franceses. No século XX, com a dispersão desta indústria para o norte do país, a cidade sadina sofreu as marcas do desemprego, das poucas oportunidades e foi envelhecendo. Mais tarde, foi recebendo outras indústrias ligadas ao cimento, papel, fertilizantes e energéticas, contudo padeceu sempre de alguma marginalização. Hoje, com alguma reconstrução, renovação e organização, Setúbal recuperou de alguns períodos menos positivos e está de cara limpa, mantendo sempre um cenário paradisíaco de serra e mar, que inspira qualquer setubalense a declamar as suas quadras e rimas.

Ligada à tradição piscatória, pelo risco da sua atividade e da privação familiar, os pescadores são eles, voz de inspiração e inspiradores de muitas quadras, que se estendem aos donos dos restaurantes, que ainda hoje “declamam rimas destacando com orgulho o peixe acabado de pescar” ainda saltando com gotas de vida. É disso exemplo o restaurante Tasca do Xico da Cana, que vai já na 3ª geração familiar. André diz “que entre o bafejo do peixe acabado de pescar e a grelha na rua, o dono pegava na sua cana e dava ritmo ao poema”. A poesia é “uma festa por dentro das pessoas”, diria Valter Hugo Mãe no «O filho de mil homens».

André não tem dúvidas, Setúbal respira poesia, “é algo presente em todos os setubalenses. Ajuda ter sido cidade de dois grandes poetas, mas é algo que está nas entranhas”. Tal como uma visita ao Mercado do Livramento ou a “praça”, como é comumente conhecido, um lugar que não há igual. É pitoresco, pelo som dos pregões, pelo movimento frenético dos fregueses, pelo cheiro a frescura e sabor da oferta e pela luz. As palavras de André brilham quando fala do local, diz que “não há melhor início de férias ou remédio para um sofrido regresso à rotina, do que visitar o mercado e comprar peixe acabado de pescar ou a maçã riscadinha de Palmela, (denominação de origem protegida), para colorir a mesa e equilibrar os humores”.

Os humores do poeta Bocage desabafam pela cidade, sendo a Praça e Casa de Bocage disso exemplo. “Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito”, diria Afonso Cruz no «Vamos comprar um poeta”, caso visitasse Setúbal, onde por ruelas e recantos Bocage se autorretrata em poema e se cruza com Luísa Todi, cantora lírica, com conhecida carreira internacional dando nome a uma das avenidas mais importantes da cidade, que preserva o orgulho nestes ilustres.

À semelhança de Sebastião da Gama, poeta e professor, cuja obra é arrebatada pela paisagem de autêntico paraíso da Serra da Arrábida, «um tesouro escondido que apaixonou o poeta, reflectida na sua escrita», comenta brioso o nosso guia. A vaidade prossegue… diz que existem muitas pessoas que vivem em Lisboa e que nunca visitaram a Arrábida e “que surpresas exclamam o desconhecimento desta paisagem de evasão”. Contemplar o nascer e o pôr-do-sol é único, acrescentando que “até é bonito ver chover, é um miradouro…avistamos o estuário vislumbrando Alcácer, Tróia e quase que se vê Lisboa”. Visão 360º, que não cansa o olhar e à qual Sebastião da Gama sem presunção e com dom natural, partilha com o mundo baptizando o quadro como «Serra-Mãe».

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O Parque Natural da Arrábida celebra o seu dia a 28 de julho, pois transborda riqueza botânica. Já por si, a serra é um tesouro, contudo não fica por aqui. Ao longo de curvas e contracurvas entre penhascos, surgem praias, todas com uma beleza distinta e única, que com o sistema de acessos permite paz e tranquilidade adaptada a cada um. André destaca Galápagos e Galapinhos como as suas praias de eleição, são “verdadeiros paraísos na terra”. Mas se achávamos que as surpresas tinham terminado, a harmonia do verde da serra e o azul do mar é a prova divina, “quando passeamos de barco e mudamos de perspectiva, desvendamos recantos de encanto e plenitude que é possível esquecer”, reforça André. O valor da fauna e flora marinhas da costa da Arrábida foi também agraciado com a criação de um Parque Marinho contíguo.

Mário Regalado, apelidado de trovador do Sado, escreve uma balada conhecida como um hino da cidade, que qualquer setubalense que se preze saberá pelo menos o refrão:

“Onde é que existe um rio azul igual ao meu
que em certos dias tem mesmo a cor do céu,
minha cidade é um presépio é um jardim
queria guardá-la inteirinha só para mim.”

O orgulho de receber bem, de oferecer a frescura do mar é algo que Setúbal encarna vaidosa, escondendo refúgios no silêncio da vegetação, no mundo de mar e numa cidade aberta ao rio azul, que todos os que a visitam guardam em poema.

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