Se pensarmos em séries emblemáticas dos últimos 20 anos, existem alguns momentos que nos vêm imediatamente à cabeça. Os óculos de sol de Horatio Caine de CSI Miami num cenário de crime, os genéricos de Lei e Ordem ou de Casos Arquivados, as citações finais de Mentes Criminosas, a contagem de horas de desaparecimento em Sem Rasto, entre outros.

No mesmo período, houve três franchises que se destacaram pela criação de histórias e spin-offs no típico formato americano de 23/24 episódios por temporada: CSI, NCIS - Investigação Criminal e Lei e Ordem. Poucas pessoas discordarão que, com maior ou menor inovação, estas séries foram capazes de se desenvolver de um modo que lhes permitiu manterem-se nas nossas televisões durante bastante tempo.

CSI formou inicialmente uma tríade composta por CSI Las Vegas (2000-2015), CSI Miami (2002-2012) e CSI Nova Iorque (2004-2013), todas igualmente bem sucedidas e com ótimas avaliações da crítica, à qual se juntou uma quarta - CSI Cyber - protagonizada por Patricia Arquette que acabou por não chegar ao nível das restantes e durar apenas um ano.

NCIS, que começou por ser um spin-off da série JAG dos anos 90, lançou a versão original em 2003, a que se seguiram NCIS Los Angeles com Daniela Ruah, em 2009, e NCIS New Orleans, em 2014.  Vale a pena lembrar que esta série tem sido dos formatos mais bem sucedidos das últimas duas décadas, sendo a segunda série de ficção há mais tempo na televisão americana, ficando apenas atrás de Lei e Ordem: SUV. Esta última tem a curiosidade de ser também um spin-off criado em 1999, a partir de Lei e Ordem série que foi transmitida entre 1990 e 2010.

Continuando nesta viagem pelos últimos 20 anos encontramos outras séries que também se destacaram. Mentes Criminosas vai atualmente na sua 12º temporada e introduziu no ano passado, também um spin-off chamado Mentes Criminosas: Sem Fronteiras.

E, claro, temos muitos fechos. The Wire e The Shield acabaram em 2008. Sem Rasto acabou em 2009. Casos Arquivados acabou em 2010. Dexter acabou em 2013. Castle acabou em 2016. Ossos nesta quarta-feira.

Poderíamos provavelmente mencionar outras séries, alvo de outras preferências, mas escolhemos estas por reunirem um consenso geral no que respeita à notoriedade e às audiências. E, como podemos ver, são muitas. O que torna relevante a pergunta que nos trouxe a este balanço: é este um género que se esgotou? Onde estão as novas séries de polícias?

A realidade é que se tornou difícil criar conteúdo sem que sejam identificados elementos das séries que fizeram história nos últimos anos. Talvez por isso uma das inovações ou mudanças na forma como se estruturam as séries tenha sido no seu prolongamento. O formato de um número mais reduzido de episódios já tradicionalmente aplicado por canais como HBO e a AMC nos EUA ou pela BBC no Reino Unido, começou a ser cada vez mais explorado principalmente pelas plataformas de streaming como a Netflix e a Amazon Prime. Não será surpresa que alguns dos sucessos mais recentes como The Killing, True Detective, Sherlock, Crossing Lines, Luther, entre outras, tenham uma coisa em comum ... o formato mais curto.

Outra explicação para a ausência de novas séries de polícias poderá ser, simplesmente, que a indústria aposta agora em géneros diferentes, depois de tantos anos de policiais e dramas criminais. Tradicionalmente, a programação dos canais inclui dramas, sitcoms, séries de advogados, séries de médicos, séries criminais e séries de ficção científica e fantasia. Deste grupo, existe um que tem claramente ganho cada vez mais peso. Talvez pela facilidade de adaptação ao pequeno ecrã, pela procura e audiência mais ou menos assegurada ou pelo sucesso de séries como Guerra dos Tronos e Walking Dead, o género da fantasia tem sido aquele a que as cadeias de televisão têm recorrido cada vez mais. Em fantasia podemos incluir super-heróis, zombies, vampiros, cenários apocalípticos e mundos alternativos. Pensemos em alguns exemplos do passado recente:

  • A ABC apostou em Era Uma Vez e Agentes da Shield, baseados em personagens da Disney e Marvel, respetivamente.

  • A FOX introduziu Gotham  (do universo de Batman e da DC comics), Wayward Pines, Scream Queens e American Horror Story ( de FX, canal da cadeia).

  • A AMC é responsável por Walking Dead e o seu spin-off Fear The Walking Dead, ambos baseado na série de banda desenhada do mesmo nome.

  • A HBO trouxe-nos Guerra dos Tronos (baseada nos livros de G.R.R Martin), Westworld (baseado no filme de 1973) e The Leftovers também a partir de um livro com o mesmo nome.

  • A CW é o canal nos E.U.A que mais cedo apostou em formatos deste estilo trazendo-nos Arrow, Flash e Legends of Tomorrow também da DC Comics, Diários do Vampiro, IZombie e The 100.

  • A Netflix trouxe-nos séries sobre um quarteto da Marvel - Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro; Sense8 dos irmãos Wachowski, Stranger Things e, mais recentemente, a última temporada de Black Mirror.

Ou seja, as principais cadeias de televisão americanas estão claramente a optar por conteúdos de fantasia o que no final acaba por contribuir, possivelmente, para a "seca" de policiais comparativamente com a década anterior. Mas se o padrão se repetir, é expectável que o estilo comece a ficar saturado e que outra tendência apareça. Eventualmente, todos os géneros acabam por passar por períodos semelhantes e é o papel das cadeias de televisão saber quais aqueles nos quais devem investir mais.

Além de que opções de produção e programação, estas mudanças representam uma transformação na indústria como resposta a um problema global. A oferta de conteúdos nunca foi tão alta como é agora. Simultaneamente, a atenção que cada espectador pode dar a cada série é menor devido ao número de ofertas que tem. Assim, a solução das produtoras de séries, não só policiais mas no geral, estará,  para além da qualidade da produção e das histórias contadas, no ajustamento a um formato que lhes permita capturar mais audiência. Este ajustamento terá, eventualmente, implicações no risco que os canais estarão dispostos a correr e orçamento e calendarização que darão a cada projeto.

Do ponto de vista da audiência, esta transformação levou ao melhor de dois mundos. Por um lado, tem uma oferta cada vez maior de conteúdos de qualidade. Por outro, graças aos serviços de streaming e à retransmissão que os canais fazem, tem sempre a possibilidade de rever séries outrora bem-sucedidas, o que é bom, principalmente para a geração mais jovem. Para quem gosta de séries, é quase impossível que não haja uma favorita que não se importa de rever. E para si , caro leitor, qual é a melhor série policial de sempre?

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