“A presente edição, feita por iniciativa de Olga Lima, viúva de Herberto Helder [1930-2015], segue o texto da publicação original, corrigindo diversos lapsos e erros tipográficos assinalados pelo autor, num exemplar de trabalho”, escreve a Porto Editora, no anúncio da data de publicação.

Para esta edição, no entanto, “não foram tomadas em conta restantes anotações, cortes e sinais, que constam desse exemplar, por não estabelecerem claramente uma nova organização do livro, indicando apenas hipóteses de alteração textual ou as referidas deslocações de fragmentos para outras obras do autor”, acrescenta a Porto Editora.

A edição original de “Apresentação do Rosto” surgiu em 1968, na Editora Ulisseia, e foi rapidamente apreendida pela PIDE, que destruiu os quase 1.500 exemplares impressos. A obra não voltou a ser editada.

O despacho de proibição, datado de 22 de julho de 1968, descreve-a como “autobiografia do autor, que é de índole esquerdista, escrita em linguagem surreal e hermética, que como obra literária não mereceria qualquer reparo, se não apresentasse passagens de grande obscenidade”.

Num artigo publicado na Página da Educação sobre a “Censura Fascista”, em agosto de 2008, o editor Serafim Ferreira (1940-2015), ex-diretor literário do Círculo de Leitores, recordou o processo e o modo como um dos agentes da PIDE, que entraram na Ulisseia, disse haver na obra “uma evidente carga de pornografia, o que não podia de forma nenhuma ser tolerado”.

Em 1968, quando surgiu o seu livro, Herberto Helder era condenado no âmbito do processo relacionado com a publicação de “Filosofia de Alcova”, de Marquês de Sade, pelas Edições Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello.

Na altura, Herberto somava já perto de década e meia de atividade literária, desde a publicação dos primeiros poemas (1953/1954) e do primeiro livro, “O Amor em Visita” (1958). A sua bibliografia contava então com obras como “A Colher na Boca” (1961), “Os Passos em Volta” (1963), “Húmus” e “Retrato em Movimento” (1967), “O Bebedor Nocturno” (1968), além da primeira recolha, “Ofício Cantante 1953-1963″.

“Apresentação do Rosto” é o livro em que explica: “Temos enfim o silêncio: é uma autobiografia. É algo que se conquista à força de palavras (…). E ele [Autor] realizará uma autobiografia ativa, uma sufocante acumulação do crime”.

O livro prefigura-se assim como o processo de fazer ver um rosto, à partida impessoal, mas que ganha vida, um rosto que se apresenta em permanente transformação, e que se define na improbabilidade de o fazer: “Eu sou um movimento”, escreve Herberto Helder, em jeito de autorretrato.

Apesar de ausente das livrarias, “Apresentação do Rosto” tem sido alvo de estudos literários, de análise, de teses de mestrado e doutoramento, motivando múltiplas abordagens, como o livro “Uma Espécie de Crime – Apresentação do Rosto de Herberto Helder”, de Manuel de Freitas (&etc. 2001).

Sequências da obra estão também noutros títulos do poeta, como “Os Passos em Volta” (desde a 3.ª edição, de 1970), “Vocação Animal” (1971), “Retrato em Movimento” (nas versões de 1973 e 1981, para “Poesia Toda”), “Photomaton & Vox” (1979) e “Do Mundo” (1994).

A edição original de “Apresentação do Rosto” tinha capa do artista plástico Espiga Pinto (1940-2014).

Herberto Helder, que a investigação literária e os seus pares colocam entre os maiores poetas da Língua Portuguesa, nasceu no Funchal, em 1930, e morreu em Cascais, aos 84 anos, em março de 2015.

Na altura, o presidente da Associação Portuguesa de Autores, José Manuel Mendes, referiu-se ao poeta como o criador “da obra mais fulgurante em Portugal”.

O escritor Manuel Alegre considerou-o “um dos maiores poetas de todos os tempos”.

O crítico Pedro Mexia identificou-lhe uma apropriação da palavra sem desconfianças, ironias ou cinismos e considerou-o, por essa força verbal, o maior poeta da segunda metade do século XX, tal como Fernando Pessoa o foi, na primeira.

Herberto Helder, que deu a última entrevista em 1968, que recusou o Prémio Pessoa, em 1994 (“Não digam a ninguém e deem o prémio a outro”, disse ao júri), e editou o livro “A Morte sem Mestre”, em 2014, foi “um mestre” para outros escritores, como o poeta Nuno Júdice admitiu.

Foi um “poeta tão diferente, tão vulcânico” que mostrou “tudo o que é mágico e inexplicável na poesia”, afirmou o professor Fernando Pinto do Amaral.

Herberto frequentou a licenciatura de Direito, na Universidade de Lisboa, que trocou por Filologia Românica, que deixou ao fim de três anos. Colaborou em periódicos como A Briosa, Renhau-nhau, Búzio, Folhas de Poesia, Graal, Cadernos do Meio-dia, Pirâmide, Távola Redonda e Jornal de Letras, Artes & Ideias.

No final dos anos de 1960, foi diretor literário da editorial Estampa.

Em 1971, partiu para África, onde realizou uma série de reportagens para a revista Notícias.

Entre os seus livros contam-se “Poemacto”, “A Cabeça Entre as Mãos”, “As Magias”, “Última Ciência”, “A Faca Não Corta o Fogo — Súmula & Inédita”, “Servidões”, “Poemas Canhotos”.

Em 2016, surgiu “Letra Aberta”, livro de inéditos recolhidos nos cadernos do escritor. Neles, elogia a “beleza sem gramática” e o “ferocíssimo esplendor” do poema.

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