Escrevemos assim, por ocasião do concerto dos Arcade Fire no Campo Pequeno, em abril, e em referência ao seu primeiro álbum, “Funeral”: «Naquelas canções, naquelas melodias, naqueles versos cantados sobre um instrumental indie rock de estádio estava a banda-sonora de milhares de pessoas, de milhares de eleitos, que querem algo mais (e que lutam por algo mais) desta vida que não a anomia que nasce da repetição: casa-trabalho-casa, casa-trabalho-casa. De milhares de mentes sem medo de ser utópicas». Apenas quatro meses depois, “Funeral” regressou à casa onde começou a ser feliz e a fazer-nos felizes: Paredes de Coura, local onde a banda canadiana se estreou em Portugal, em 2005, um concerto que ainda perdura na memória de todos quantos a ele assistiram.

O regresso dos Arcade Fire a Paredes de Coura não poderia portanto ser senão festivo, mesmo que só se tenha tornado possível através do cancelamento de uma outra artista, Björk. Chamados a entrar em campo para substituir a islandesa, os Arcade Fire cumpriram as expectativas que lhes eram dirigidas: deram ao público um concerto que, mesmo não tendo sido tão extraordinário como foi o de Lisboa, não deixou de contar com a dança, os coros, as canções e o brilho que lhes conhecemos, tão cintilante quanto o vestido que Régine Chassagne envergou durante “Sprawl II”, “Reflektor” e “Afterlife”, ou a bola de espelhos estrategicamente colocada por cima do palco principal.

A colina pareceu pequena para tanto frémito, tanta multidão, que se acotovelou como pôde de forma a assistir aos canadianos. Os bilhetes diários estavam há algum tempo esgotados, e aqui e ali surgiam relatos de que havia quem estivesse disposto a pagar um passe geral, horas antes do início do concerto, apenas e só para o poder ver. Pouquíssimas bandas nos dias que correm se poderiam gabar disso, ainda para mais uma que grosso modo se encaixota no vasto campo do indie rock. Em 2005, os Arcade Fire eram uns meros desconhecidos que do nada arrebataram o público; hoje, estão mais crescidos, e nós com eles.

Dez minutos para lá da hora marcada, escutaram-se os primeiros acordes de 'Everything Now' (ainda mal amada; isso não mudou), tónico perfeito para a efusividade que se seguiria – e que quase se julgou poder vir a transbordar, assim que no meio do público é avistada uma tocha vermelha, ardendo fortemente antes de ser retirada pela segurança. A claque dos Arcade Fire estava lá em peso; cabia-lhes dar um espetáculo que não defraudasse. Tal como na canção, o tudo seria ali, agora.

'Neighborhood #3' não apagou as luzes, mas mostrou-se bem mais ruidosa do que o habitual, sendo que o volume aparentou estar algo baixo para tamanha dose e densidade. De um trecho de 'I Give You Power' passou-se imeiatamente para a eufórica 'Rebellion (Lies)'. Se dúvidas existissem, o público foi imediatamente contagiado por aquela fúria de viver, aquele sorriso eterno que parece permear até as canções mais tristes dos Arcade Fire. «É bom ver-vos outra vez», exclamou Win Butler, e poderíamos dizer-lhe o mesmo. Especialmente quando logo a seguir apanhamos com 'No Cars Go' de frente, canção que levou alguns a arriscar o crowdsurf, tendo plena consciência de que perderiam de imediato o lugar privilegiado que haviam guardado em frente ao palco.

Sucedem-se mais dois temas de “Everything Now”, o álbum, e eis a grande surpresa da noite: 'Cars And Telephones', maqueta escrita por Win Butler quando ainda estava a dar os primeiros passos no mundo da música, e que tem sido esporadicamente interpretada ao longo desta última digressão dos Arcade Fire. Só terá sido reconhecida pelos fãs mais acérrimos da banda, os que estiveram neste mesmo espaço há 13 anos e em todos os concertos subsequentes da banda em Portugal (o amor a isso obriga), mas foi recebida como se fosse nova: primeiro com estranheza, depois com aplausos.

Não faltaram as referências a Donald Trump (a quem dedicaram 'Intervention'), a Aretha Franklin («um anjo na terra»), temas bem queridos como 'The Suburbs' ou 'Ready To Start' e, ainda, uma deambulação de Régine pelo meio da plateia – antes de Butler enfiar um bocadinho de 'All My Friends', dos amigos LCD Soundsystem, em 'Afterlife'. No encore, uma curta mensagem: «por favor liguem as luzes». O público acedeu, e milhares de pontos brancos, tantos quantas estrelas há no céu, iluminaram a colina ao som de uma versão mais soft de 'Everything Now' antes da explosão final com 'Wake Up', para afinar as gargantas que ainda não haviam cedido. A magia regressou a Coura. E haverá certamente de voltar. Que se lixe o ditado: regressemos, sempre, aos locais onde fomos felizes.

Também o fomos com os Dead Combo, que da dupla Tó Trips / Pedro Gonçalves passaram a ser uma banda extraordinária, um dos expoentes da música feita em Portugal desde o início do milénio. O seu fado-blues característico não iluminou, mas enegreceu o festival durante cerca de uma hora; outra coisa não se pediria dado o sentimento de faca e alguidar pelo qual puxam aquelas canções. Sentiu-se a urgência na forma como se apresentaram aqui, ao vivo, talvez inconscientemente despertada pela revelação da doença de Pedro. De um momento jazz absurdo – ao qual chamaremos free swing – passamos para a ternura de 'Esse Olhar Que Era Só Teu', antes de entrar em palco um grande senhor do rock: Mark Lanegan, convidado a tocar três canções com a banda portuguesa. O final, majestoso, com 'Lisboa Mulata' não deixou ninguém indiferente.

Uma indiferença que poderia ter passado pelos Big Thief, banda que se estreou esta noite em Portugal com dois discos (“Masterpiece”, de 2016 e “Capacity”, de 2017) e muita sorte na bagagem; provavelmente, não encontrarão outro público como aquele que aqui encontraram tão cedo. É certo que muitos estariam ali para assistir exclusivamente aos Arcade Fire mas, à semelhança do que aconteceu com os canadianos em 2005, os Big Thief terão conquistado um lugar muito especial nos nossos corações; para isso contribuiu a sua candura rock, alimentada por uma vocalista e guitarrista que parecia ter saído do indie dos anos 90 (e que debitou canções tão excelentes como as que encontramos nesse período particular). Mesmo que o seu rant aleatório, após uma chapada blues elétrico, tenha parecido bizarro: quer ela que entremos em contacto com a banda se nos lembrarmos do dia em que nascemos. Não saberá, naturalmente, que à boa maneira tuga nem sequer nos lembramos do que jantámos ontem.

Ao final da tarde, foi de Curtis Harding a festa, quando era ainda possível movimentarmo-nos de um lado ao outro dentro do recinto. O norte-americano começou por apresentar um rock radiofónico não muito diferente do de um Lenny Kravitz, mas depressa mostrou toda a sua qualidade ao apostar numa sonoridade mais soul. Os elogios a Portugal, à comida, às pessoas e à meteorologia também ajudaram. Horas antes, numa das Vodafone Music Sessions, os Ninos Du Brasil (que na verdade são italianos) provaram ser um dos nomes mais interessantes do cartaz da edição deste ano do festival: máscaras, pintura, batucada e gritos tribais numa mistura extraordinária que só conseguimos descrever mesmo como techno étnico, num cenário de ferro-velho. Fabuloso.

O Vodafone Paredes de Coura regressa em 2019 e novamente às margens do Taboão. Já há datas: de 14 a 17 de agosto.

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