Pelo pai, fugiu à guerra. À Guerra Colonial, nos anos 1960. Refugiou-se na Bélgica, depois Canadá, cuja nacionalidade faz parelha com a portuguesa. Portuguesa que lhe foi assinada pelo avô. Foi mais uma assinatura, já em 1949, de um homem cuja rubrica está a caminho de se sagrar Memória do Mundo. Aristides de Sousa Mendes, assim se chama o avô paterno de António. “Sou português, como sempre, e canadiano”, conta.

Encontramo-nos no metro, na estação do Parque, em Lisboa. António está junto de um pilar; dentro dele há uma medalha, em bronze. Mostra uma figura rodeada de nada. António vai explicando a um homem que passa, que medalha é aquela. “É o meu avô”, diz-lhe.

Seguimos depois pela António Augusto Aguiar, no fundo da qual entramos num restaurante desses que habitam as covas de Lisboa. “Toma um café?”, oferece o autor do livro Aristides de Sousa Mendes - Memórias de Um Neto, recentemente editado pela Desassossego.

De um saco de pano que traz na mão, junto com a pasta de cabedal castanho, descerra uma enorme fotografia, feita em Quioto, Japão, há coisa de cem anos. Nela, quatro figuras: nas pontas, dois homens fardados, de ar nipónico. Ao centro, de cara latina, uma mulher e ao lado um homem. O homem que casa é César de Sousa Mendes, irmão gémeo de Aristides.

Fotografia de César e Maria Luísa de Sousa Mendes com o imperador do Japão. créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Um dos fardados é Hirohito [à direita na foto]. Foi entronizado imperador do Japão em 1926. Na imagem tinha 16 anos apenas. Hirohito, quando viu o César e a Maria Luísa na festa de entronização, simpatizou muito com eles.

“Trouxe isto porque o mundo é pequeno e dá muitas voltas”, começa por contar. “Ouviu falar de um japonês que salvou também pessoas durante a guerra? Foi no mesmo ano que Aristides. Um japonês, chamado Sugihara”, apresenta António Moncada S. Mendes, um dos 39 netos do cônsul de Bordéus.

O diplomata japonês surge pelas coincidências, pelo acaso. E pelo Facebook. “Sempre ouvi falar no Sugihara com uma especial atenção por causa de o gémeo [César] ter tido uma ligação ao Japão, como está aí na fotografia. Também porque essa ligação ao Japão tem uma consequência um pouco emocional, porque lá nasceu a minha mãe, em 1915. Sempre houve uma ligação através de fotografias e livros e gravuras do Japão. A minha mãe até aos quatro anos viveu no Japão”, enquadra António, que em 2000 fundou com o primo Álvaro Alpoim de Sousa Mendes a fundação dedicada ao avô de ambos, Aristides de Sousa Mendes.

“O meu avô começou logo a desobedecer e a passar vistos em 1939, logo em setembro de 1939, mas não era a uma grande escala, porque a França só foi ocupada em junho de 1940. Foi aí que se tornou absolutamente dramático — e aí foi em massa”, diz. Avô que é o visado na obra. “Este livro é dedicado essencialmente ao Aristides”, mas mais que saber quem foi o homem, é preciso saber de onde veio. E para isso, sempre há o contexto que nos leva ao entendimento do que vemos.

E para esse contexto, são precisas perguntas. É nesse café lisboeta que falamos sobre quem foi, sobre quem é Aristides. Da família (e do irmão gémeo) às memórias: de um neto, de um país e de um planeta. Sendo que o ponto de partida foi Chiune Sugihara.

Onde entra o japonês?

Fui contactado aqui há duas semanas e quarta-feira vou a Bruxelas para falar deste livro. Hoje em dia com a internet, com o Facebook sabe-se tudo. Há um Sugihara, que penso que é neto do cônsul japonês, que se pôs em contacto comigo através do Facebook e disse que me queria ver. Mas só lá vou estar três dias. Ele disse que vai apanhar o avião para a Bélgica e propôs ir buscar-me ao aeroporto de Bruxelas. Portanto, há um senhor japonês que não conheço, nunca o vi, que me vai buscar ao aeroporto. Posso através da imagem que tenho no Facebook reconhecê-lo, e ele também.

Vai ser um encontro histórico, porque são dois netos, de dois diplomatas Justos Entre as Nações. Tenho o livro dele há 21 anos e já tinha outros, mas ele não sabe que o tenho por isso vou levar-lho para que me deixe um dedicatória qualquer e depois vamos falar — vamos estabelecer uma amizade, certamente. Vou convidá-lo a vir a Portugal quando quiser.

Pormenor da fotografia com os avós maternos de António, no Japão. créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Porque agora há outra história curiosa. É que a UNESCO decidiu classificar, a pedido do Instituto Diplomático de Portugal, as assinaturas e o livro das assinaturas de Aristides de Sousa Mendes como fazendo parte da Memória do Mundo. Isto tem um valor simbólico muito grande. São os valores intangíveis. Não é algo que se possa ver, uma casa, uma obra de arte, mas tem um valor simbólico de uma enormidade, porque faz parte do património da Humanidade.

Penso que Aristides será o primeiro diplomata inscrito. No Japão também pediram o mesmo estatuto para o Sugihara, mas curiosamente foi recusado. Eles ficaram muito tristes. Pensam que terá sido mal apresentado pela parte do governo japonês, que não terá dado a importância devida. É também por causa disso que me querem ver. Embora quem tenha preparado o dossier tenha sido o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Quem foi Aristides? O que fez?

O que fez foi uma coisa muito importante para  a humanidade - e, obviamente, sendo ele português, para Portugal e para a cultura e a história portuguesas.

Ele era um homem que vinha de uma família onde já há várias gerações se viviam valores espirituais, cívicos. Como digo no livro, Aristides era descendente de Roque Ribeiro de Abranches, que era um jurista, um constitucionalista, um dos pais da [primeira] Constituição [a de 1822]. O trisavô do meu avô foi, portanto, um dos pais da Constituição. Esse princípio do Direito, de os filhos estudarem Direito, de transmitir esses valores em casa, os direitos cívicos, dos direitos da humanidade, do homem. Ele e o irmão foram sem dúvida umas pessoas que viveram muito isso. O pai deles era juiz, era uma família onde em casa essas coisas se falavam todos os dias — do ponto de vista religioso e do ponto de vista do que deve e não deve ser feito, o que não é normal. Daí as relações internacionais, a diplomacia.

Por outro lado, era uma família que também se dedicava à leitura, à literatura, às artes, pintura, música - interessava-se por todas essas coisas. E também pela comunidade onde viviam.

Vinham de Cabanas de Viriato, pensavam muito que era preciso integrar as pessoas no meio de origem e fazer com que a comunidade de origem se desenvolvesse e aprendesse uns com os outros. Era este o seu princípio.

E hoje, quem é, o que representa Aristides de Sousa Mendes?

Como consequência do gesto que ele fez, Salazar, à cabeça e acima de tudo, impôs o esquecimento, baniu da memória local o nome de Aristides de Sousa Mendes. E agora, setenta e cinco anos depois, o mundo reclama a sua memória e elege a memória dele como Memória do Mundo - isto é extraordinário.

A diferença entre a Idade da Pedra e Portugal dos anos 1950 era mínima

A minha consciência começou a formar-se em 1955, tinha cinco, seis anos e a pouco e pouco aprendi, com o meu pai, que era um homem que também falava destas coisas — e falava demasiado, por vezes —, fui-me formando.

Então, conheci Portugal nos anos 1950 e 60 e posso dizer que, de certa maneira, a diferença entre a Idade da Pedra e Portugal dos anos 1950 era mínima.

Não se falava do meu avô. Não era só não haver o direito de falar, era ainda por cima o castigo que se impunha quando as pessoas ousavam falar demasiado.

Nem mesmo as pessoas de família, porque havia a tal censura, havia o medo de perder o estatuto, o lugar. As pessoas de família que mantinham o seu lugar — e muitos deles tinham lugares de prestígio, todos tinham muito respeitinho pelo regime e por Salazar — sabiam que se abusassem, que se se exprimissem demasiado, seriam provavelmente castigados. Obviamente, bem basta um [Aristides] que se viu perfeitamente o castigo que foi. O castigo do silêncio. Então, ninguém sabia o que ele fez.

Nos anos 1960, quando comecei a ir ao ensino secundário, ao liceu, etc, vi que as pessoas não sabiam; os meus colegas não sabiam, eles eram pessoas novas, mas os pais também não sabiam — e não queriam saber. As pessoas tinham de pensar em si próprias. Aristides de Sousa Mendes era um tabu completo.

A imagem de Aristides de Sousa Mendes já está completamente reabilitada?

Aristides de Sousa Mendes foi reabilitado pela Assembleia da República em 1988; houve uma cerimónia no Parlamento e aí todos os partidos, por unanimidade, votaram a favor da reintegração póstuma de Aristides de Sousa Mendes na carreira diplomática e foi promovido a ministro plenipotenciário de segunda classe, o quer dizer, teoricamente, embaixador — claro, ele está morto.

Mas há muitas resistências, de antigos salazaristas e de alguns diplomatas que viam com muito maus olhos a desobediência de Aristides. Houve mesmo um que escreveu "pois, foi reintegrado na carreira diplomática como embaixador. Que lhe sirva de bom proveito", cinicamente. Essa atitude vai desaparecendo quando essas pessoas vão desaparecendo também, porque essas pessoas morrem, toda a gente morre.

Por outro lado, nascem novas gerações, com novas ideias, novas maneiras de ver o mundo, de ver a obediência e a desobediência.

Curiosamente, já no século XX, houve um jurista português, Magalhães Colaço, que escreveu que a obediência pura é impossível. O funcionário tem e fica sempre com esta possibilidade de desobedecer. É mais ou menos isto, não tenho de cor. Soube desta frase através da jornalista Diana Andringa, que fez o primeiro documentário sério sobre Aristides de Sousa Mendes.

Gosto de mencionar o nome das pessoas que fizeram bem ou que contribuíram para que a sociedade portuguesa saiba e para a memória dele seja recuperada. Porque isto é um processo, não é só um neto — ou os netos —, ou os filhos, que já morreram todos excepto só uma filha em França que está viva [filha da segunda mulher de Aristides].

Têm de ser todos os setores da comunidade — aqui, os jornalistas e os professores desempenham um papel extremamente importante, são eles que dão a conhecer e são eles que poderão dizer bem ou mal dele.

Portugal ainda não tem orgulho de Aristides de Sousa Mendes?

Sim. Isto [o não demonstrar esse orgulho] tem a ver com outro problema. A tradição cultural das várias nacionalidades, dos vários países é muito importante. Portugal e os portugueses não têm, por exemplo, a tradição que tem a França com a Revolução Francesa. Os franceses começam a falar muito, todos querem os direitos.

Os portugueses até há poucos anos foram habituados a ser muito bonzinhos, obedientes, obedientes à autoridade, à PIDE, à PVDE, a Salazar — e ainda hoje há muito essa obediência. Eu próprio tenho isso. Por vezes, quando devo dizer ou criticar certos nomes — Salazar, por exemplo — muitas vezes não estou à vontade. Porque também não sei quem é a outra pessoa e não a quero ofender. Tive parentes muito próximos que admiravam e que seguiram Salazar — o próprio Aristides de Sousa Mendes e o irmão aceitaram, eram funcionários do Estado. Enquanto estava tudo bem, enquanto eles podiam, aceitaram. Isto não significa que adorassem Salazar, mas respeitavam-no dentro do regime; porque todas as pessoas vivem e dependem de uma profissão.

Desde 1995 que está ali aquela medalha. Vai para 23 anos e as pessoas não sabem.

O que é que falta Portugal fazer para sentir que já se fez a devida homenagem?

Penso que é muito importante a educação. O papel dos jornalistas aqui é muito importante porque os jornalistas têm de pôr o nome de Aristides, mas não só o nome: o gesto, que ele fez, a importância dele a nível mundial. Têm de dar o destaque necessário.

Por exemplo, em Lisboa não há um monumento. O monumento que vimos foi aquela medalha [de João Cutileiro, na estação de metropolitano do Parque Eduardo VII], que é muito bonita. O Aristides de Sousa Mendes ali numa medalha talhada pelo Cutileiro, mas as pessoas passam e não olham sequer para aquilo; há muitas pessoas que passam e não sabem o que é aquilo.

Medalha de João Cutileiro na estação de metropolitano do Parque Eduardo VII, em Lisboa. créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Desde 1995 que está ali aquela medalha. Vai para 23 anos e as pessoas não sabem.

Deram o nome do Aeroporto de Lisboa a [Humberto] Delgado — acho muito bem. Mas poderão dar o nome de Aristides a outra coisa qualquer, por exemplo. São opções.

Acha que deveria haver honras de Panteão para Aristides?

Podia ser, mas as pessoas de Cabanas de Viriato, da terra do Aristides, querem-no ter lá. Ele está no jazigo que mandou fazer, no jazigo de família, onde está a minha avó, alguns dos meus tios, parentes, o pai dele.

Ir para o Panteão tem um significado muito importante e é possível, mas isso aí não sou eu que acho, tem de ser o país, devem ser os cidadãos a querer ou não querer. Não sou eu. Eu deixá-lo-ia ficar onde está.

O que é importante é que ele esteja presente na memória das pessoas, que nas escolas se estude verdadeiramente o que ele fez, que o exemplo dele seja dado como um exemplo de compreensão.

Mas nas escolas talvez se fale mais de Schindler e do filme...

Claro, mas aí é outra coisa. Muitos judeus na América do Norte, no Canadá e nos Estados Unidos até aos anos 1980, por exemplo, nunca tinham ouvido falar no Aristides de Sousa Mendes.

Fizeram cá o silêncio, desapareceu. Quem era o Aristides? Desapareceu. De maneira que a culpa nem sequer é deles [dos americanos]. Lá para fora, para a América, para o Canadá, para França, para a Holanda e para a Alemanha e para o resto do mundo, A história de Portugal é a história da inquisição. Os portugueses lá fora são vistos como os inquisidores. A imagem é completamente negativa. Quando se falava em portugueses dizia-se "oh, lá... Portugueses? Não são boa gente". Era uma imagem negativa.

Depois, claro, muitos dos portugueses que imigraram nos anos 1950 para o Canadá e etc. eram pessoas que tinham fugido ao vulcão nos Açores. Eram pessoas muito pobres, muito pobrezinhas, os portugueses que chegavam lá eram analfabetos, etc. e ainda por cima inquisidores! Ainda por cima maus!

Quando se falava destes casos, por exemplo no Canadá. A primeira sinagoga em Montreal chamava-se Sinagoga Portuguesa-Espanhola, fundada por judeus portugueses e espanhóis, os sefarditas do sul da Europa, que tinham emigrado para a Holanda, para o resto do mundo. E muitos deles, a partir daí, foram para a América do Norte, para as Antilhas — nas Antilhas Holandesas, em Curaçao a primeira sinagoga e a língua que se desenvolveu lá deriva da língua dos judeus portugueses.

Em Montreal existe um pequeno parque dedicado a Aristides de Sousa Mendes. Em Toronto também existe um Parque Aristides de Sousa Mendes. Nos Estados Unidos estão a aparecer coisas. Mas tudo isto não é culpa deles, é culpa de cá [Portugal], porque nessa altura era tabu, ninguém falava.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

O que é que este livro pretende ser?

Este livro, para mim, é necessário. Estou a pensar, por exemplo, numa senhora da Universidade de Coimbra, onde Aristides e César de Sousa Mendes se formaram, tal como o pai, os antepassados. Há, portanto, uma ligação enorme à Universidade de Coimbra e aparece uma senhora historiadora na Universidade de Coimbra que não conhecia Aristides de Sousa Mendes.

De repente, ouve falar e através de um amigo meu, que foi lá falar, que me levou a mim e ao meu primo e esta senhora começa a descobrir Aristides de Sousa Mendes e então resolve fazer uma tese de doutoramento sobre a promoção e a despromoção dos funcionários diplomáticos no ministério dos Negócios Estrangeiros e dar o exemplo de Aristides de Sousa Mendes.

Na vida privada dela não sei o que se passou, o que é certo é que levou doze anos para fazer a tese, mas não vem com descoberta nenhuma. Nem sequer põe lá nomes de refugiados, ela não põe lá nada; ela não foi fazer uma investigação como está a fazer a fundação americana, a Aristides de Sousa Mendes Foundation, em Nova Iorque, onde estão à procura de pessoas e é uma busca de toda uma vida.

Mas ela nem sequer fez isso. Ela diz que não é salazarista, pode ser que nem seja, mas o que é certo é que ela quer destruir a memória de Aristides como pessoa. Ela apresentou a sua tese de doutoramento, e convidou-me para assistir; mas depois vem dizer que ele não se entendia com as pessoas, que era um indivíduo muito complicado, que o que se diz dele não pode ser verdade...

O que aconteceu sempre é que há pessoas, no caso dos diplomatas, por exemplo, houve certos diplomatas que enquanto foram vivos pensaram que eram grandes diplomatas, que os nomes ficavam. Mas, se formos a ver, nomes de diplomatas que sejam conhecidos, pela sua argúcia, pela sua inteligência, não há ninguém em Portugal.

Há pouco falei de um embaixador. Ela segue a tese desse embaixador, cujo nome nem digo, não porque tenha medo, nada disso, o homem está a morrer.

A inveja é humana. A pessoa tem de fazer um combate individual, uma luta contra a inveja e tudo isso. Era algo que também se fazia muito na família [de Sousa Mendes], por acaso. O meu pai e a minha mãe sempre me educaram no sentido de abertura e aceitação dos outros.

Em França fala-se do Talleyrand, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão. Houve outros diplomatas que ficaram conhecidos como escritores, mas não como diplomatas.

Se lhe perguntar qual foi o diplomata português que passou do antigo regime salazarista para o novo regime da democracia e passou dez anos em Washington, sabe? Quem é que sabe? [risos] São nomes que vão caindo no esquecimento, mas esse senhor [João Hall Themido] morreu há um mês com 94 anos e quando veio para Portugal caiu no esquecimento.

Ele era embaixador em Washington, mas ninguém queria saber dele. Tinha um grande carro de diplomata e tal, tirou algumas fotografias com o [Henry] Kissinger e com outros grandes políticos americanos, mas também, quem é que hoje sabe quem é o Kissinger?

Tudo isso cai no esquecimento e esse senhor caiu no esquecimento. Esse senhor nas suas memórias também diz que Aristides é um mito. Tentam destruir porque não aceitam, mas isso é a lei da vida, é assim.

Porque não se preservou o património de Aristides?

O meu avô gostava de casas grandes. Claro, aparece logo essa tal senhora de Coimbra e outras pessoas a dizer "tem a mania das grandezas". Pois é verdade, tinha a mania das grandezas, mas o ser humano tem a mania das grandezas. Qualquer ser humano, quando tem um pouco de dinheiro, quer logo uma casa enorme, quer um grande carro, ou dois grandes carros. Todas as pessoas têm isso, é ser humano. Ele tinha aquela casa, que aumentou ainda por cima para pôr uma mansarda, mas depois deu-lhe uso: recebeu refugiados. Quando deixou de receber o dinheiro que devia ter recebido [a remuneração enquanto funcionário do Estado]. As coisas vão-se degradando, vão desaparecendo.

Se criarmos um inferno para os outros, estamos a criar um inferno para nós próprios.

Depois da minha avó morrer, apareceu uma senhora francesa [Andrée Cibial] que pensava que ele [Aristides] seria uma pessoa com muitas posses — falo dela no livro. Ele adotou a filha [que Andrée dizia ser de Aristides], que ainda é viva e vive hoje em França. Andrée foi destruindo o património, porque queria manter um certo nível, não veio aqui para sofrer. Quando ele morreu em 1954 havia dívidas, contraídas sobretudo por ela, que fazia dívidas, criava dívidas, e havia dívidas naturais, como qualquer pessoa, dívidas antigas.

Aristides morreu em 1954, o Estado foi célere na venda dos bens dele em hasta pública, por um valor ridículo. As pessoas que compraram aquilo não foi para lá viver, não foi para manter a casa. Estavam-se nas tintas para isso; queriam era pôr lá o gado — nem digo isso no livro. Quando digo gado são bois, vacas que estavam lá dentro da própria casa. Eram pessoas que queriam um lugar para pôr os seus animais, não era na cave, era nos andares.

Criámos a fundação no ano 2000 e em 2001 comprámos a casa. Aí aparece uma pessoa, porque os portugueses também têm consciência, obviamente que desaparecendo a razão — o Regime — os apoios surgiram. A doutora Maria Barroso, por exemplo, que nos ajudou bastante; o doutor, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, que nos ajudou muito na criação da Fundação.

Também houve ajudas que vieram de fora: o Otto von Habsburg, austríaco, filho do último imperador da Áustria, que também fez a sua política dentro do Parlamento Europeu, dentro de uma Europa democrática, livre.

E hoje estamos a preparar a casa. O restauro por fora está feito, agora estamos numa fase de preparação do restauro do interior da casa. O objetivo é darmos continuidade às memórias.

Com as crises migratórias no Mediterrâneo, o que é que Aristides pode ensinar à Europa?

Aristides mostra que somos todos irmãos, no fim de contas. Independentemente das nossas origens. O cristianismo, o judaísmo e as outras religiões ensinam-nos o amor ao próximo, que é o amor a quem está ao nosso lado, sem saber de onde vem, o que fez. Temos de fazer bem aos que estão ao nosso lado. Este é o grande princípio. É isso o essencial.

Se criarmos um inferno para os outros, estamos a criar um inferno para nós próprios.


No fim da conversa, os valores em prática. António faz questão de pagar o café. Quem faz a conta dá-lhe troco a mais. Insiste em devolvê-lo. "Está a ver, ser boa pessoa não é só falar, é fazer", diz o neto do cônsul que sempre preferiu "estar com Deus contra os homens a estar com os homens contra Deus".

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