Desenho, pintura e escultura dos anos 1970 aos anos 1990, de pequena a grande escala, ocupam o espaço expositivo com um percurso que começa com muitas peças em desenho e escultura que nunca ou raramente foram expostas.

“Nas entrevistas que dava, Michael Biberstein dizia que o objetivo da sua pintura era desacelerar a perceção, contra a voragem constante” das imagens, disse à agência Lusa o curador, Delfim Sardo, coordenador da programação de artes visuais da Culturgest.

Intitulada “X”, a mostra está dividida em duas partes: a primeira, com obras dedicadas à espacialidade e ao espaço físico, com peças produzidas nos anos 1970 e 1980, e, a segunda, essencialmente com a pintura.

Esta exposição é a primeira retrospetiva do trabalho de Michael Biberstein realizada em Portugal, desde a antológica apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1995, “Michael Biberstein: a difícil travessia dos Alpes”.

Michael Biberstein, nascido em Solothurn, na Suíça, em 1948, e falecido no Alandroal, em 2013, aos 65 anos, foi um artista suíço-americano que viveu mais de três décadas em Portugal.

Começou a pintar em 1972, data da sua pintura mais antiga, e que se encontra nesta mostra, a par das pequenas peças monocromáticas, espalhadas um pouco por todo o percurso, as pedras com tinta “ensanduichada”, e as pinturas em grande escala, que apelam à contemplação.

Sempre preocupado com a noção de espaço e a marcação do lugar, o artista recolhia objetos dos ferros-velhos e traçava o seu contorno nas paredes.

Delfim Sardo disse que a montagem das obras dos anos 1970 foi possível por existir um arquivo na posse da companheira do artista, que inclui fotos de como as peças eram exibidas, e também da ajuda do artista Julião Sarmento, que conhecia muito bem Michael Biberstein.

“Ele trabalhou a questão do espaço de uma forma muito dedicada, e seguiu a lógica do monocromático e do bicromático”, disse o curador.

Para esta exposição, a Culturgest foi buscar peças a colecionadores privados e a museus, para mostrar “muita da sua obra, que é totalmente desconhecida”.

Na mostra é reproduzida uma exposição de 1991, que aconteceu no Museu Nacional de Arte Antiga, onde decorreu um diálogo entre a pintura de um naufrágio, do século XVIII, de Claude-Joseph Vernet – cedida pelo museu -, e duas pinturas de Biberstein e um desenho, hoje pertença da coleção da Culturgest.

Organizada de forma não cronológica, mas sim segundo os temas que motivaram o artista – a linguagem da pintura, a espacialidade e a escala, a relação com a paisagem como dispositivo histórico -, a exposição irá espalhar-se pelas duas galerias da Culturgest.

Muito interessado em usar o desenho como forma de expressão, Biberstein explorou as ideias de abrigo e de ameaça, e aprofundou a relação com o espetador, através da apresentação dos seus trabalhos, no espaço e no seu conteúdo.

Sobre a pintura, há uma abordagem própria: “Estas pinturas não têm estrutura. São um fluxo. Ele fazia o olhar mergulhar ou varrer a pintura”, sem nenhuma narrativa no seu interior.

O artista dizia que as paisagens que pintava não existem em mais lado algum, que vêm da sua cabeça, que aquilo que criava eram paisagens da pintura, através de pintura de paisagem.

Questionado pela Lusa sobre a razão de montar uma retrospetiva sobre este artista neste momento, Delfim Sardo respondeu que a ideia era mostrar as obras das décadas mais recuadas, que não chegaram a ser mostradas na Gulbenkian, em 1995.

Por outro lado, o curador não quis evocar o teto que Biberstein pintou na Igreja de Santa Isabel, em Campolide [Lisboa], ao qual dedicou quatro anos da sua vida, porque “o melhor é ir vê-lo”.

Esta foi também a última obra de Biberstein, que faleceu antes de a completar.

A exposição “Michael Biberstein: X” na Culturgest é inaugurada hoje, às 22:00.

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