“Ah, como eu gosto de Noël Coward. Como quem ‘não quer a coisa’, com um brilho único, anda connosco há quase um século, despistando, contrariando ideias feitas, na curva da História. Frívolo? Ou realmente profundo? Fantasista ou realmente realista? Olha: teatral, aposto”, escreveu o encenador Jorge Silva Melo no texto incluído na folha de sala do espetáculo que é a última encenação do fundador e diretor do Artistas Unidos, que morreu no passado dia 14.

A peça assinada por Noël Coward (1899-1973) foi escrita “para cumprir um pacto celebrado onze anos antes entre o dramaturgo inglês e os seus dois amigos Alfred Lunt e Lynn Fontanne, que eram conhecidos como os ‘Lunt’ e se tornaram no mais celebrado casal do teatro na América”, mas que, em 1921, quando Coward os visitara em Nova Iorque, estavam a começar a viver num alojamento barato para atores em dificuldades, escreveu Jorge Silva Melo.

“Coward também ainda era relativamente desconhecido, mas partilhava com Lunt e Fontanne uma fome por fama e sucesso. A produção estreou na Broadway em 1933 e, depois, em Inglaterra, com imediato sucesso crítico e comercial, apesar das suas personagens amorais e da proclamada bissexualidade”, acrescentou Jorge Silva Melo.

Escrita em 1932 e adaptada ao cinema por Ernst Lubitsch um ano depois com Gary Cooper, Fredric March e Miriam Hopkin nos papéis principais, a peça só chegou ao Reino Unido seis anos mais tarde, onde havia gerado controvérsia.

A ação começa em Paris, no estúdio do artista Otto (Nuno Pardal), onde este vive com Gilda (Rita Brütt), e onde esta dá as boas-vindas a Ernest (Américo Silva).

O estúdio é também o local onde Gilda acaba por trocar Otto, que estava em viagem, pelo melhor amigo deste, Leo (Pedro Caeiro), que acaba devastado e cuja vida não será mais a mesma.

Num segundo ato, o cenário passa para um luxuoso apartamento de Leo, em Londres, onde este já mora com Gilda e no qual Otto acaba por aparecer.

A presença da empregada Miss Hodge (Antónia Terrinha) faz alguma diferença entre o primeiro e o segundo atos, no final dos quais Otto e Leo — que deixam implícito que também se relacionaram emocionalmente – bebem para aliviarem a depressão.

Passados dois anos, uma ‘penthouse’ em Nova Iorque cheia de arte e de móveis de luxo, com vista sobre Manhattan, é a casa de Ernest e Gilda que, entretanto, se casaram.

A aparente felicidade do casal, cuja vida é mais pautada pelo companheirismo, é então abalada pela chegada de Otto e Leo, que continuam a exercer um domínio sobre Gilda.

A ambiguidade sexual, a bissexualidade, a monotonia que se instala no quotidiano das relações amorosas, o sucesso e a partilha do outro são alguns dos temas que perpassam toda a estrutura da peça que, não deixando de ser uma comédia, acaba por ser inquietante por “escarafunchar” nas profundezas do ser humano.

“As nossas vidas são diametralmente opostas às convenções sociais habituais” é uma das falas proferidas por Gilda na peça que, embora à primeira vista possa parecer uma “mulher fatal”, é muito mais do que isso.

Uma personagem que é “o polo aglutinador e o íman positivo e negativo das ações”, cujo percurso está “adiantado ou atrasado em relação ao que se passa à volta”.

Nesta peça – a segunda de Coward produzida pelos Artistas Unidos e encenada por Silva Melo depois de “Vidas Íntimas” – a personagem de maior enfoque trata-se de uma mulher ousada, independente, que toma decisões e que faz o que quer.

O que não seria “nada fácil” nos anos 1930 nos Estados Unidos, como “ainda hoje não o é”, salientou a atriz Rita Brütt.

Uma mulher “que faz o que lhe dá na gana, corre riscos, segue a sua vontade, corre o risco de ser julgada, sofre também porque, de facto, ela ama mais do que uma pessoa, e ama mesmo”, frisou a atriz.

Já Ernest surge como o contraponto a esta vivência ousada do trio. Para Américo Silva, que interpreta a personagem, esta é “um bocadinho como a parte conservadora daquela altura”.

Em cena na sala Luís Miguel Cintra do São Luiz, até 10 de abril, “Vida de artistas” tem récitas de quarta-feira a sábado, às 20:00, e, ao domingo, às 17:30.

Com tradução de José Maria Vieira Mendes (e publicada na coleção Livrinhos de Teatro juntamente com “Vidas Íntimas”), a interpretar a peça estão também Ana Amaral, Jefferson Oliveira, Pedro Cruzeiro, Raquel Montenegro e Tiago Matias.

Com cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, coordenação técnica de João Chicó, som de André Pires e luz de Pedro Domingos, a peça tem como assistentes Nuno Gonçalo Rodrigues e Noeli Kikuchi.

“Vida de artistas” é uma produção dos Artistas Unidos, Teatro Nacional São João e S. Luiz Teatro Municipal.

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