Antes de Alfredo Marceneiro, Amália ou Carlos do Carmo houve Charles Aznavour, Sinatra e Beatles. Hoje assume que o fado está na moda, mas houve o tempo em que era gozado na escola por cantá-lo. Era miúdo quando começou a ouvir Marceneiro e a cantar os fados tradicionais como se fossem histórias. Hoje fazem parte si, estão “enraizados”.

Do percurso de Camané sempre fez parte o legado de Marceneiro, mas agora as canções saem dos palcos para um disco que é uma homenagem ao fadista que sempre o influenciou ao longo da carreira.

Em "Camané Canta Marceneiro”, o fadista de “Sei De Um Rio" procurou “não repetir aquilo que toda a gente já fez”. Pela primeira vez, ao oitavo disco seu, grava um dueto. O convidado é Carlos do Carmo; “sinto-me como um menino a cantar com um grande senhor”. A produção e direção musical, tal como em trabalhos anteriores, está a cargo de José Mário Branco. Camané dedica o disco a José Pracana, pela importância que teve na divulgação do Marceneiro e na capacidade que teve de dar dimensão à sua obra. E quando tiramos o celofane que o embala, fica só desenho estilizado, do arquiteto Álvaro Siza Vieira. "Fiz destas as minhas canções, cantei como se fossem minhas, mas está lá o Marceneiro de sempre".

Recorda-se da primeira vez que ouviu Alfredo Marceneiro?

Comecei a ouvir música com Charles Aznavour, Sinatra e Beatles. Depois passei aos discos do fado. Primeiro, Carlos do Carmo e a Amália, depois passei ao Marceneiro. Tinha para aí sete ou oito anos e ouvia-o como se fossem histórias. A principio achei um bocado esquisita, a música. Mas depois comecei a gostar imenso e a perceber que podia repetir e que podia cantar aquelas histórias.

E ao vivo?

Foi numa festa de homenagem ao Marceneiro. Já tinha para aí dez ou onze anos. Foi engraçado: estava em casa a ouvi-lo e pouco depois os meus pais levaram-me a uma casa de fados em Cascais, o “Arreda”. De repente, lá estava eu e toda a gente que eu ouvia. Estava a Manuela Almeida, o Rodrigo, o Marceneiro, a Amália, o Carlos Conde... Até fiz umas fotografias com a Amália nessa noite. Mas fiquei a olhar com cara de parvo para o Marceneiro e não fui capaz de lhe falar.

Chegou à fala com ele alguma vez?

Uma vez só, no Bairro Alto. Vi-o passar uma vez, e mais uma vez. Na segunda vez que o vi passar, já ele muito velhinho, falei-lhe.

E o que é que lhe disse?

Disse que gostava muito de o ouvir e não disse mais nada. Não disse que cantava nem nada.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Como é que veio para o fado?

O meu bisavô cantava e o meu avô também. Os meus pais ouviam muito fado e levavam-me aos fados em coletividades que havia na Mouraria e em Alfama. E assim comecei a ouvir. Depois, houve um dia em que os meus pais levaram-me a uma casa de fados, a “Cesária”, e eu, sem eles saberem, fui ter com os guitarristas e comecei a cantar um fado que aprendi do Fernando Maurício.

Tinha que idade?

Tinha oito ou nove anos.

Como é que um jovem de oito ou nove anos era recebido nas casas de fado? O que é que cantava?

Achavam muita graça. E foi tudo de uma forma muito espontânea. Naquela altura havia poetas populares, nas coletividades, que escreviam quadras, quintilhas ou decassílabos a falarem de coisas que tinham a ver com a minha idade, temas como a escola. E cantava o que me escreviam nos fados tradicionais. A mesma coisa que faziam os fadistas mais velhos, que cantavam letras novas nos fados tradicionais. A Amália cantava o “Estranha Forma de Vida” no [Fado] “Bailado”, já Marceneiro cantava-o com outras letras. O próprio registo emocional era diferente, construía-se uma canção dentro de outra canção. Isso é das coisas mais incríveis que existe no fado e eu aprendi-o muito novo. Lembro-me quando era miúdo de o meu pai dizer-me a primeira frase musical de um fado tradicional e eu já sabia o resto. Conhecia os fados tradicionais todos.

Hoje é fácil chegar a toda a música editada, mas na altura como é que descobria esses fados?

Nas coletividades. Mas também ouvia muitos discos em casa. Era muito engraçado porque, por exemplo, estava em casa a ouvir algo e depois ia para um sítio onde estavam essas pessoas a cantar.

Sempre cantou Marceneiro. Porquê agora gravá-lo em disco?

Sempre cantei todo o fado tradicional incluindo o fado do Marceneiro. Mas nunca me passou pela cabeça gravá-lo. A ideia do disco surgiu de uma forma espontânea há cerca de um ano e foi alimentada dia após dia. Cantar estes poemas transporta-nos para uma linguagem e vivência do amor e da vida que se calhar já não vivemos dessa forma.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Foi fácil escolher os temas que compõem o disco?

O Marceneiro não fez muitas músicas e ele próprio cantou as suas músicas com letras diferentes. Fazia músicas muito simples, mas com uma personalidade melódica incrível. Com bom gosto e uma estética que tem tudo a ver com o fado e o seu lado tradicional. Na escolha das canções procurei ir por aquilo que tem sido menos cantado, não repetir aquilo que toda a gente já fez, tentar ir buscar uma opção menos conhecida. Toda a gente interpretou o "Fado Cravo" com a letra da “A Viela” e eu fui buscar a da "Despedida" que pouca gente cantou. Fiz uma escolha, mas claro que era inevitável cantar a "Mariquinhas" ou a "Lucinda Camareira". Não foi muito difícil ou muito pensado, foi um feeling, 'acho que é isto'. Cantei aquilo que gosto mais de cantar do Marceneiro.

Como foi mexer no reportório e transpô-lo para o universo da sua música e da sua forma de cantar?

Sempre tive uma grande influência do Marceneiro. Na forma de dividir as orações e do sentido da palavra... mas a minha voz é diferente, assim como a maneira de cantar. Fiz destas as minhas canções, cantei como se fossem minhas, mas está lá o Marceneiro de sempre.

Que ensinamentos guarda do Alfredo Marceneiro?

Era um homem muito inteligente, muito irónico, muito engraçado e tinha uma capacidade de escolher os melhores poetas populares da altura. Tudo o que ele cantou tem imensa qualidade, eram poetas que estavam além do que era ser um poeta popular, muito além do seu tempo. E ele teve essa capacidade de os escolher, optou pelo melhor que havia. Em todo o meu percurso procurei também ter esse critério e tudo o que ele procurou no seu tempo.

O fado seria hoje mais pobre sem a sua herança?

Sim, completamente. Alguns dos fados que mais gosto são dele. O "Fado Cravo", o "Bailado", a "Marcha do Marceneiro”… Foi a pessoa que nas casas de fado pediu para se apagar as luzes dando um conforto muito maior a quem está a cantar. Lembro-me de quando cantava nas casas de fado - já não o faço há 20 anos, mas até aos 30 cantava - sentir-me mal quando havia mais luz. Porque era muito tímido, era muito inseguro. Mesmo no princípio quando cantava no "Senhor Vinho" ia falar com a Maria e pedia 'não se importa, apague-me as luzes o máximo possível'. Claro que cantava o primeiro fado e a seguir ela acendia um bocadinho.

Numa altura em que o fado se funde com outras linguagens, este disco traz de novo a sonoridade do fado tradicional…

Sempre procurei, mesmo quando fiz coisas que à partida não seriam fados, associar a minha característica de canto com as características dos meus músicos. Há fados de há cinquenta anos que quando foram feitos não eram fados, mas tornaram-se clássicos. Como acontece com "Sei De Um Rio", que à partida não era um fado, era uma música que estava escondida numas cassetes e que me foi dada pelo filho do Alain Oulman, e que gravei. Ou com outros temas que gravei e que à partida 'não eram' fados. Sempre me preocupou o ambiente musical que tem a ver com o fado, não aligeirar nunca. Um dos problemas que às vezes acontece é o de fazerem cançonetas ligeiras, mesmo cantiguinhas, às quais tentam dar uma roupagem de fado. Isso é que não faz sentido nenhum.

Além disso, sempre gravei fados tradicionais com letras novas nos meus discos. Sempre fiz isso porque tem tudo a ver comigo. O fado tradicional está muito enraizado em mim, faz parte de mim.

Tem um convidado muito especial em “A Lucinda Camareira”. É o primeiro dueto que edita e a escolha só poderia recair no Carlos do Carmo?

O Carlos não só tem a vivência deste tempo e desta vida como é dos meus fadistas preferidos de sempre. Ninguém canta como ele, é dos melhores fadistas de sempre. Eu sinto-me como um menino a cantar com um grande senhor. O Carlos sempre foi uma pessoa com quem eu me dei muito bem, sempre teve muito interesse no meu trabalho e sempre me ajudou e motivou desde o meu principio de carreira. Quando parei de cantar ele perguntava ao meu pai 'então o Camané como é que ele está?'. Quando era mais novo, uma das casas de fados que frequentava era a do Carlos. Tinha para aí uns onze anos quando uma vez cheguei lá e disse 'eu quero cantar mas quero que o Carlos do Carmo vá ouvir'. E ele ouviu. O tempo passou, cruzamo-nos várias vezes, até que em 1994 convidou-me para cantar num espectáculo dele em Lisboa, já eu cantava regularmente nas casas de fado. O Carlos ajudou-me imenso numa fase em que era complicado gravar, numa altura em que o fado não estava na moda e era difícil que uma editora se interessasse.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Hoje o fado está na moda?

Hoje em dia não existe aquele preconceito que existia em relação ao fado. Eu não dizia a ninguém que cantava fado e até gozavam comigo na escola por cantar...

Porquê?

Porque as pessoas não tinham ideia do que o fado era, achavam que o fado era uma música de velhos. Quando comecei a cantar fados vivia no meio de pessoas muito mais velhas e foram eles que me ensinaram tudo. Não havia ninguém da minha idade, salvo algumas excepções como alguns guitarristas. O Carlos Manuel Proença, por exemplo, era muito novo e tocava. O Zé Manuel Neto também começou a tocar guitarra portuguesa muito novo. Também o Ricardo Rocha e o Paulo Parreira... Eram filhos e netos de grandes guitarristas e que de repente se tornaram guitarristas também. Portanto eram pessoas que vinham do fado e conheciam o fado.

Mais tarde, especialmente quando morreu a Amália, em 1999, é que começaram a aparecer as fadistas que começaram a cantar e cantavam os fados da Amália. Não tinham conhecimento do fado tradicional e começaram pela Amália, os primeiros discos delas eram tudo fados da Amália. Depois é que começaram a perceber o fado e a cantar fado e até se tornaram grandes cantoras e fadistas.

E eu vinha de um caminho e de uma escola onde tinha de fazer qualquer coisa de novo no início. Procurei sempre novos poetas para as músicas do fado tradicional, nunca fiz as coisas à espera dos resultados mas sim à espera de criar qualquer coisa porque tinham um respeito tão grande... ainda por cima na altura em que comecei a cantar essas pessoas estavam todas cá, não é. É diferente. Sentia aquele peso do passado e das pessoas do fado.

No disco é novamente acompanhado por Carlos Manuel Proença, José Manuel Neto e Carlos Bica. Em equipa que ganha não se mexe?

São os meus músicos de sempre, que tocam comigo há vários anos. No DVD toca ainda o Paulo Bastos.

Tal como nos trabalhos anteriores, a produção e direção musical esteve a cargo do José Mário Branco. Ele que nem sempre foi fã de fado mas também aqui o Alfredo Marceneiro teve um papel importante.

Sim, o Alfredo foi quem o fez gostar de fado...

Quando se deu o 25 de Abril havia uma ideia de que o fado estava ligado ao antigo regime. E isso é uma coisa completamente errada. E o Zé Mário foi uma das primeiras pessoas a perceber que isso não era verdade. Porque houve muitas que ficaram ali durante anos a achar que tinham razão. O Zé Mário, por influência da Manuela de Freitas e depois do Carlos do Carmo, e de outras pessoas, percebeu que estava errado. Ele próprio conta que isso tinha a ver com aquelas cantiguinhas muito brejeiras que passavam na rádio e onde não passavam os grandes fados, como as coisas do Marceneiro.

E trabalhar com o Zé Mário, como é?

É fantástico, ele toda a vida me ajudou a tirar partido de uma série de coisas que acho que são importantes no fado. Como o sentido da palavra, de contar a história, de encontrar o registo emocional de cada poema e transmiti-lo às pessoas. Além disso, o Zé Mário conseguiu perceber que eu era um fadista e, à parte os arranjos musicais, queria manter a minha característica de canto e não perder a minha autenticidade.

A capa conta com um desenho estilizado do arquiteto Álvaro Siza Vieira. Como é que surgiu esta ideia?

A ideia não foi minha. Não sei como aconteceu, até porque nem estava em Portugal. Quando cheguei a Lisboa mostraram-me esta proposta de capa e aceitei logo porque gostei imenso. Mas não tive nenhuma influência nela, foi da responsabilidade da editora. Fiquei muito contente com o resultado e já lhe escrevi uma mensagem de agradecimento. Gosto imenso da capa, acho que reflete um pouco este disco.

Quando tiramos o celofane que o embala, fica só desenho. Perde o nome de Camané e o título... 

Sim, e só tem uma fotografia na parte de trás do disco e nem é minha. É uma fotografia que faz parte do meu imaginário do Marceneiro, dele com um cigarro no canto da boca.

E dedico este disco ao José Pracana porque para além de ter sido um grande guitarrista, um tipo com uma sensibilidade incrível na abordagem do fado, teve extrema importância na divulgação do Marceneiro e na capacidade que teve de dar dimensão à sua obra.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

“Camané canta Marceneiro“ conta com duas versões. Uma delas especial, onde o álbum é acompanhado de um DVD gravado ao vivo no palco da Culturgest, em Lisboa, num concerto apenas para 100 pessoas. Este espectáculo foi um teste ao álbum?

Senti a necessidade de cantar estes temas todos ao vivo. Uma coisa é estar no estúdio a gravá-los e eu quis ter o público à frente a ouvi-los. Quando vou para o palco fico mais livre, não fico tão obcecado com o que vai acontecer e não penso tanto. Uma das coisas piores para se cantar é pensar. Quando se está a cantar não se pensa, as coisas estão interiorizadas. E quando vou para o palco tenho a perspetiva sempre de melhorar aquilo que fiz no disco. Já tinha feito alguns concertos naquela sala, e uma das coisas que gosto nela é a possibilidade de se abrir o palco para atrás e ficar um ambiente e uma luz diferente. Ficou com um ambiente que reflecte muito o que está no disco.

Estamos agora a marcar os concertos do ano que vem com a apresentação deste disco. Este é um espetáculo que quero fazer em teatros e a ideia é cantar o disco todo. Como tem 15 temas, é curto. Talvez vá incluir outros temas meus no final do concerto.

E daqui a uns anos, poderemos ter um fadista a cantar Camané num disco como este?

Se quiserem, não sei. Eu sou só interprete, não fiz nenhuma música. Há aqui um lado que o Marceneiro tinha que eu nunca vou ter, essa é a verdade. Uma das coisas que me deu a ideia deste disco foi um disco do Bob Dylan a cantar Sinatra. É o Dylan a cantar o Sinatra, mas é o Dylan... Os arranjos, toda a música é o Dylan.

*Agradecimento especial ao bar O Bom O Mau e O Vilão por disponibilizarem o espaço para a realização da entrevista e das fotografias.

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