Cecília, Daniela, Marco, Mariana, Mauro e Sara – alunos do 12.º ano da escola de dança Lugar Presente - vão subir ao palco do Teatro Viriato depois de terem acompanhado o trabalho dos ranchos folclóricos de Torredeita, Verde Gaio de Lordosa e da Casa do Povo de Abraveses.

No ano passado, os finalistas também fizeram uma investigação sobre o folclore beirão, que resultou no espetáculo “Toda a noite até ser dia”, coreografado por Filipa Francisco.

O espetáculo deste ano chama-se “E depois da dança” e resulta de um desafio lançado pelo Lugar Presente ao coreógrafo António Cabrita (que dirige a Companhia Paulo Ribeiro, juntamente com São Castro), que recebeu formação em danças tradicionais na Escola de Dança do Conservatório Nacional.

“Foi um bom desafio. Foi bom, intuitivamente, voltar a estas minhas origens que aprendi no Conservatório”, disse o coreógrafo à agência Lusa.

A coreografia resulta de uma desconstrução estética da dança tradicional, focada na sua dimensão social e nas relações humanas geradas nos espaços dos ranchos folclóricos.

António Cabrita contou que, nas visitas aos ranchos folclóricos, pediu aos alunos “para observarem não só as danças, mas também a forma como as pessoas estavam naqueles locais”.

“Fomos muito bem recebidos, e eles também são todos entre eles muito bem recebidos. É um ensaio muito familiar”, referiu, frisando que a observação permitiu perceber “como é que a dança tradicional une as pessoas”, seja um engenheiro ou uma funcionária das limpezas.

“E depois da dança” é não só uma criação que tem como inspiração a linguagem popular, mas que também reflete várias dimensões das relações humanas.

Segundo António Cabrita, na coreografia é possível identificar movimentos usados pelos ranchos folclóricos, ainda que “de forma muito desconstruída”. Há também “movimentos de uma dança que foram roubados”, acrescentou.

Os figurinos remetem para as roupas tradicionais usadas pelos ranchos folclóricos, como um colete, uma saia, um lenço e um avental que parecem ter “congelado” a meio de um movimento.

Segundo António Cabrita, os figurinos, da responsabilidade de Nuno Nogueira, são também um elemento cénico, ficando em palco mesmo depois da saída dos bailarinos.

A inspiração surgiu do facto de os ranchos folclóricos costumarem depositar “cestas e toda a parafernália de objetos” em palco para fazerem o centro das danças, explicou.

A música original do espetáculo pertence a Artur Fernandes.

Mariana Silva, que é uma das finalistas do curso de dança, disse à Lusa ter estranhado a forma como decorrem os ensaios dos ranchos folclóricos, muito diferente do que acontece nas aulas do Lugar Presente, onde há um professor a impor as regras.

“Estão todos a conversar como uma família e de repente dizem: ‘vamos dançar’. E começam do nada, sem preparação, sem aquecimento, sem regras, com roupa normal de rua. É estranho, mas é interessante”, contou.

Uma das maiores dificuldades que considera ter havido foi o “sentido de grupo”, o “respirar uns com os outros”.

“Neles parece que é natural. Eles respiram uns com os outros, todos ao mesmo tempo. É algo que nós devíamos ter”, afirmou.

Também o facto de as mulheres dos ranchos segurarem as saias com as mãos enquanto rodam, para que os panos não levantem, se revelou uma dificuldade.

“É complicado de fazer, porque nós estamos habituados a levantar as mãos para ter um certo equilíbrio e tínhamos de as por para baixo”, acrescentou.

Para Mauro Bastos, o mais difícil foi o tipo de movimentos que usam nos ranchos folclóricos: “São muito coisas retas e fixas e nós temos de conseguir adaptar isso para o corpo ser uma coisa mais fluida, mais orgânica”.

A sua colega, Daniela Dias, confirmou a ideia que tinha: que os ranchos folclóricos têm “um ambiente muito agradável e aberto”.

“Chegámos, ninguém nos conhecia e integrámo-nos logo. Fizemos logo as danças”, recordou.

A diretora pedagógica do Lugar Presente, Ana Cristina Pereira, considerou importante sensibilizar as novas gerações para um património que é de todos, embora os alunos o sintam “com muita pouca pertença”.

“O facto de termos feito visitas a diversos ranchos folclóricos, como fizemos no ano passado, acrescentou outra sensibilização e outro olhar para esta estética do movimento, que é tão diferente daquela com que eles trabalham, mas que na sua génese também tem muito a ver connosco”, realçou.

Ana Cristina Pereira garantiu que a escola continuará a trabalhar a temática das danças tradicionais, nomeadamente na disciplina de Expressão Criativa do segundo ciclo.

Um dos objetivos é que, futuramente, haja a possibilidade de elementos desses ranchos folclóricos trabalharem durante um curto período com os alunos, avançou.

Depois da estreia na quarta-feira, em Viseu, o espetáculo “E depois da dança” será apresentado na sexta-feira, em Canas de Senhorim, no concelho de Nelas. Nas duas noites será também reposto o espetáculo “Toda a noite até ser dia”.

“E depois da dança” contou com o apoio do programa Viseu Cultura da autarquia, no ano em que a cidade acolhe a 55.ª edição do festival Europeade, de 25 a 29 de julho.

Este é considerado o maior evento europeu de etnografia e folclore e, segundo a autarquia, são esperados 5.200 convidados estrangeiros, de 30 países, participando também 17 grupos do concelho.

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