O telemóvel toca. A chamada provém de Londres, onde uma voz feminina depressa nos reencaminha para Espanha, onde Mark Lanegan iniciou recentemente a sua nova digressão europeia, em torno de “Somebody's Knocking”, o seu novo álbum. Absorto destas maravilhas da globalização, e muito provavelmente na sua hora de almoço – conseguimos descortinar o pousar de talheres em pratos e uma ou outra pausa para mastigar – encontramos o homem sobre o qual a Pitchfork disse, em 2004, ter uma voz “tão arranhada quanto uma barba de três dias, mas tão suave e maleável quanto uns sapatos de couro”. Cumprimenta-nos com um “olá” seco e ei-la, essa mesma voz, esse mesmo rock n' roll detido na goela de quem já viveu muita coisa digna de ser contada.

Tanto viveu que irá, de facto, contar a sua história. “Sing Backwards and Weep”, a sua autobiografia, tem lançamento marcado para abril do próximo ano. De fora, revela-nos, não ficou nada: “Se eu tivesse cortado tudo o que fosse desconfortável, ficava sem livro”, atira, rematando com uma gargalhada gostosa. É, Lanegan tem aquela voz rouca e durona de um ranger do Texas, mas que não se diga dele que não é capaz de mostrar um bom humor. Apesar de tudo. Sobreviveu às drogas, aos amigos perdidos para as drogas (entre eles, Kurt Cobain e Layne Staley), e à velocidade e à atenção de que foi alvo a Seattle dos anos 90, onde começou por criar nome com os Screaming Trees antes de se aventurar na música “apenas” como Mark Lanegan. Só não se fale em grunge: por diversas ocasiões o músico disse não ter qualquer apreço por esse rótulo. “Se nunca me associassem à música grunge é que eu ficava satisfeito”, contou à revista BLITZ em 2012.

Ouvimos “Somebody's Knocking” e, de facto, para além da voz pouco há aqui que mereça o adjetivo “grungy”. 'Disbelief Suspension', logo a abrir, pisa terrenos mais próximos de Iggy Pop e dos Stooges (e é por isso que é uma excelente malha), ao passo que o resto do disco navega pelas águas turbulentas e dançáveis do pós-punk segundo a bitola dos Joy Division e New Order, bandas que admirou na adolescência e continua a admirar. Em comunicado à imprensa, “Somebody's Knocking” é descrito como um álbum “pleno de alegria”, o que nos leva a questionar o músico: é este o disco em que se divertiu mais?

“Não é que não me tenha divertido. Mas isso vem de um comunicado à imprensa; não foi algo que eu próprio escrevi. Foi algo escrito por alguém, a interpretação que outra pessoa teve de toda a experiência. Não que eu discorde. Já tive de responder a este tipo de questões por diversas vezes, porque as pessoas têm tendência a fazer perguntas baseadas nos comunicados”. Ups... Pedimos-lhe imediatamente desculpa pelo sucedido. “É na boa, toda a gente o faz”, responde, soltando nova gargalhada. E continua o raciocínio.

“Não foi o disco em que me diverti mais, mas esteve longe de ser o disco em que diverti menos. Gostei muito de todo o processo de composição e gravação. Deu-me uma oportunidade para cumprir uma série de metas que tinha, há muito tempo. Quis fazer um disco que me fosse natural, que tivesse canções descaradamente orelhudas, que no meu mundo de fantasia pudessem ser consideradas singles”, acrescenta. Duas delas foram-no, de facto: 'Stitch It Up', vertiginosa e delirante viagem de rock eletrónico, com batida krautrock, e 'Night Flight to Kabul', que não destoaria na discografia de uns senhores chamados Depeche Mode – os quais Lanegan também aprecia imenso.

"Quando eu era adolescente, o Fernando Pessoa era dos meus poetas favoritos”

A oportunidade para conferir tudo isto em concerto, no que aos fãs portugueses diz respeito, dar-se-á esta quarta e quinta-feira, no Lisboa Ao Vivo e no Hard Club, respetivamente. Será o regresso de Mark Lanegan a um país que bem conhece, e onde esteve este mesmo ano, a acompanhar os Dead Combo. Da dupla lisboeta, que recentemente anunciou um ponto final na carreira, Lanegan não tem senão elogios. “Fiquei fascinado com a sua música e com o espetáculo que dão, são das bandas mais incríveis que já vi. Conheci o Pedro [Gonçalves, contrabaixista] quando dei um concerto acústico em Lisboa, e ele trouxe-me um livro de poesia do Fernando Pessoa, o qual eu já conhecia. Quando eu era adolescente, o Fernando Pessoa era dos meus poetas favoritos”, remata.

Dead Combo com Mark Lenegan, Vodafone Paredes de Coura 2018 / Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Da adolescência para a idade adulta, Pessoa continuou a fazer as delícias de Mark Lanegan, que cantou o poeta português em 'I Know, I Alone', tema presente no último álbum dos Dead Combo, “Odeon Hotel”. “Deram-me o instrumental e perguntaram-me se queria cantar, e eu disse 'claro'”, explica. “A certa altura, eu e o Pedro falámos em compor um álbum inteiro mas isso, infelizmente, não irá acontecer. Ouvi dizer que acabaram. É de partir o coração”. Concordamos: os Dead Combo eram das melhores bandas deste canto à beira-mar plantado. “De todos os tempos”, parece corrigir-nos Lanegan. “O Pedro é das melhores pessoas que já conheci. Todos os elementos da banda eram tipos incríveis. Sinto-me abençoado por os ter conhecido e por me ter envolvido com eles, e estou muito orgulhoso do trabalho pequeníssimo que fiz com eles”.

O norte-americano chegou à banda através do programa de televisão de um outro amigo, entretanto também falecido: Anthony Bourdain, que “descobriu” os Dead Combo quando gravou um episódio de “No Reservations” em Lisboa. Foi igualmente Bourdain quem lhe deu a ideia de escrever um livro de memórias, quase em jeito de desafio. “Eu não queria escrevê-lo, mas ele insistiu. Disse-me para escrever um prólogo e enviar-lho, que ele dava-me a opinião dele. Quando ele morreu, senti a obrigação de o terminar”, afirma. “Não gostei de o escrever, e acho que ninguém gostaria: voltar a um período negro do qual não me orgulho”...

“O livro não me é abonatório. Não é romântico. Não é bonito. É a minha história. [Bourdain] aconselhou-me a ser honesto, a colocar lá tudo”

“Sing Backwards and Weep” será dedicado a Bourdain, e será também acompanhado por um outro álbum, inspirado pelo livro. “Todas as canções” desse disco “estão relacionadas” com a autobiografia. “Estou neste momento a compo-lo e a gravá-lo, pelo que não tenho tido tempo para ouvir a música de outras pessoas”, confessa, apontando ainda assim dois dos artistas que mais lhe têm enchido as medidas: os Cold Cave e os Earth, de Dylan Carlson, outro amigo e com o qual colaborou em “Primitive and Deadly”, disco de 2014. “O livro não me é abonatório. Não é romântico. Não é bonito. É a minha história. [Bourdain] aconselhou-me a ser honesto, a colocar lá tudo”.

Enquanto esse livro – e disco – não chegam, fiquemo-nos com “Somebody's Knocking”, a digressão em torno do qual teve início na passada quinta-feira em Santiago de Compostela. Nessa mesma semana, Espanha viveu tempos turbulentos, com os protestos em Barcelona e a discussão em torno da exumação do cadáver de Franco, notícias às quais o norte-americano não é alheio. “O mundo é mesmo assim”, lamenta.

“As pessoas querem mudanças. Há sempre agitação por toda a parte. Visto da perspetiva de alguém que vem de fora... Barcelona não é uma cidade onde eu imaginava que tal acontecesse. Nunca lá vivi, é um sonho meu há anos: quando me reformasse, ir para um sítio qualquer em Espanha. E Barcelona é das minhas cidades favoritas”, revela.

"Daqui a cem anos as pessoas não saberão quem eu sou”

O “sonho” poderá estar intimamente ligado ao facto de Lanegan, ao longo de toda a sua carreira, ter tido um perfil maior na Velha Europa que nos Estados Unidos onde nasceu – apesar do grunge. Lanegan não encontra explicação para esse facto, e valha a verdade também não quer saber. “Nunca pensei nisso. Não muda nada. Limito-me a pensar em coisas sobre as quais tenho algum tipo de controlo. Nunca controlei quem quer ouvir a minha música, ou vir aos meus concertos”, explica. “São coisas que não estão em minhas mãos. Passo o tempo a pensar em compor canções, discos, a decidir o restaurante no qual irei jantar, o concerto ao qual irei”.

Fora das suas mãos está, também, o legado que deixará – ou não – às gerações futuras. Recorremos a uma citação do “Livro do Desassossego”, de Pessoa, para lhe perguntar sobre esse mesmo tema: «Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também». Lanegan escuta-nos atentamente, antes de responder de forma sarcástica e com outra gargalhada: “Não conheço ninguém que tenha feito música em 1910. Duvido que as gerações futuras conheçam a minha música”, diz. “É assim que olho as coisas. Não consigo controlar a forma como as pessoas me veem. Se a minha música viver no tempo, se a escutarem quando morrer, espero que as pessoas o façam de uma maneira que lhes traga paz de espírito, que se sintam ligados a ela. Isso deixar-me-ia satisfeito. Poder curar quem precisa, que foi isso que a música à qual me liguei fez por mim: curou-me. Mas sejamos honestos: daqui a cem anos as pessoas não saberão quem eu sou”. De imediato atiramos: “nunca se sabe, Mark”. O que é verdade – assim como também é verdade que a sua música já salvou muitos entre nós.

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