A “Pineapple Week” (semana do ananás à letra) é um evento que decorre em Lisboa, entre os dias 29 de setembro a 9 de outubro, e que tem como objetivo levar o publico a conhecer os restaurantes de hotel.

Entre outras, há certamente duas razões que levam os restaurantes localizados nos hotéis a serem preteridos relativamente aos chamados “restaurantes de rua”. Uma terá que ver justamente com a acessibilidade: o facto de, em muitos casos, se ter de passar por uma receção por não haver porta para a rua pode tornar o local mais recatado e, por inerência, menos exposto para aquele que quer saciar o apetite. A outra razão é cultural e prende-se com o facto da “nouvelle cuisine” francesa ter ficado associada também aos restaurantes de hotéis de cinco estrelas, onde os chefs “estrela” de então apresentaram as suas criações de pratos muito elaborados, com uma apresentação esmerada e sacrificando em função da estética não a diversidade, mas a quantidade dos alimentos a serem servidos. Isto levou o senso comum a associar estas refeições e estes restaurantes a pratos “demasiado” elaborados, com uma apresentação sofisticada, mas uma relação invertida ente a quantidade e o preço.

Então quem vai a estes restaurantes, escondidos, caros e onde se come pouco?
Todos aqueles que discordam destas três premissas. E já são muitos. Para todos os outros, que ainda olham para os restaurantes de hotéis com a herança cultural que lhes está associada, a Chefs Agency em conjunto com a Associação de Hotelaria de Portugal (AHP) organizaram um evento que visa levar o grande público aos restaurantes de hotéis.

E porquê Pineapple Week? O nome prende-se com o facto do ananás ser um símbolo de hospitalidade e de bem receber e será assim que os 24 restaurantes, todos pertencentes a unidades hoteleiras, se preparam para receber os seus não-hospedes, com menus específicos compostos por entrada, prato principal, sobremesa café com vinho ou cerveja incluídos.

Há três preços de menu, 25, 35 e 45 euros por pessoa, de acordo com o preço médio de cada restaurante num dia normal, se não incluísse vinho. Na opinião dos chefs manter os preços da carta, ao contrário de alguns festivais gourmets com preços mais reduzidos, é melhor porque de outra forma o cliente teria uma experiência do espaço e do serviço, mas não uma verdadeira experiência da cozinha já que quando se reduzem os preços não se podem servir os pratos habituais da carta.

Quem for a estes restaurantes entre 29 de setembro e 9 de outubro poderá provar pratos-estrela dos restaurantes e alguns chefs resolveram mesmo apresentar estreias e algumas novidades como é o caso da proposta de entrada do chef Miguel Paulino do restaurante Panorama, localizado no último piso do hotel Sheraton. Trata-se de uma massada estaladiça de robalo pescado à linha, “Este é um prato de que gosto muito, vamos estreá-lo neste evento, mas fará parte da próxima carta. Queremos que as pessoas que nos visitam esta semana conheçam alguns dos nossos clássicos, algumas novidades e depois voltem para conhecer o resto da carta”.

Massada estaladiça de robalo pescado à linha, do chef Miguel Paulino.

O chef resolveu também trabalhar a temática do evento com “um bolo da avó” de ananás com sorvete de côco e lima. “Este bolo vai  trazer-nos as memórias de infância, e até vou trazer cá a minha avó para validar".

O fruto-pinha
A tradução literal do inglês pineapple é fruto-pinha e está relacionada com a forma. Uma espécie de pinha com uma ramagem no topo, o que a faz parecer uma coroa. E foi graças à coroa que o Ananas comosus obteve cognome de “rei dos frutos”, nos séculos XV e XVI, quando começou a ser trazido para a Europa. Provavelmente Cristóvão Colombo e os seus marinheiros terão sido os primeiros ocidentais a ver e a provar o fruto na ilha de Guadalupe.

Ainda hoje se associa o ananás aos trópicos. O fruto exótico era trazido para a Europa e vendido a preços proibitivos pela seu exotismo e perfume. O fruto era de tal forma caro que era colocado na mesa, mas não se comia, servindo apenas de decoração para durar em vários banquetes ... até ao ponto de apodrecer e não se poder comer.

Foi um holandês, Pieter de Court, o primeiro a conseguir que a planta crescesse e desse frutos na Europa, em 1658 com recurso a estufa, utilizando um método não muito diferente do que ainda hoje se usa nos nossos famosos ananases da ilha de São Miguel nos Açores.

Um só fruto leva cerca de dois anos até  estar pronto para ser consumido. Passando por vários processos, inclusivamente com o recurso a fumos, em estufas bastante abafadas.

E é agora que a referência ao Eça faz sentido presumindo também que o autor tinha conhecimento do processo de cultivo dos ananases: o calor do quarto do amigo em agosto era próprio de uma estufa.

O caráter de exclusividade desta fruta tem se mantido ao longo dos tempos e é consumido em festas e ocasiões especiais, como por exemplo o Natal. Nalgumas casas ficou o costume de se colocar um ananás à porta de casa como sinal de boas vindas para as visitas, daí o símbolo da hospitalidade.

Por isso, à porta dos 24 hotéis vai estar nesta Pinapple Week, o cartaz do evento com o ananás a dar as boas vindas a todos os clientes.

Para o chefe Tiago Bonito, do restaurante Lisboeta da Pousada de Lisboa, “este evento é a oportunidade de sair da caixa e trazer a novos clientes os sabores das suas memórias de infância; aqui no Lisboeta dá-se a magia de transformar as nossa recordações de infância numa cozinha contemporânea".

Carabineiro do Algarve, salada de pepino, azeitona e limão mão de buda, do chef Tiago Bonito.

Uma outra referência conhecida do fruto vem do brasileiro abacaxi  e da expressão “descascar um abacaxi". Quer dizer fazer uma coisa difícil, porque para se chegar à polpa  do fruto tem de se retirar toda a casca espinhosa, sem ferir as mãos e desfrutar o sabor misto de doce e ácido. Será um pouco assim também atravessar todo um lobby de um hotel até chegar ao local onde nos servem uma refeição talvez exótica, mas certamente saborosa e acessível ao bolso mais comum. E neste outono que ainda parece verão, os ananases continuam no seu clima e habitat natural.

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