Hocine Deddal nasceu em Fez, Marrocos, vive em Madrid com a família e desde o primeiro ano que é vendedor ambulante na Feira Medieval de Silves. Já lá vão 15 anos, tantos quanto a existência deste evento, desde que pisou pela primeira vez o solo desta cidade algarvia para vender “móveis e candeeiros” e artefactos marroquinos.

Vestido a rigor, com trajes típicos das tribos berberes, remetendo a nossa visão para um tempo passado e uma paisagem longínqua típica do deserto do norte de África, um telemóvel na mão (“estou a ver televisão espanhola”, informa) denuncia o negociante de 56 anos de idade (“já tenho a pdi”, sorri) que anda pelas feiras de Portugal no “verão” e o resto do ano “em Espanha”, contabilizando “cerca de 15” a cada 12 meses.

Hocine é um dos muitos feirantes que marcam presença na XV Feira Medieval de Silves, um evento que tem como tema central “Silves, 1189. A Conquista”, retratando um episódio da primeira tomada pelos Cristãos desta outrora estratégica cidade dominada pelo Califado Almóada, tribo berbere que deambulava em Marrocos.

Recriando o ambiente bélico que se viveu durante o cerco de 45 dias perpetrado pelas tropas do Rei D. Sancho I, onde figuram templários, cistercienses e hospitalários com a ajuda dos Cruzados (germanos, flamengos e bretões) que se dirigiam à Terra Santa na III Cruzada, as ruas e ruelas da cidade que desaguam no torreão e a Sé são, até ao dia 19 de agosto, uma recordação viva desses tempos.

Nas imediações das águas do rio Arade, levando a cabo a estratégia de cortar o abastecimento e fazer Abu Becre Ibn Wazir, que governava a cidade, anunciar a rendição, os Torneios Medievais (duas sessões por dia, às 20h e às 22h30) fazem jus à época, com cavaleiros e combatentes apeados em simulações de combate.

“Hoje, Silves amanheceu calma, temos a cavalaria cristã estacionada na parte poente da cidade, mas vemos muita movimentação na zona ribeirinha. Parece que trabalham em máquinas de guerra e já ontem tentaram minar a couraça. Esperemos que não a destruam, pois ficaremos sem abastecimento de água”, lê-se nesta espécie de diário (desde o dia 10 até 19) da tomada de Silves.

Esta palavras retratam uma visão do olhar de quem se estava “do lado de dentro” da cidade (muçulmanos), numa imitação dos verdadeiros escritos de um dos cruzados (conhecido como o “Cruzado Anónimo”), documento intitulado “Relação da Derrota Naval, Façanhas e Sucessos dos Cruzados que Partirão do Escalda para a Terra Santa no Ano de 1189) e que relata os 45 dias (de 20 de julho a 3 de setembro de 1189) da primeira conquista da cidade que viria a ser capital do Reino dos Algarves.

Marroquinaria, kebabs, tiaras e candeeiros das mil e uma noites. Tudo se vende

Embora o belicismo desses dias no século XII em que Silves (XILB, como era conhecida) viveu em estado de sítio sirva de inspiração cénica, com a recriação histórica “do cerco à rendição” e dos torneios de armas, a paz reina pelas pedras da calçada. Há comércio, gastronomia, música, animação de rua, saltimbancos, danças, leitura da Xaria do dia, às 18h30, nas Portas da Cidade e cortejo pelas ruas e largos da Medina.

Youssef Bettani, natural de Meknès, “uma cidade no centro de Marrocos” ouviu falar da Feira Medieval em Lisboa, “na FIL”, este ano. Está visivelmente agradado com este evento que considera ser “histórico” e uma “boa surpresa”.

Com 38 anos, “não vendo nada online, não tenho telefone, não uso a internet e não tiro selfies”. E não gosta de ser fotografado. “Vês, gostas e compras”, resume o ato a que se tem de acrescentar a tradicional negociação. “Os portugueses sabem tudo. Os preços e quanto pagamos em Marrocos, falo enquanto preços de grossista”, informa.

Recriando um ambiente das mil e uma noites encantadas do deserto, Emad Ali, egípcio natural de Almansura, mas a viver em Portugal (entrou por Faro mas vive atualmente na Costa da Caparica) desde 2001 vende candeeiros de todas as cores e feitios.

“Portugal é um bom país para viver [vive com a família] e um bom sítio para vender”, anuncia este comerciante que não deixa de tocar no assunto do dia: os incêndios. “Pode ter afastado as pessoas no primeiro dia. Espero que melhore”, deseja.

Na Feira Medieval de Silves vende-se um pouco de tudo, da marroquinaria [malas], às espadas de madeira e escudos até às tiaras, numa banca em que Maria Karina, filha de mãe portuguesa e pai inglês, se estreia na arte da venda.

E, feira que é feira, tem que servir para alimentar quem as visita. E entre o Kebab de vaca e de frango há, nos últimos anos, espaço para outros produtos alimentares, como o piripiri algarvio que tem pouco de medieval, mas que é sinal dos tempos modernos.

Por fim, uma informação de índole histórica. Silves viria a cair no domínio muçulmano em 1191, ainda durante o Reinado de D. Sancho I, o Povoador, Rei de Portugal, de Silves e do Algarve (deixaria de usar este título após a reconquista de Silves pelos Almóadas) e só viria a ser reconquistada, em definitivo, em 1249 por D. Paio Peres Correia, já no Reinado de Afonso III que sucedera a D. Sancho II, neto de Sancho I, Rei que voltaria a usar o título de "Rei de Portugal e do Algarve", que não mais deixaria de ser utilizado pelos seus sucessores até ao fim da monarquia em Portugal.

“Que nos deixem viver na nossa amada XILB ainda que sob o seu domínio. Amamos a nossa cidade, envolta em terrenos férteis e campos repletos de árvores frondosas, mercados bem abastecidos, porto dinâmico e fácil acesso aos mares. Mares por onde circulam produtos e ideias. Terra de poetas, terra de cultura, terra de homens e mulheres laboriosas, terra próspera e bela. O sol continuará a brilhar nesta terra, hoje e sempre, seja qual for a ideologia e a religião”, conclui o escrito da tomada de Silves, dia após dia, inscrição que pode ser lida nos panfletos distribuídos aos visitantes da XV Feira Medieval de Silves.

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