O que mudou em Israel desde que Manuela Bravo pisou o palco da Eurovisão em 1979? Na história do país e do mundo, muita coisa. Na Eurovisão idem, aspas. Manuela Bravo (1979), Rui Bandeira (1999) e agora Conan Osiris, com 20 anos de distância entre cada, são os representantes portugueses num dos palcos mais fervilhantes e polémicos da canção europeia.

1979

A 24.ª edição da Eurovisão aconteceu a 31 de março de 1979, em Jerusalém, no Centro Internacional de Convenções, e recebeu 19 delegações.

O festival aconteceu poucos dias depois da assinatura do tratado de paz israelo-egípcio; à data era primeiro-ministro Menachem Begin. Um dos principais pontos do tratado dizia respeito ao reconhecimento mútuo de ambos os países. Por razões políticas e pressão dos países árabes, a Turquia retirou-se do concurso por este se realizar em Israel. Pela mesma razão, a Jugoslávia e Malta não regressaram ao certame.

Esta foi a primeira vez que a competição foi realizada numa cidade fora do continente europeu e foi a última vez que a final aconteceu em março. O evento foi o primeiro programa a cores produzido pela televisão pública israelita, a IBA.

Manuela Bravo, com apenas 22 anos, mas que à data já tinha cinco discos gravados e aparecido em programas da RTP como "Domingo à Noite" ou "Nicolau no País das Maravilhas", foi a nossa representante com o tema "Sobe, Sobe, Balão Sobe". A cantora recorda a participação com carinho e deixa algumas críticas ao modelo atual.

"Fui a primeira a abrir o desfile das canções, o que para mim foi muito bom porque não fiquei com os nervos em franja à espera”, conta ao SAPO24. "Fui muito bem tratada, do carinho do público, ao dos colegas, passando até pelo dos jornalistas. Só tenho boas memórias. Em Jerusalém era reconhecida na rua e pediam-me autógrafos, o que achava algo muito bonito. Estivemos lá durante oito dias. Oito dias muito gratificantes, que me deram a oportunidade de conhecer outras pessoas e outras culturas."

Ter arrancado a classificação que arranquei é sinal de que a Europa reparou em nós. Quando voltei para Portugal, voltei com o sentimento de vitóriaManuela Bravo

"[Em 1979] foram a concurso 19 países, não era chato assistir à Eurovisão como agora é. É uma chatice, é muita gente. Hoje o festival perdeu alguma da mística que tinha antigamente. Em termos de espetáculo de televisão é bom, mas falta o carisma das canções e das melodias."

"Cada país era obrigado a cantar na sua língua de origem, o que acho muito bem. Despersonaliza as culturas de cada país ao cantar só em inglês. Não concordo nada com isso. Cantar na própria língua era, na altura, perfeitamente natural. Não era por aí que as pessoas deixavam de apreciar".

"Tínhamos tido o 25 de abril há pouco tempo, não estávamos na União Europeia e ninguém ligava a Portugal. Ter arrancado a classificação que arranquei é sinal de que a Europa reparou em nós. Foi uma pedrada no charco. Quando voltei para Portugal, voltei com o sentimento de vitória".

A votação foi renhida entre Israel e a Espanha, sendo os votos de nuestros hermanos os últimos e decisivos para consagrar Gali Atarie Milk e Honey, com o tema "Hallelujah", vencedores. Israel venceu pela segunda vez consecutiva e Portugal terminou em nono lugar com 64 pontos.

1999

A última edição dos anos 90 e a 44.º do Festival Eurovisão da Canção realizou-se a 29 de maio de 1999, também em Jerusalém e no Centro de Convenções, com 23 países a concurso. Benjamin Netanyahu era o primeiro-ministro cessante (1996-1999, voltou a ocupar o cargo em 2009); Ehud Barak, que venceu as eleições em maio, só tomaria posse a 6 de julho.

Portugal não tinha conseguido obter a pontuação necessária (calculada com a média das últimas cinco participações) para chegar à competição. Dada a desistência da Letónia e da Hungria foi repescado para a final (à data não havia semifinais). Rui Bandeira, que venceu o 36.º Festival RTP da Canção com o tema "Como tudo começou", também recorda a sua participação ao SAPO24. "Na altura tinha 25 anos, aquilo era tudo megalómano para mim. Foi uma experiência que nunca mais irei esquecer na minha vida".

"Lembro-me de um grande controlo da segurança. De chegarmos a Telavive, durante a noite, e de já termos à nossa espera seguranças armados da cabeça aos pés. Todas as saídas que fizemos durante a semana em que estivemos em Jerusalém eram acompanhadas de segurança armada. Havia algum receio de que pudesse acontecer alguma coisa porque os cristãos ortodoxos não viam com muito bons olhos a realização do evento ali. Especialmente porque a vencedora israelita da edição anterior, a Dana Internacional, era transexual".

"Mas fomos muito bem recebidos por toda a gente, as pessoas foram muito simpáticas connosco. Aquela foi uma semana fantástica. Só mesmo quem passa pelo Festival da Eurovisão é que consegue perceber a dimensão do evento".

"Todas as delegações ficaram no mesmo hotel, que ficava ao lado do Centro de Congressos. Imaginem o tamanho do hotel. A nossa comitiva tinha cerca de 20 pessoas, agora imaginem no total. Era muita gente".

"Tínhamos sempre atividades todos os dias. Houve quem fosse ao Mar Morto, fomos ao centro de Jerusalém, fomos fazer a Via Sacra, fomos ao Muro das Lamentações. Sempre com guias muito organizados. Paralelamente, tínhamos conferências de imprensa e ensaios. À noite, muitas das delegações vinham para o lobby do hotel onde havia um piano. Era engraçado ver toda a gente junta a cantar músicas internacionais. Era uma festa. Isso é o Festival da Eurovisão, o sermos tão diferentes e tão iguais".

"Nesta edição foram abolidas algumas regras, como a que obrigava os intérpretes a cantar numa das línguas oficiais do seu país. A maioria dos países, 14 dos 23 participantes, escolheu cantar, total ou parcialmente, em inglês e apenas 8 inteiramente nas suas línguas maternas. Portugal foi um deles.

"Havia pessoas que me perguntavam porque é que não ia cantar em inglês, porque até fizemos uma versão que se chamava "You Can Take My Hand" para fazer parte de uma brochura de divulgação. Eu até gostava de ter passado pela experiência de ter cantado em inglês e português, mas a minha editora à época e a RTP demoveram-me da ideia. E hoje não estou arrependido por ter cantado apenas em português, a interpretação foi ótima e ainda hoje canto o tema nos meus espetáculos".

Depois do Salvador tudo é diferente, no meu tempo era mais um 'lá vem Portugal'Rui Bandeira

Para além da língua, em 1999 a música ao vivo tornou-se opcional. Aproveitando-se dessa facilidade, a IBA, emissora anfitriã, decidiu não recorrer a uma orquestra e, pela primeira vez na história da competição, todas as canções a concurso tiveram o uso de uma faixa de apoio durante as suas atuações.

Ao intervalo, Dana Internacional, fez uma versão de “Free” de Stevie Wonder, algo controverso em Israel dado o teor da letra. O espetáculo terminou com todos os intérpretes em palco para cantar uma versão em inglês de “Hallelujah", tema com que Israel venceu a Eurovisão em 1979, como uma homenagem às vítimas da Guerra dos Balcãs. A vencedora desta edição foi Charlotte Nilsson, que representou a Suécia com "Take Me to Your Heaven", com 163 pontos. Portugal terminou com um total de 12 pontos na 21.ª posição.

"À época, a parte cénica do espetáculo era muito importante e nós fomos num mais tradicional. Víamos atuações de outros países com grandes produções. Não é que as canções fossem melhores, mas eram mais espetaculares em termos visuais. Por isso, até me emocionei quando o Salvador ganhou. Senti que aquela vitória também era um bocadinho minha, como acho que todos os portugueses sentiram. Depois do Salvador tudo é diferente, no meu tempo era mais um 'lá vem Portugal'. Os fãs da Eurovisão de outros países já olham para Portugal de outra forma."

2019. Telavive, pela primeira vez

Portugal será representado por Conan Osiris e o seu sucesso "Telemóveis", tema que já alcançou alguma popularidade internacional, com os sites especializados a considerá-lo como um dos favoritos.

Depois de ter vencido a edição de 2018, em Lisboa, com o tema “Toy”, de Netta Barzilai, esta será a terceira vez na história da Eurovisão que Israel recebe o festival. Podia ser a quarta, mas em 1980, quer por falta de verbas quer por incompatibilidades com o calendário judaico, Israel optou por não acolher o festival nem participar. Até ao presente, esta foi a única vez que um país não defendeu a sua vitória no ano seguinte. A 25ª. edição aconteceu então na Holanda e sagrou vencedor, pela primeira vez, Johnny Logan, pela Irlanda.

Depois de duas edições em Jerusalém, em 1979 e 1999, desta vez será Telavive quem recebe as 41 delegações (já contando com a desistência da Ucrânia) a concurso. A confirmação surgiu em setembro do ano passado, depois de algum impasse na escolha. Porém, já em junho, a União Europeia de Radiofusão (EBU), organizadora do festival e de que Israel faz parte, fazia saber que pretendia um lugar "menos controverso" do que Jerusalém, cidade dividida entre israelitas e palestinianos desde 1967. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, concordou que o governo se afastaria da escolha da cidade.

No entanto, a decisão não é consensual. Artistas de diversos países europeus, Portugal incluído, e ainda de Israel, Estados Unidos e Austrália, pediram à EBU a transferência da sede do evento para outro país, “com melhor historial de direitos humanos". "A injustiça divide, enquanto que a busca de dignidade e direitos humanos une”, lê-se na carta aberta subscrita por Brian Eno ou José Mário Branco. Associações portuguesas como o Comité de Solidariedade com a Palestina, o SOS Racismo e as Panteras Rosa apelaram também a Conan Osiris para não ir a Telavive. Numa carta enviada ao vencedor desta edição do Festival da Canção, as organizações referem que “a escassos minutos de onde terá lugar o Festival, Israel mantém um cerco ilegal a 1,8 milhões de palestinianos em Gaza, negando-lhes os direitos mais básicos.”

Sob o lema "Dare To Dream” (Arrisque a Sonhar, em português), as semifinais da 64ª. edição do Festival da Eurovisão estão marcadas para 14 e 16 de maio e a cerimónia da final para o dia 18 do mesmo mês, um sábado. A atriz Lucy Ayoub, a modelo Bar Refaeli, o comentador Erez Tal e o apresentador Assi Azar são os quatro apresentadores.

[Notícia atualizada às 14h30. Corrige na frase "a última edição do milénio" para "última edição dos anos 90"]

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