Cintra, que fundou o Teatro da Cornucópia, em 1973, com o também ator e encenador Jorge Silva Melo, afirmou: “A Cornucópia acabou, já saímos do sítio, e demos destino a todas as coisas que lá estavam, da maneira que nos foi possível”.

Segundo Luís Miguel Cintra, “algumas coisas vão para o Museu do Teatro [e da Dança], outras, relacionadas com arquivo, para o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras [da Universidade de Lisboa], outras coisas, a gente vendeu ou ofereceu, selecionando caso a caso”, e houve ainda outras peças que foram entregues ao Museu do Design.

Sobre o desfecho da companhia, Cintra disse: “O que me fez um bocadinho de impressão foi não se ter conseguido, da parte do Ministério da Cultura, uma vontade de utilizar aquilo que a gente tinha utilizado durante quarenta e tal anos e que podia servir de instrumento de trabalho para outras pessoas”.

O encerramento do Teatro da Cornucópia chamou à atenção de Marcelo Rebelo de Sousa, com o Presidente a servir de intermediário nas conversações entre o Ministério da Cultura e a direcção do teatro.

A Cornucópia saiu de cena com casa cheia e silêncio
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“Não terem aproveitado tal como a gente o fez. Houve um primeiro interesse que, depois, se esboroou e que não teve realização prática. Gostaria que aquilo que agente fez, a transformação daquilo numa sala de teatro, com muito equipamento lá dentro, tivesse servido, não, para uma companhia em especial, mas para quem quisesse”, disse, referindo que “achava que se devia ter aberto um concurso”.

O imóvel que acolheu o Teatro da Cornucópia desde 1975, o seu segundo ano de atividade - o Teatro do Bairro Alto, na rua Tenente Raul Cascais, em Lisboa - volta para os seus proprietários.

Fazendo um balanço da Cornucópia, Luís Miguel Cintra afirmou: “Tudo foi feito de acordo como nós éramos, na altura em que fizemos”.

“Não sofro horrores por não haver Cornucópia já”, disse, referindo que tem “um bocadinho de saudade”, mas valoriza principalmente, a consciência que tem, do que foi ter construído uma espaço à medida da companhia, “que é uma diferença muito grande de estar sem espaço”.

O Teatro da Cornucópia fechou portas no passado dia 17 de dezembro de 2016, 43 anos após a sua fundação. Nesse dia, um sábado, a companhia realizou um último espetáculo de despedida, com um Recital de Apollinaire e o lançamento do livro "Teatro da Cornucópia - Espectáculos de 2002 a 2016", o segundo volume da história da sua atividade.

Luís Miguel Cintra, que em 2015 se afastou dos palcos por motivos de saúde, dividia a direção artística com a cenógrafa Cristina Reis. A decisão de encerrar não foi tomada repentinamente, e tinha até já equacionada por Cintra, em 2013, numa entrevista à Lusa, pelos 40 anos da companhia.

Um dos motivos para o fecho foi a sequência de sucessivos cortes nos subsídios, por parte do Estado, que asseguravam o funcionamento da companhia, com mais de uma dezena de funcionários.

A preocupação dos responsáveis, porém, foi não dececionar o público. Consideraram por isso que não havia condições para continuar a apresentar espetáculos, mantendo o nível a que habituaram os espetadores.

Molière, Bertolt Brecht, Pierre Marivaux, Sófocles, Plauto, Séneca, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Shakespeare, Corneille, Hölderlin, Schiller, Strindberg, Ibsen, Tchekov, Pirandello, Horváth, Georg Büchner, Karl Valentin, Dario Fo, Heiner Müller, Botho Strauss, Lorca, Igor Stravinsky, William Walton, Hans Werner Henze, Samuel Beckett, Joe Orton, Georg Buchner, Peter Handke, Georges Jean Genet, Gertrude Stein, Stig Dagerman, Heinrich von Kleist, Pasolini, R.W. Fassbinder, Christian Gil Vicente, Luís de Camões, Francisco de Holanda, António José da Silva, Almeida Garrett, Raul Brandão, Fiama Hasse Pais Brandão, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eduarda Dionísio foram alguns dos autores interpretados pela Cornucópia, ao longo de mais de 40 anos.

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