O rei Edward VIII — irmão de George VI, pai de Elizabeth II — viu-se obrigado a abdicar em 1936, poucos meses depois de chegar ao trono, para se casar com Wallis Simpson, uma decisão que teve um impacto profundo na estabilidade nacional nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial.

A sombra de 1936 é difícil de ignorar. O casamento de Markle e Harry celebra-se hoje na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, a mesma onde aconteceram os funerais de Edward (1972) e Wallis (1986).

Aquela que foi a duquesa de Windsor está enterrada junto ao seu marido no cemitério real de Frogmore House, a mansão na qual Harry e Meghan farão uma recepção na noite do seu casamento.

Para o escritor especialista na monarquia Andrew Morton, o breve rei Edward VIII deve estar "a revirar-se no túmulo" perante este matrimónio. Em circunstância similares, o seu custou a coroa. Um alto preço a pagar pelo amor.

Edward e Wallis "teriam ficado atónitos com a transformação da monarquia britânica nos últimos 80 anos", diz o especialista, salientando porém que Meghan e Wallis são muito diferentes. "A família de Wallis teve escravos, ao invés de terem sido escravos", disse Morton à AFP, fazendo referência desta forma aos antepassados maternos de Markle.

Uma recepção glacial

O poder de Wallis sobre Edward inquietou profundamente a família real. A mulher da alta sociedade de Baltimore era considerada inaceitável como rainha de todos os pontos de vista, desde o social e moral, ao religioso.

Se Edward se tivesse se casado com Wallis, desconsiderando o conselho do primeiro-ministro, o governo seria obrigado a demiti-lo e teria sido aberta uma crise constitucional.

No entanto, Edward acabaria por abdicar, e os dois casaram-se num castelo de França, em 1937. No mesmo ano, a sua visita à Alemanha nazi e o seu encontro com Adolf Hitler causaram ainda mais inquietação e alimentaram a ideia de que simpatizavam com aquele regime, algo inaceitável.

Longe de Buckingham, Wallis e Edward viveram a sua vida nos arredores de Paris, animada pelas festas com amigos milionários, um género de aposentadoria dourada. As relações com a família real nunca foram completamente recuperadas, e as visitas ao Reino Unido foram escassas.

A resposta da monarquia à abdicação de Edward ajudou a moldar essa instituição. Onde muitos viam uma história de amor, a família real considerou a abdicação um gesto egoísta e uma forma de Edward fugir às suas responsabilidades.

O seu sucessor, o rei George VI, procurou que a monarquia fosse o total oposto, um trabalho a tempo inteiro, uma filosofia herdada pela sua filha, a atual rainha, Elizabeth II, de 92 anos, para quem a palavra "abdicação" é um insulto.

Aos 36 anos, Markle já sabe o que é o serviço público, pois foi embaixadora da ONU para os direitos das mulheres e embaixadora da agência de cooperação internacional canadiana, além de ter feito um estágio na embaixada americana em Buenos Aires. "Podia ter sido diplomata, política, advogada", diz Morton. "Sem dúvidas, Meghan está preparada para a família real. Demonstrou isso".

Era de mudanças

A sociedade britânica mudou muito desde os tempos de Simpson. De facto, três dos quatro filhos da rainha se divorciaram, incluindo o pai de Harry, o príncipe Charles, de Diana de Gales.

A aristocracia é agora menos pretensiosa com os americanos e mais propensa a casar-se fora da sua classe.

"A enorme mudança nas atitudes sociais que ocorreram nas últimas décadas viu-se refletida no entusiasmo com o qual foi recebida a notícia do noivado de Harry e Meghan", constatou o comentador de temas da monarquia Richard Fitzwilliams ao jornal Daily Express.

O casamento do príncipe Harry, sexto na linha de sucessão ao trono britânico, e da norte-americana Meghan Markle, realiza-se hoje na capela de Saint-George, no castelo de Windsor, a oeste de Londres.

A cerimónia religiosa está prevista começar às 12:00 locais (mesma hora em Lisboa) e será conduzida pelo deão de Windsor, o reverendo David Conner. Será, no entanto, o arcebispo da Cantuária, Justin Welby, a oficializar a união entre Harry, de 33 anos, e Meghan Markle, de 36 anos.

Uma hora depois, está previsto que os recém-casados deixem a capela numa carruagem e integrem um cortejo que irá percorrer algumas ruas de Windsor, retomando depois para o castelo.

A pitoresca cidade de Windsor, localizada a cerca de 30 quilómetros a oeste da capital britânica e conhecida por ser a residência de fim de semana da rainha Elizabeth II, transformou-se nos últimos dias numa autêntica fortaleza.

O casamento real, por muitos considerado como um dos eventos do ano, deverá atrair para Windsor mais de 100 mil pessoas do mundo inteiro, segundo indicou a polícia local em finais de março. Perante tal cenário, o dispositivo de segurança nesta cidade com pouco mais de 300 mil habitantes está a ser preparado há vários meses.

O novo casal real, que viverá numa casa campestre situada nos terrenos do palácio de Kensington, em Londres, comprometeu-se após mais de um ano de namoro.

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