Exótico, extravagante, ele próprio. Ney Matogrosso é a metamorfose ambulante, roubando a frase a Raul Seixas. Dos Secos & Molhados, grupo que integrou no início da década de 70, a uma carreira ímpar a solo, tem sido um "vira lata de raça" — roubando, agora, a referência ao tema de Rita Lee que dá título ao livro de memórias que editou no ano passado.

A Rolling Stone Brasil considerou-o, em 2012, como a terceira voz mais importante no país. Ele que já cantou tantas vozes brasileiras. De Chico a Cartola.

É essa diversidade de repertório que compõe o novo espetáculo, "Bloco na Rua", que o trará novamente a Portugal para três datas nos Coliseus; a 3 de novembro, no Porto, e a 5 e 6 de novembro, em Lisboa. Um espetáculo com um repertório de luxo, com temas de várias épocas e de vários compositores. Desenhado quando ainda "não existia Bolsonaro no panorama" e que hoje pode soar a provocador "porque o Brasil mudou".

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

O nome do espetáculo alude a um tema de Sérgio Sampaio, "Bloco na Rua".  Essa escolha é uma provocação ou uma mensagem que quer passar?

A música foi feita nos anos 70 e tinha uma conotação política. Eu não me fixei nessa conotação política. Acho que "Bloco na Rua" indica alguma coisa em movimento, chegando... E o show é isso mesmo. Ele abre dizendo isso 'quero botar o meu bloco na rua' e aí eu mostro tudo o que me interessa. Uso as músicas dessa maneira; ela tinha um sentido nos anos 70, mas pode ter o mesmo sentido ainda hoje em dia, infelizmente. Mas não é o meu foco.

Perguntava-lhe porque já o vi responder que fez o espetáculo para determinado momento do Brasil. 

Pois é, mas eu preparei este show quando estava no terceiro ano da tour do "Atento aos Cenários", show que fiz durante cinco anos. Comecei a imaginar um próximo trabalho e fiz este roteiro. Não existia Bolsonaro no panorama, não existia nenhum destes políticos que estão aqui no panorama. Não fiz nem pensando nisso, agora ele soa como provocador porque o Brasil mudou. Mas eu não o fiz preocupado com ninguém, fiz porque me interessava falar estas coisas. Por exemplo, botei o [tema] "Tem Gente com Fome" porque é uma realidade do Brasil. Uma pessoa que viva com 70 reais por mês, passa fome. 

E essa é a realidade do Brasil de hoje?

Sim, estamos a viver um momento muito estranho. Muito baixo astral, com um pensamento atrasado no ar. Tosco. 

E é transversal a toda a sociedade?

Transversal a todo o país. Claro que não estou dizendo que toda a gente pensa de uma maneira tosca, mas o comando é tosco.

"Bloco na Rua" tem no seu alinhamento repertório de outros músicos. Como fez a seleção, qual foi o critério?

O critério era cantar só o que eu gostasse.

E de amigos?

Conhecer os compositores dessas músicas não era uma condição, embora eu conheça todos. São músicas de várias épocas e de vários compositores.

Que memórias tem dos concertos em Portugal?

A melhor de todas. Portugal é o único país a que faço questão de ir. Já fui várias vezes à Europa, mas não faço questão... Estou indo agora a Londres porque também não posso estar a dizer que não o tempo todo. Porque sabe, o que eu canto, a palavra é muito importante. Então eu vou para Portugal tranquilo porque sei que me entenderão, o que digo e o meu pensamento. Coisa que não sei se na Inglaterra vai acontecer. 

Porquê?

Porque é tudo escolhido, eu escolho tudo o que quero dizer. E com isso eu vou formando um pensamento e colocando-o diante do público. O meu lado exótico pode ser atraente. Mas pode ser ainda mais atraente quando compreendem o que estou dizendo. 

Recordo-me de uma frase sua que dizia "eu sou o discurso, por isso não preciso fazer um". É por aí?

É. Porque na verdade, quando estou num palco, estou falando sobre coisas em que acredito. Então não preciso ficar fazendo discurso, tendo palanque. Palco para mim não é palanque. Palco é palco, é outra coisa.

Voltando ao alinhamento de "Bloco na Rua", ele terá temas de Chico Buarque, o vencedor do Prémio Camões 2019. Que comentário faz à promessa de Bolsonaro em não assinar o diploma?

[ri-se]. O Chico já respondeu, né? Não muda nada, absolutamente nada. Imagina, Chico Buarque é Chico Buarque, não tem para ninguém.

Existe mais preconceito hoje no Brasil do que na época em que surgiram os Secos e Molhados?

Existe um preconceito descarado. Porque o preconceito no Brasil sempre foi velado, sempre foi oculto. As pessoas tinham vergonha de declarar. Agora não, agora é tudo explícito. De uma maneira chocante. Falando no meu caso, os direitos adquiridos foram à custa da minha exposição e do meu suor físico. Então eu não tenho que voltar atrás em nada. Direito adquirido é direito adquirido. Não foi ninguém que me ofereceu, nenhum governo me ofereceu. Continuo a expressar-me com total liberdade.

Em que fase da sua vida deixou de ter medo de dizer ou fazer alguma coisa?

Deixei de ter medo muito cedo, porque meu pai era um tirano e eu durante a infância tinha muito medo dele. Um dia disse-lhe: 'eu não te respeito, eu tenho medo de você, mas medo passa". E passou. 

Estava a ver uma entrevista sua, no YouTube, e alguém comentou que falava do seu pai em todas. A história e a relação com o seu pai têm um peso tão grande na sua vida que faz com que, apesar de já muito ter falado sobre isso, continue a abordá-lo?

Muita gente vive essa situação e quero que as pessoas entendam que todos nós estamos sujeitos a isso. É não se dobrar, não se submeter. Porque cada um tem o direito à sua própria vida. Agora tem uma coisa, que faço questão de sempre falar. Tive um tempo de reencontro e de um afeto com o meu pai, então não o coloco como um demónio na minha vida. Acho que sou quem eu sou porque me rebelei a quem ele era. Ele prestou um papel excecional na minha vida e representou uma coisa que me transformou no que eu sou. E eu gosto de ser quem sou, sou feliz com o resultado. 

E outra coisa, parece que tenho rancor. Eu não tenho rancor nenhum de mais nada na minha vida. Antigamente eu pensava nas críticas negativas, nas coisas ruins que me tinham acontecido, nas pessoas que me tinham traído. A sensação era como se tivesse anzóis nas minhas costas me puxando para trás. Aí um dia disse assim: 'anzol nas minhas costas, fora! Sai fora da minha vida'. Determinei isso naquele momento. Hoje em dia posso falar sobre todas as coisas que antigamente me prendiam e me puxavam. Agora nada mais me puxa. Não tenho raiva de ninguém. Não quero guardar esses maus sentimentos dentro de mim, quero caminhar livre. 

O Ney, como o nome indica, é de Mato Grosso. A sua avó era paraguaia e falava guarani, e o seu avô argentino…

... e o avô da minha avó era índio.

Era esse o tema que queria trazer à conversa. Como é que vê os recentes, e cada vez mais constantes, pedidos de ajuda à comunidade internacional por parte dos povos indígenas, nomeadamente da comunidade guarani? 

O comentário é o mais triste possível, quando o Presidente da República fala que se o Brasil tivesse feito como a América, que dizimou várias nações indígenas, não estaríamos passando o que estamos passando hoje, com os índios exigindo os seus direitos e terras... Exigências que têm de ser respeitadas.

Este não é um assunto novo, já em 2017 tinha feito uma canção, conjuntamente com outros artistas, de alerta para o tema da demarcação de terras. O que hoje falamos é de uma questão de sobrevivência destes povos?

Sim, sim. Porque o pensamento que comanda o Brasil é esse, de que índio não vale nada, que árvore não vale nada. Mas sem árvores acabamos sem vida na terra. Não estamos a falar de meia dúzia de árvores, estamos a falar da Amazónia. 

E o Brasil está a sofrer um ataque violento em matéria de ambiente?

O tempo todo... de madeireiros e do agronegócio. Tudo isso está querendo entrar na Amazónia. Para gerar comida? Até quando? 

Numa rápida pesquisa no Google, dei com dois títulos que me levaram a esboçar um sorriso. "Ney Matogrosso mostra boa forma a malhar" e "Aos 78 anos, esbanja boa forma em treino". Percebi que as notícias diziam respeito a uma publicação sua no Instagram, de um vídeo a fazer exercício. Por isso pergunto, como é que a relação com o seu corpo mudou ao longo dos anos? Houve uma altura em que sentia vergonha no seu corpo?

Quando eu era criança, adolescente. Quando fui para o quartel e tinha de tomar banho nu na frente de todo o mundo tive de acabar com isso. Senão iria virar chacota. Eu achava que era muito feio, tinha vergonha das mãos, dos pés. Não trocava de camisa na frente de ninguém, era tudo problemático. Eu me achava horroroso. Tudo eu achava feio em mim.

Quando tive de ficar nu na frente de quarenta homens e ninguém via o monstro que eu via... isso é, será que não existe esse monstro que eu imagino? Então comecei a fazer as pazes com o meu corpo. Até que chegou os Secos e Molhados em que era uma exposição absoluta, né? A partir do momento que cobri o meu rosto... não sabia que aquilo existia dentro de mim, aquela força de expressão. Não sabia. Fui saber praticando. E no momento em que escondi o rosto, quando perdi a identidade, de certa forma, uma coisa jorrou de dentro de mim que eu também não sabia que existia. Tanto que na época de Secos e Molhados via fotos minhas e dizia que aquele não era eu.

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