Isto agora é quase só para acertar os detalhes: afinar o caudal do oceano, enfeitar o terror de um choro, barbear o rosto de um bárbaro. Na véspera da estreia mundial de “O Cheiro dos Velhos”, o pequeno auditório do Rivoli, no centro do Porto, é grande para a plateia de cadeiras vazias. O palco, esse, vai cheio.

Esta é a história de um funcionário público que molha os pés numa praia calma, tranquila e deserta, quando é surpreendido por uma velha mendiga cadavérica, desdentada e cheirando a álcool, que se apoderou dos sapatos lustrosos deste servo do Estado. “À respeitosa cordialidade com que procura recuperar o bem, a velha retribui com indecifrável postura, que progride da obstinação rabugenta à sádica malvadez. À perplexidade do homem, ante o que atribui à crueldade gratuita de uma desconhecida, opõe-se a determinação da velha em forçar uma ‘confissão sincera’ de uma ofensa anterior”.

Assim conta a sinopse, mas na récita cabem mais coisas. Cabe o jogo entre atores e espectadores; entre personagens e descodificadores, esses que — amanhã — hão de encher (a uns sanitários 50%) as cadeiras disponíveis.

Ouça a reportagem:

Apresentado no Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP), este espetáculo vem de Cabo Verde, pelas mãos do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo e do Teatro de Marionetas do Porto, do Teatro Municipal do Porto e do próprio FIMP.

O texto é de Caplan Neves, que acabou a interpretar Osvaldo Pio, esse funcionário público incrédulo, vestido de vaidade putrefacta a tapar-lhe os sádicos prazeres. Janaina Alves estreia-se a dar vida à velha mendiga cadavérica, desdentada e cheirando a álcool e Lisa Reis narra o conto, encenado por João Branco, filho de Isabel Alves Costa e José Mário Branco.

Caplan é um dramaturgo cabo-verdiano. Mas não é apenas isso: é professor e psicólogo. Porque em Cabo Verde ninguém é só uma coisa e ele é estas. Janaina, brasileira, está há uma década em Cabo Verde. Gere a Academia Livre das Artes Integradas do Mindelo, mas não foi isso que a preparou para dar vida às marionetas feitas em Portugal. O treino foi feito à distância pandémica que separa as ilhas do Porto, com instruções por vídeo. Lisa Reis, que canta e conta, veio para o Norte de Portugal estudar isto mesmo: o teatro.

Em Cabo Verde, estão no Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, estrutura fundada em 18 de fevereiro de 1993, que com esta peça estreia a sua 60.ª produção.

“O Grupo vem imprimindo uma dinâmica teatral em S. Vicente, Cabo Verde, sem precedentes, apresentando peças que vão desde originais, à encenação de autores nacionais consagrados como Arménio Vieira, Germano Almeida, Aurélio Gonçalves, Eugénio Tavares, Caplan Neves ou Mário Lúcio Sousa, passando pela adaptação de autores da dramaturgia universal, tendo sido o primeiro grupo a encenar em crioulo autores como Shakespeare, Lorca, Molière, Wilde ou Beckett”, conta a organização do festival portuense.

“Divide a sua atividade entre a produção cénica e a formação, tendo dado origem a um elevado número de novos atores, já considerados unanimemente como a nova geração de atores do teatro cabo-verdiano”.

A peça é apresentada na convivência do homem de sangue e da mulher objeto. Metáfora e realidade, que nesta peça de duas personagens, uma é feita de carne e aço, a outra de matéria sólida e estática, animada pela vontade alheia. E esta simbiose, para lá de simples dispositivo cénico, desempenha ações narrativas (não previstas no texto de Caplan), permitindo abrir caminho ao fosso entre o poder do homem e a fragilidade da mulher que ele, sem roupa e armado de correntes, viola.

“O Cheiro dos Velhos” é um quadro duro. Uma amostra suja do degredo humano, escancarado em dilemas, que confrontam o espectador com o dilema de vingar ou salvar. Parodiando a dor e o sofrimento, a narradora entusiasma-se com o sofrimento das personagens, como sensacionalista jornal que transcreve cada gota do suor asqueroso dos seres obscuros de um crime.

E serve tudo isto para terminar num dilema: deixar morrer um homem nas chamas por ter pena de um boneco.

O FIMP'20 termina este domingo, entre o Porto e Matosinhos.

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