East Kilbride, cidade pacata situada a 13km de Glasgow, não parece ser o melhor lugar onde se crescer. Qualquer jovem suburbano, escocês ou não, saberá o quão entediante pode ser morar numa localidade próxima de um grande centro urbano, sem que no entanto este escoe alguma da sua movida para as áreas circundantes; resumidamente, estas são o tipo de cidades-hotel cujo único propósito é oferecer a quem lá mora uma cama numa casa a uma renda ligeiramente mais acessível – a vida, essa, vive-se no centro, nas capitais, nos centros comerciais e estádios de futebol gigantes e discotecas e pubs.

Este tédio, esta náusea sartriana, não poderá senão despertar nos jovens uma curiosidade monstra pelo que se passa noutros cantos do mundo, acirrar-lhes o bichinho das artes, literatura, cinema e música. Assim como acontece com tantos jovens em tantos subúrbios, aconteceu com os irmãos Reid, Jim e William, nascidos e criados em East Kilbride. O tédio dos Reid foi a faísca necessária à formação de uma das bandas que marcou o rock alternativo dos anos 80 – mesmo que eles próprios, por quererem mais da vida que um quarto e roupa limpa, nunca quisessem ser “alternativos”. Na verdade, sempre se quiseram enfiar no restrito grupo do estrelato pop, e sempre à sua maneira, não dando quartel a quem quer que fosse.

Se East Kilbride foi a faísca, o punk foi a chama. E desse incêndio nasceu a ideia: uma música que pudesse juntar, ao mesmo tempo, as melodias mais dóceis dos girl groups dos anos 60 e o lado mais selvagem e poluto do rock n' roll, conforme tatuado pelos Velvet Underground e Stooges. Chegamos então a Psychocandy, álbum que foi um verdadeiro ponto de viragem: nunca ninguém tinha feito canções assim, açucaradas como o mel e perigosas como um shot de nitroglicerina. Lançado em 1985, foi ponto de partida e modelo para muito do rock que se ouviria a partir de então, originando um género que procurou emulá-lo – o shoegaze – e apontando o caminho a todos os jovens como os Reid, que amavam o rock n' roll e detestavam a alienação a que pareciam estar sujeitos.

Isto para dizer que não há assim muitas bandas que mereçam o respeito dos melómanos como os Jesus And Mary Chain, pioneiros na arte da canção pop cujo propósito é rasgar-nos os ouvidos. Mesmo que, meros dois anos depois de Psychocandy, tenham optado por cortar com o seu passado abrasivo e criar um conjunto de canções – Darklands – tão dóceis quanto negras. É este álbum, e não Psychocandy, que origina muito do culto em torno dos Jesus And Mary Chain, sobretudo entre a subcultura gótica. E foram as canções deste álbum, “April Skies” e a própria “Darklands” à cabeça, que mereceram os aplausos mais sentidos e efusivos desta noite no Coliseu, a primeira dos Jesus And Mary Chain em nome próprio em Portugal, após o seu regresso à música, em 2007.

Antes disso, houve um concerto desapontante no Super Bock Super Rock, no mesmo ano do regresso, a celebração dos 30 anos de Psychocandy, no NOS Alive, em 2015, e a apresentação do seu novo disco, Damage And Joy, no EDP Vilar de Mouros, o ano passado. Chegamos ao fim deste espetáculo no Coliseu e ficamos com a ideia de que todos esses concertos foram meros degraus na escadaria que os Jesus And Mary Chain tiveram de voltar a subir, após as zangas entre irmãos terem chegado a um ponto de não retorno, no final dos anos 90. Esta noite, mostraram-se mais coesos, mais definidos, como se o passado não existisse e o futuro estivesse já aqui ao lado – dependendo da velocidade a que se vai. Sendo que o que eles tocam, como qualquer fã bem saberá, é o som da própria velocidade.

Com um simples «olá, boa noite» de Jim Reid, perante uma sala cheia q.b., tanto de fãs da velha guarda – e vestidos a rigor – como de adeptos mais jovens da mistura musical dos irmãos escoceses – que emularam, quase na perfeição, o visual dos Jesus And Mary Chain circa 1985 –, teve início um concerto que promete deixar boas e vastas memórias entre aqueles que a ele assistiram. Ou, pelo menos, não os desiludir ao ponto da depressão. Logo a abrir, “Amputation”, uma das canções novas, “April Skies” e “Head On” deram o mote para aquilo que se seguiria: uma fantasia de pouca luz e pouca cor – apenas a necessária a perturbar-nos os sentidos, strobes cegando o infinito, enquanto o ruído emanava perverso das colunas e a um nível aceitável.

“Aceitável”, porque quem conhece a sua discografia de trás para a frente e tiver a coragem de se aproximar o mais possível do palco ficará, quase sempre, a desejar ter saído dali com os ouvidos a sangrar. Mas compreende-se. Os Jesus And Mary Chain já não são nem querem ser os putos que eram em 1985, quando meia Inglaterra olhava para eles com o mesmo desdém com o qual olhou os Sex Pistols (e a sua reputação, à altura, era caso disso: raro era o concerto dos Reid que não acabava em pancadaria). Estão mais maduros, mais velhos, e souberam reinventar-se sem perder a matriz de coolness – rock n' roll, miúdas, carros, drogas e Ray-Bans – que sempre os caracterizou.

Ainda assim, o final de “Some Candy Talking”, uma muralha de som extraordinária a fazer relembrar os bons velhos tempos, há-de ter deixado um sorriso no rosto de muitos dos psicopatas fofinhos que constituem o clube de fãs dos Mary Chain. Não o primeiro, contudo; deu para sorrir com os coros ternurentos de “Far Gone And Out”, com a magia de “Snakedriver” e com “All Things Pass”, a primeira canção que lançaram após o regresso. O maior dos sorrisos, no entanto, partiu do próprio Jim Reid, quando se embeveceu ao mirar, junto às grades, uma criança com não mais de cinco anos de idade...

Para o final estava reservada “Reverence”, provavelmente a canção mais “americana” que os Jesus And Mary Chain já escreveram: caótica, niilista, com sede de morte, menções a Cristo e a John F. Kennedy, e as três maiores notas da história do rock (sol, fá sustenido, mi - “I Wanna Be Your Dog”, dos Stooges) a erguê-la. Isto, antes de um pré-programado encore de cinco canções onde foi possível escutar “Just Like Honey”, canção que deu a conhecer os escoceses aos seus fãs mais novos, após a inclusão em Lost In Translation (2003), a magnífica “In A Hole” e o delírio maquiavélico de “I Hate Rock N' Roll”, diatribe anti-indústria que mais soa à Criatura revoltando-se contra o seu Criador. E a certeza de que os Jesus And Mary Chain, mais de três décadas depois, continuam perfeitamente imaculados. Abençoemo-los, pois.

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