Está à vista que apostas como o Walk&Talk, Tremor, Jardim Sagres Fest e o novato Paralelo, trazem dinâmica, pessoas novas e imprimem não só em Ponta Delgada — enquanto centro das atividades destes festivais de arte —, mas um pouco por toda a ilha, uma maior permeabilidade à experimentação e usufruto demais do que a paisagem que nos caracteriza e o mar que nos rodeia. Certo que recebemos mais gente por estas bandas, mas nem tudo se resume à quantidade.

Há mais espaços noturnos, há mais restauração, há um fervilhar que se sente, mas há muito a melhorar. Nem sempre o atendimento ao público é o melhor, os horários estão desajustados e, mesmo que a baixa de Ponta Delgada já dê sinais de recuperação, o caminho a percorrer é longo. Há, também, mais oferta cultural, quer em programação quer em equipamentos culturais. Vejamos o caso do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, a galeria Miolo, em Ponta Delgada, outros tantos a nascer e todos os que estão por chegar. É preciso pensar todas essas atividades e lugares de forma abrangente e não só para quem nos visita. O que se faz por cá, com dinheiros de cá, também deve ser para os locais.

Não é uma tarefa fácil porque somos, em grande maioria, um público por educar, com capital cultural reduzido e agarrado às tradições e costumes. Mais do que criar infraestruturas é preciso investir na educação cívica e cultural das pessoas. Há quem queira partir do topo esquecendo que para todas as coisas é necessário que haja uma base sólida, que consiga albergar mais sem corrermos o risco de ser sol de pouca dura. E como é que se faz isso? Aqui poderíamos divagar entre teorias e soluções, muitas vezes utópicas, sobre estes diversos temas. O essencial, parece-me, é que se invista nas pessoas. Investir nas pessoas não significa dar-lhes tudo o que elas querem, nem assumir prepotentemente o que é que elas querem, mas sim perceber o que faz falta, como faz falta e de que forma podemos chegar até elas, fazendo-as sentir parte de um todo. Investir na educação não formal é um ponto de partida. É uma possibilidade para dotarmos as pessoas de maior conhecimento, experimentação, valorização cívica e cultural. Há que habitar espaços, misturar pessoas e acarinha-las.

créditos: Alvaro Miranda | Walk

As instituições e manifestações culturais, sejam elas de cariz mais popular ou mais contemporâneo, são responsáveis pelo sentimento de pertença de uma comunidade. É através da experiência vivenciada que desenvolvemos sentido estético, sentido crítico, bem como o ser e pertencer a algo. Os equipamentos culturais devem ser espelho da mudança, da atualidade e da dinâmica que as sociedades, onde estes se inserem, representam. Há que reinventar o que já foi feito, há que impulsionar a inovação, beber da tradição para construir pontes de ligação entre a comunidade local, a comunidade artística e quem nos visita.

Não podemos, de forma alguma, atirar em todas as direções para ver o que é que cola. Isto não só representa um despesismo, por vezes insultuoso, mas um desnorte no que toca a uma política cultural para a nossa terra. Tal como já referi, há exemplos de boas práticas, espaço para melhorar e já há quem tente. São iniciativas independentes, com financiamento público, que precisam de fazer mais por quem, efetivamente, está a pagar todos esses acontecimentos. Cada vez mais, o produto regional tem de ser valorizado. Não em subsídios, mas estímulos à criação e circulação. É preciso afirmar esta região como uma zona criativa com capacidade de exportação. Vivemos num verdadeiro cenário inspirador, temos a capacidade de criar, mas não conseguimos sair, circular, maturar as criações. Não há vontade política em potenciar o que já se faz bem e desafiar outros a fazer melhor.

Em época de eleições, e durante os largos meses que as antecedem, como em todo o lado, fazem-se promessas. Há esperança a pairar, mais festa, mais animação, mais tudo, menos o essencial: medidas e projetos a longo prazo. Por aqui, quase tudo é efémero. Faz-se porque sim, em prol de uma falsa satisfação nublada por tanta oferta e dinamismo. Confunde-se cultura com entretenimento e animação turística. Vende-se gato por lebre, desvirtuam-se eventos, outrora grandes, pelo simples facto de se poder afirmar o aumento do número de participantes e o clássico “o meu é maior que o teu”.

O investimento nos “mega eventos” sugam orçamentos e deixam todos os outros, menos vocacionados para as grandes massas, sufocados a renegociar cachets e a trabalhar quase gratuitamente para terem mais um pouco de oxigénio.

É a política da quantidade que vigora. Bem ou mal feito, não interessa. Hipotecam o próprio futuro das autarquias para darem o melhor “show” possível. Mas o que é que fica para as pessoas e sítios? Quais os benefícios, mais que temporários e económicos, para o crescimento das cidades? Percebe-se claramente a euforia despesista que põe em causa os próximos tempos.

É difícil ler os diversos programas eleitorais, das diferentes câmaras da ilha, e perceber que em grande maioria as medidas culturais ou não existem ou estão misturados com o turismo, lazer e desporto. Não merecem sequer um destaque, um reforço. Torna-se impossível exigir das pessoas o que os próprios candidatos autárquicos fazem questão de ignorar.

Agora que se aproxima a hora de votar, votem com consciência. Não se iludam pelas luzes e brilhos. Olhem com olhos de ver. É um direito, é um dever e no fundo está mesmo nas nossas mãos essa possibilidade de mudar ou continuar, crescer ou parar.

André Melo é artista e produtor cultural em São Miguel. É, também, formador e dedica grande parte da sua atividade a projetos de serviço educativo, programas de conhecimento e à produção de espetáculos de artes performativas.

A Minha Terra é uma rubrica especial do SAPO 24 em que várias pessoas são convidadas a falar da sua terra, "à boleia" das eleições autárquicas do próximo dia 1 de outubro de 2017.

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