Todos os anos, por todo o mundo, dezenas de investigadores de diversas universidades elaboram estudos acerca do impacto que a música tem nos nossos cérebros – seja em relação ao nosso bem-estar geral, seja mais específico, como no caso concreto dos cirurgiões. Vemos os Tame Impala a subir ao palco após um vídeo de caráter “médico”, que serve para apresentar a sua nova digressão, e de imediato nos recordamos desses trabalhos académicos que nos ajudam não só a compreender a música como, de facto, a amá-la ainda mais. “The Slow Rush”: é este o nome da digressão, também o nome do último trabalho do projeto de Kevin Parker, um oxímoro construído à base de luz, cor e muita, muita melodia.

Parker, australiano que se tornou já num dos grandes nomes da pop atual, não só pelo seu trabalho nos Tame Impala como pelas suas colaborações com gigantes como Mark Ronson, Lady Gaga ou Kanye West, é uma verdadeira caixinha de música. As melodias que guarda na cabeça e que lhe saem dos dedos, mais que grudar, fascinam de um estranho modo infantil: ouvimos as suas canções e percorre-nos uma daquelas sensações que guardamos para toda a vida, como a primeira vez que testemunhamos um fogo-de-artifício ou a primeira vez que as borbulhas da Coca-Cola nos picam a língua. É escutar 'Borderline', vê-la em cima de um palco onde as luzes iluminam aquela dança lenta, quase mágica. Quase como que sinestesia: há um som que se vê e ao qual associamos uma cor. No caso dos Tame Impala, uma palete inteira.

Nem sempre foi assim: “Innespeaker”, o primeiro disco dos Tame Impala, era sobretudo um conjunto de (bom) rock psicadélico que entretanto foi tomando a forma de um pop/rock incrivelmente dançável, com a apoteose a ser atingida em “Lonerism”, a “casa” para temas já parte do imaginário de um certo coletivo como 'Feels Like We Only Go Backwards' (que, diga-se, soa ainda melhor na sua versão cumbia). Ouvimo-la esta noite, já perto do fim do concerto, onde 'Elephant' – glitter beat debaixo de riff rockeiro – e 'Let It Happen' – bola de espelhos sem pudor – foram dois dos maiores destaques, para além da boa-disposição de Kevin Parker.

A dada altura, o australiano tece enormes elogios ao festival, onde se estreou este ano, depois de passagens pelo Meco, Algés ou Paredes de Coura, revelando já ter vivido bons momentos na Praia de Matosinhos; mais tarde, gritaria o grande slogan da noite, rotulando uma conhecida marca de cerveja de «o sabor de Portugal» (perante a gritaria óbvia de mão direita é penalty). Pelo meio ficou na memória o final apoteótico de 'Apocalypse Dreams', com o disco de luz que se pendurava sobre as cabeças do grupo a descer, qual OVNI, para nos abduzir a todos, os confettis lançados por duas vezes e um encore que terminou com 'New Person, Same Old Mistakes', em modo slow, quando talvez se impusesse algo mais mexido. Mas aí não faria jus à digressão. Sexto concerto dos Tame Impala em Portugal, sexta vitória para Kevin Parker.

NOS Primavera Sound: Nick Cave quis a chuva. Teve lágrimas
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Essa vitória merece ainda mais destaque, tendo em conta que competir com o conterrâneo Nick Cave não se afigurava tarefa nada fácil. Alvo da grande enchente do dia, Cave não desiludiu quem marcou presença no NOS Primavera Sound para, uma vez mais, encarar a forma como o músico parece querer expiar qualquer coisa que existe dentro da sua alma e que só ele parece saber o que é, vislumbres da qual o grande público só consegue obter através dos jornais. Em 2018, aquando da sua última presença no festival, vimo-lo pedir por chuva quando pouco antes havíamos chorado com ele a morte do filho Arthur; há um mês, o pai Cave voltou a passar pela maior tragédia imaginável, com a morte do seu filho mais velho, Jethro Lazenby.

Sem que nos seja possível quantificar ou compreender tal dor, por mais esforços mentais que possamos fazer – a nossa perceção estará sempre errada, mesmo que o definamos como “tragédia” –, sabemos isto: para Nick Cave o palco é uma forma, não de esquecer, mas de desafiar. Se é Deus ou o destino o seu grande adversário, só as suas crenças o poderão dizer. O aliado é, claro está, o público, em cima do qual se empoleira sempre que pode, desfazendo-se em agradecimentos e demonstrações de afeto. Com «o povo português» no coração e na memória, Cave mostrou uma energia rara num dos maiores clássicos dos Bad Seeds ('From Her to Eternity'), ao lado de um Warren Ellis possesso, numa daquelas performances que nos faz querer arrancar a pele e juntarmo-nos a ele na danação.

'O Children', dedicada «às crianças» (em bom português), refreou ligeiramente os ânimos, trazendo de novo a melancolia e as lágrimas, sobretudo em 'I Need You': Nothing really matters when the one you love is gone... tanto se pode referir a uma mulher como a um familiar, e os murmúrios no final transformaram-na numa espécie de oração católica. 'Tupelo', tema que é sempre de cortar à faca, antecedeu o entusiasmo com que a plateia recebeu 'Red Right Hand' (que beneficiou, e muito, da sua inclusão em “Peaky Blinders”) e o crescendo de 'The Mercy Seat'. Até que no encore há espaço para 'Into My Arms', só Cave e um piano, e o abraço que nos sentimos obrigar a dar à nossa cara-metade. 'Vortex', dedicada «a toda a gente», e 'Ghosteen Speaks', com aquele I am beside you... repetido até ao infinito, colocaram um ponto final num concerto que nos ecrãs de palco foi visto a preto e branco, mas que acabou no vermelho de um coração que bate: o de todos os que ainda têm a sorte de o ver ao vivo.

Sem vermelho mas sempre a preto e branco, por sua própria imposição, os Cigarettes After Sex contaram com uma fatia considerável de público durante o seu espetáculo no Palco Cupra, junto à entrada do recinto. A fórmula de todas as suas canções é extremamente simples: um par de notas tocadas no baixo, uma bateria lenta, e uma melodia elétrica com o reverb necessário, espécie de AC/DC das dores românticas. A simplicidade, no seu caso, é também extremamente eficaz, como o provam as dezenas de gritos femininos que se iam escutando de cada vez que Greg Gonzalez, o mentor do projeto, se ia aproximando da borda do palco com a sua guitarra. Esta é uma pop extremamente ténue, como uma casa na escuridão, e que garantidamente não agrada a todos; os que a adoram ouvem 'K.' e choram por aquilo que já tiveram e não podem voltar a ter. Também há quem precise das suas dores pessoais como catarse.

Depois dos Sonic Youth e do divórcio de Thurston Moore, Kim Gordon encontrou a sua própria catarse nos Body/Head. E, depois dos Body/Head, encontrou-a a solo: editou dois discos em nome próprio, “No Home Record” (2019) e “At Issue” (2022), continuou a ser um ícone feminino e feminista, e não deixou que os seus 69 anos lhe tirassem qualquer genica. As mulheres sonham ser como Kim Gordon; os homens sonham que as suas mulheres sejam como Kim Gordon. Se no início era o feedback, depressa somos levamos pelo cruzamento das guitarras com batida meio hip-hop, antes de 'Airbnb', canção anti-gentrificação que cai como uma bomba punk no Palco Binance (sendo que a coisa mais punk que Gordon disse num palco com nome de corretora de criptomoeda foi, e citamos, «morte ao capitalismo»).

Do rock sujo e cru passamos para algo dançável, como os Contortions, na mesma Nova Iorque onde os Sonic Youth se fizeram, eram dançáveis. E, depois disso, passamos para o ódio puro e duro por, tantas edições depois, ainda não se conseguir fazer com que o som do Palco Super Bock não esbarre com o deste palco – Sky Ferreira quase que arruinou um final de vanguarda, com as cordas da guitarra de Gordon a serem arrastadas pelo chão. Antes, a australiana Stella Donnelly, que substituiu Japanese Breakfast no alinhamento, provou ser já um valor seguro daquilo a que se entende por indie rock; começando por se mostrar algo atemorizada («este é um palco maior daqueles a que estou habituada...») mas de imediato cedendo ao sorriso fácil e ao bom humor, presente até nos temas: 'Mosquito', por exemplo, é uma «canção de amor» (palavras suas) sobre um vibrador. O momento alto, já depois de mais uma graçola («nos primeiros quatro temas disse fuck oito vezes, agora vou dizer shit»), foi uma versão bonita de 'Love Is In the Air'. Sim, essa mesmo.

O NOS Primavera Sound continua esta sexta-feira, com concertos de Beach Bunny, Rina Sawayama, Shellac, Slowdive, King Krule, Beck e Pavement, entre outros.

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