“Sophia, na primeira pessoa” é um documentário realizado a propósito do centenário do seu nascimento, que se assinala na quarta-feira, recentemente apresentado no DocLisboa 2019 e que hoje à noite se estreia na RTP1.

O filme é Sophia pelas suas próprias palavras: não há um narrador para além da própria, e o filme consiste numa montagem que intercala a sua voz a recitar poesia ou a dar entrevistas, com imagens de arquivo, de fotos suas e de família, da correspondência, das casas e lugares que frequentou, das paisagens e momentos mais significativos da sua vida.

Da cidade do Porto à de Lisboa, com vista para os seus dois rios, da Granja ao Algarve, da vida social à política, sempre com a cultura grega no centro, o filme percorre os caminhos de Sophia, onde o mar está sempre presente.

O filme abre com imagens do mar e a voz de Sophia de Mello Breyner a recitar “De todos os cantos do mundo/amo com amor mais forte e mais profundo/aquela praia extasiada e nua/onde me uni ao mar, ao vento e à lua”.

“O fazer o filme possibilitou-me conhecer muito mais do que eu sabia ou conhecia sobre Sophia. Há muita coisa que devo ao fazer o filme, que pude aprender, que desconhecia ou conhecia muito mal. Depois de ter o filme terminado eu próprio fiquei mais rico no conhecimento sobre Sophia e, mesmo assim, muita coisa que agora sei não está no filme, ou porque não me interessou ou porque não era tão importante, dentro daquilo que é o equilibro do filme”, contou à Lusa Manuel Mozos.

A ideia do documentário partiu de um convite da comissão das comemorações do centenário da Sophia, mais concretamente foi dirigido a Manuel Mozos pela filha da poeta, Maria Andresen, em nome da comissão.

“Conhecia mais ou menos bem a obra de Sophia sobretudo parte poética e numa primeira fase tive varias conversas com Maria Andresen para coordenarmos o que se poderia fazer enquanto filme e tive que encontrar uma produtora [Vende-se Filmes]”, para trabalhar com a RTP.

A partir daí iniciou-se a fase de pesquisa e de investigação, em que o realizador podia aceder ao espólio de Sophia que se encontra na Biblioteca Nacional e também aos próprios arquivos familiares, para além dos da RTP.

“Num primeiro momento as coisas estavam ainda muito em aberto, havia a hipótese de fazer filmagem de pessoas que prestassem depoimentos, por conhecerem bastante bem a obra dela ou por a conheceram pessoalmente, mas à medida que fomos investigando fomos percebendo que havia muito material de arquivo onde ela própria falava e aparecia, e apercebemo-nos de que se calhar seria mais interessante ter só a voz de Sophia”, contou.

Todo este trabalho de pesquisa trouxe ao realizador a surpresa de conhecer melhor a poeta e a mulher que foram Sophia de Mello Breyner, revelando-lhe uma faceta que o “agradou muito”: um lado “mais livre e mais pleno da vida, haver um lado também mais negro, mais solitário, mais misterioso, até violento na sua obra, como também na sua vida”, em contraposição àquela ideia que se tem de Sophia de ser “uma pessoa solar, do lado mais livre e pleno da vida”.

Exemplo disso, e que fica bem patente no filme, é a sua relação com a política, uma certa desilusão daquilo em que para ela se tornou: após a alegria e a felicidade do que foi o 25 de Abril, a desilusão com o lado mais demagógico que os partidos foram ganhando.

Surpreendente também, para Manuel Mozos, foi a descoberta de material inédito entre o espólio da escritora, como “uma entrevista, filmada por um realizador, concedida a Fernando Assis Pacheco, um material que tinha sido filmado mas nunca tinha sido montado sequer e nunca apresentado publicamente”.

Entre estas filmagens inéditas conta-se um episódio em que Sophia relata como em criança, quando andava na primeira classe, passou umas férias inteiras a gozar com uma das professoras, “a madre Cecília”, e ao regressar ao colégio e ao ser tão bem recebida por ela, pensou que era “terrível” e que se tinha “colocado numa situação de mentira” que não pôde suportar, acabando por confessar à professora o que fizera.

Quanto ao resto do material “inédito” usado para o filme, “há coisas que, mais na parte das fotografias, que eram fotografias pertencentes ao espólio de família, conhecidas por um número muito restrito de pessoas no âmbito da própria família”.

“Depois as outras coisas utilizadas, como excertos de alguns filmes, não têm diretamente a ver com ela, mas nós aproveitámos, para de algum modo termos imagens correspondentes àquilo que faria sentido fazer, imagens por exemplo de um filme de Leitão de Barros, ou um filme de um realizador francês chamado Pascal-Angot”, imagens que foram conjugadas com aquilo que existia de espólio de radio ou televisão.

Manuel Mozos contou que tinha “carta branca” para fazer o filme na perspetiva que melhor entendesse e quis dar a conhecer “um pouco da Sophia enquanto poeta ou escritora, mas também como mulher na sua vida mais privada e familiar e também no seu papel de mulher na sua participação social e política”.

Claro que nos 56 minutos de duração do filme só cabe “uma parcela” do que é Sophia e que é “muito mais e muito maior e muito mais importante do que aquilo que fica refletido no filme”.

Isso foi mesmo o mais “ingrato” para o realizador, o que o “entristeceu um pouco”: “coisas que gostaria de ter no filme e pus de lado, imensos poemas e histórias dela que não cabiam no filme e isso que alguma maneira é o mais ingrato”.

Quase sempre acompanhado por música de Johann Sebastian Bach – que Sophia de Mello Breyner conta ser o compositor favorito do avô, com quem, por sua vez, mergulhou no mundo da poesia – o filme começa com Sophia a contar como aprendeu poemas de cor quando ainda não sabia ler nem escrever.

“Há uma aventura que começa na minha infância quando eu tinha 3 anos, no dia em que me ensinaram a ‘Nau catrineta’”, conta a escritora, explicando por isso que é muito difícil saber em que medida a poesia também a criou.

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