Prazeres violentos têm finais violentos ("These Violent Delights Have Violent Ends"). A frase faz alusão ao génio de Shakespeare, está presente em "Romeu e Julieta" e é dita várias vezes ao longo da série Westworld a Dolores Abernathy (interpretada por Rachel Evan Wood). Umas vezes por Bernard (Jeffrey Wright), outras vezes por Dr. Ford (Anthony Hopkins). A frase não faz parte do enredo por acaso, e não é fácil de dissecar tudo o que significa em Westworld (só isso valeria por si só um artigo), mas há uma conclusão clara a retirar da mesma: não se pode considerar um verdadeiro choque que as coisas tenham acabado da maneira como acabaram.

A segunda temporada da série da HBO terminou de forma explosiva, pelo que a espera para os fãs da série foi morosa. Isto é, entre o final da segunda temporada e a estreia da terceira (rebatizada como Westworld III) passaram-se praticamente dois anos. Mas esta segunda-feira, dia 16, em território nacional, a espera chegou finalmente ao fim. E se é verdade que os críticos norte-americanos já viram quatro episódios e não ficaram maravilhados, agora os portugueses podem fazer a "prova dos nove" por si próprios. No entanto, antes de avançar, resta deixar o aviso de que o artigo terá o mínimo de informação possível (spoilers!) para não comprometer o visionamento da série a quem quiser fazê-lo.

Novo no mundo de Westworld e não faz ideia do que se trata? Segue então um pequeno guia ao jeito Wikipedia.

A série é baseada no filme de Michael Crichton (o senhor que criou "Serviço de Urgência", "Jurassic Park" e outras tantas coisas boas) com o mesmo nome, de 1973, mas também foi beber alguma coisinha à sua sequela, Futureworld (1976). A história decorre num sítio fictício chamado Westworld, que não é mais do que um parque de diversões gigante baseado numa pequena cidade do Faroeste. E se na Disneyland há o Mickey, a Elsa e o Aladino, aqui há vários hosts que o habitam — de notar que estes "anfitriões" são andróides altamente realistas que fazem tudo como os humanos: falam, andam, bebem, fornicam, roubam.

Sobra agora falar, portanto, daqueles que o visitam: neste "mundo", neste "parque", os visitantes são conhecidos como guests. Não uns quaisquer, no entanto: uma elite muito rica que paga muito dinheiro para satisfazer as suas taras mais macabras — sejam estas quais forem. Aqui, não há limites. Até porque os hosts são andróides que estão programados para alinhar com tudo sem poderem fazer nada quanto a isso. 

Imagine então uma empresa no futuro, chamada Delos Incorporated, cuja subsidiária Delos Destinations tem a capacidade de banalizar os seus desejos mais macabros. No fundo, um resort de luxo, num parque temático onde as férias transcendem tempo, lugar e expetativas. O site "oficial" (até tem botão para fazer login e tudo, mas não há reservas disponíveis) da empresa explica: 

"Os nossos mundos imersivos integram tecnologia inspiradora, [contemplam] narrativas provocadoras e uma inovação sem precedentes para oferecer uma oportunidade que redefine a própria vida: a oportunidade de mudar a sua história".

Tudo isto para dizer que Westworld é um parque temático assente num faroeste onde os visitantes podem fazer aquilo que lhes der na telha. Tudo, literalmente. 

Ator / Personagens principais 

Evan Rachel Wood — Dolores Abernathy (é o host mais antigo do parque)
Thandie Newton — Maeve Millay
Jeffrey Wright — Bernard Lowe (o braço direito do criador do parque)
James Marsden —  Teddy Flood
Luke Hemsworth — Ashley Stubbs
Sidse Babett Knudsen — Theresa Cullen (a chefe da corporação que manda)
Rodrigo Santoro — Hector Escaton
Ed Harris —  Homem de Preto (o "vilão")
Anthony Hopkins — Dr. Robert Ford (o criador/programador de Westworld)
Tessa Thompson — Charlotte Hale

Música 

A banda sonora original é composta por Ramin Djawadi. Portanto, se nalguns momentos o piano soar a Guerra dos Tronos, é normal — o compositor é o mesmo. As músicas, no entanto, têm um toque contemporâneo apesar do cenário ser clássico de western.

Por isso, é natural que algumas faixas lhe soem familiares: é porque o são, de facto. É uma espécie de cover à Djawadi. Entre outras, há visitas ao espólio de bandas como Radiohead ("No Surprises" ou "Fake Plastic Trees"), Soundgarden ("Black Hole Sun") e Rolling Stones ("Paint It Black") que assentam que nem uma luva no imaginário westworldiano.

Os criadores da série, Jonathan Nolan (irmão mais novo de Christopher Nolan) e Lisa Joy (esposa de Jonathan), em entrevista ao The Hollywood Reporter, já fizeram saber que os novos episódios vão explorar "um mundo novo" e que a temporada que agora chega será toda "uma nova experiência". Ou seja, vamos sair de Westworld para rumar ao mundo real. É verdade que se escreveu que não haveriam spoilers, mas esta novidade é daquelas realidades difíceis de fugir e que está disseminada um pouco por toda a Internet. Até porque ambos já tinham dito, por alturas do fim da segunda temporada, que iam aproveitar a oportunidade para explorar novos caminhos

"Penso que é um rumo radical. O que é fascinante e apelativo acerca destas personagens é que não são humanos. Como dissemos na série, os humanos estão ligados pelas mesmas histórias que os hosts — de alguma maneira ainda menos. Não podíamos esperar que as personagens humanas suportassem e sobrevivessem ao tipo de história que estamos a contar. Os hosts tem uma versão diferente de mortalidade, uma perspetiva diferente. Penso que, de forma clara, com a Dolores, como ela indicou, há uma visão mais ampla aqui, uma lista de objetivos maior. São existenciais. Eles estendem-se por eras", confessou Nolan.

Assim, recorde-se que as primeiras duas temporadas estavam confinadas a uma mera localização: o parque que funciona como uma espécie de Disneyland gigante para adultos ricos com demasiadas e estranhas taras. Além de algumas viagens em que acompanhamos o passado de certas personagens, a ação decorreu sobretudo neste espaço — fosse nas várias localizações do Parque em si ou nos bastidores onde tudo é controlado. E percebemos que no mundo de Delos não só há cowboys como samurais e muitas outras coisas.

Dissecando teasers e trailers 

"Livre-arbítrio não é ser livre."

Em julho de 2019, um dos mandachuvas da programação da HBO, Casey Bloys, anunciou que a série estaria de volta na "primeira metade de 2020". No entanto, só em janeiro é que o canal anunciava em comunicado que a terceira temporada iria estrear no domingo, 15 de março, nos Estados Unidos. Ao jeito daquilo que fez o Indiewire, esta é uma breve análise daquilo que revelaram as primeiras imagens.

O primeiro teaser chegou imediatamente após o final de Guerra dos Tronos — como se a HBO soubesse que era necessário mimar os seus seguidores com algo bom depois da maneira como acabou com uma das séries mais populares de sempre — e focou-se nas novas personagens, especialmente na de Aaron Paul (Jesse Pickman de "Breaking Bad"). E assim o foi porque ainda havia muito secretismo na altura quanto ao possível regresso (ou não) de algumas personagens.

Paul não é Jesse Pinkman, mas sim um homem da construção chamado Caleb que vive em Los Angeles com o seu amigo George, um robô da Delos, modelo G-267. E, de acordo com os trailers, ambos vão interagir (muito) com um dos membros mais antigos de Westworld. Tanto assim é que numa entrevista à Entertainment Weekly, Jonathan Nolan e Lisa Joy, revelaram que Caleb vai ter um "enorme impacto em Dolores". Ela que, juntamente com outros hosts, vão ter experiências culturais meio que chocantes no mundo real. "A personagem de Aaron vai desafiar as noções de Dolores acerca da natureza da humanidade. Ele é o tipo de pessoa que não tem como ir ao Westworld." A acompanhar a sua jornada, narrada pelo próprio, estava a faixa "Brain Damage" dos Pink Floyd, do disco "The Dark Side of the Moon", a dar todo um novo sentido à coisa. O trailer termina com a frase "Vou ter que encontrar alguma coisa — alguém — real". E corta para a Dolores.

O segundo chegou uns meses depois, na Comic-Con, em San Diego. Já não é bem só um teaser, pois já se começa a perceber muita coisa. E, este sim, já envolve as personagens que viemos a conhecer, amar ou odiar durante duas temporadas. A narrar, claro, estava Dolores. "Todos nós temos um papel a desempenhar. Existem máquinas neste mundo, mas não como nós. Tu e eu não temos pai ou mãe. Estamos sozinhos. Em inferioridade numérica. Temos de ser mais inteligentes do que eles ou eles vão encontrar-nos. E vão matar-nos. Vamos mostrar a este mundo aquilo que realmente é", sublinha muito coloquialmente a personagem principal de toda a série. Para terminar e aumentar as expetativas, há Bernard a rematar a Maeve (que aparenta estar numa Alemanha Nazi?) de que voltou "para encontrar alguém" que o ajude, "alguém forte o suficiente para, caso chegue a esse ponto, pará-la".

Westworld III
Thandie Newton (Maeve Millay) créditos: HBO

Este teaser também teve direito a uma música especial: "We'll Meet Again", de Vera Lynn, datada de 1939. Esta é uma das canções mais populares durante a II Guerra Mundial, por espelhar tanto o sentimento dos homens que iam para a guerra como das suas famílias e entes queridos - e que iria dar azo a um musical com o mesmo nome, em 1943, para além do tema fazer parte da cena final de "Dr. Strangelove" de Stanley Kubrick), pelo que a sua escolha não foi ao acaso.

Porém, há menos de um mês, foi conhecido um poster minimalista com a frase: Livre-arbítrio não é ser livre que anunciava o que aí vem. Uma cidade futurista no fundo, um robô no centro e a data a estreia. Mostrando pouco, revelou-se muito: vai haver revolta da grossa. Juntamente com o poster chegou, também, o primeiro trailer.

Tal como os teasers o tinham demonstrado, Dolores (Evan Rachel Wood) parte para o mundo real e entra em contacto com Caleb. "Eu nasci neste mundo. E as primeiras memórias são de dor. Para o meu género [robôs], há um sítio onde nunca temos ordem para ir. Um sítio que não estamos autorizados a ver. O teu mundo", diz a Caleb. "Eles põem-te numa jaula, decidem como é que será a tua vida. Eles fizeram o mesmo comigo", remata Dolores, antes de insinuar que alguém o está a vigiar. Alguém que não é ela, mas a "pessoa que ficou com o" seu "futuro".

Entretanto, é possível ver que Maeve (Thandie Newton) está naquilo que a personagem de Vincent Cassel descreve como "o meu mundo" — o que deixa em aberto o tal imaginário da II Guerra Mundial refletido no segundo teaser. Pois bem, aqui fica-se a saber também outra coisa: que Cassel tem uma missão específica para Maeve e a mesma dá pelo nome de Dolores. "Quero que a procures e que a mates". Depois o trailer salta para um cover em piano de "Sweet Child O' Mine" dos Guns 'n' Roses e imagens de batalhas saltam à vista. No entanto, a cereja no topo do bolo é mesmo o Homem de Preto (Ed Harris) a aperceber-se de que, afinal, o seu propósito, é "salvar o fucking mundo".

O futuro e o que se escreve sobre os primeiros episódios

Neste momento, não é ainda certo se esta será a última temporada de Westworld, apesar do IndieWire recordar que Joy e Nolan têm em cima da mesa a possibilidade de alongar a série por mais duas temporadas. Certo só que Westworld III vai consistir em apenas oito episódios, ou seja, menos dois do que as duas anteriores, ambas com dez. E o final da série já está na mente de quem a criou.

"Temos em mente um final; temo-lo desde o episódio piloto. Penso que seja muito emocional. Não consigo dizer quando é que esse final vai acontecer, mas penso que aquilo que tentamos fazer em cada temporada é contar um capítulo da história que dê [ao espetactor] um desfecho e depois abra a porta um novo capítulo. A questão primordial da série é: o que será desta nova forma de vida? Então, penso que seria irresponsável não ter esse objetivo em mente", revelou Joy numa entrevista ao Den The Geek.

No que diz respeito à nova temporada, há quatro episódios que já foram disponibilizados aos críticos norte-americanos. O site Dan The Geek foi um deles e, segundo a crítica — livre de spoilers —, parece que aquilo que era maravilhoso no Parque de Delos é tão somente um mundo pálido se comparado com a realidade fora de Westworld. Daquilo que podemos ver, o Parque que dá nome à série é um local para satisfazer as taras de gente rica; onde homens e mulheres podem brincar e fazerem o que quiserem com os hosts. O mundo real oferece a mesma oportunidade para o mesmo tipo de pessoas, só que num ambiente menos espampanante.

Neste contexto, a revista Time (cujos críticos também já assistiram aos primeiros episódios) teceu elogios à maneira como Joy e Nolan conseguiram transportar a série para fora do parque sem que a mesma perdesse a sua essência. Especialmente quando muitas personagens tiveram um fim que não se previa e outras um destino meio ambíguo — o que significa que é preciso preparação para dar as boas-vindas a novas personagens porque há várias alterações ao nível do elenco.

Isto é, Maeve (Thandie Newtow), Charlotte Hale (Tessa Thompson), Bernard (Jeffrey Wright) e Dolores (Evan Rachel Wood) estão de volta à ação na primeira linha, mas agora serão escudados pelos novos protagonistas interpretados pelo já referido Aaron Paul, o francês Vincent Cassel (Irreversible, Black Swan, Ocean's Thirteen) e Lena Waithe (Transparent, Master of None, Dear White People). Tudo num ambiente futurista em que o olhar do espetador parece ficar bem alimentado devido à beleza do mundo que os rodeia — que parece seguir mais as linhas de Blade Runner (1982) ou Strange Days (1995) do que um sci-fi futurista baseado num western.

Assim como também se mantêm os diálogos sobre conceitos como o livre arbítrio que agarraram os fãs — nas temporadas anteriores cada vez que o Dr. Ford (Anthony Hopkins) entrava em cena, todos semi-serrávamos e tentávamos não perder pitada do que se estava a passar. Nem que seja porque, tal como explica um dos "sábios" da Internet (leia-se Nerdwriter1) no seu canal de YouTube, o ator veterano eleva cada linha do diálogo para um nível de hipnose.

Segundo o Dan the Geek, há ainda uma coisa que parece poder ser uma constante nesta temporada: a violência. Se esta marcou as duas temporadas anteriores, a terceira não deixará de ser marcada pela mesma. E deixa elogios à coreografia das cenas: aparentemente, não há nada de previsível, assim como há toda uma nova consciencilização da forma como a violência é retratada. Nas primeiras temporadas, é gratuita; nesta há outro tipo de consequências. Não há ninguém para recolher corpos e não há ninguém a apagar a memória dos robôs. Já não é possível continuar com a mentalidade "o que aconteceu em Vegas, fica em Vegas". Outra das coisas que a crítica aponta é que há um distanciamento em relação aos episódios anteriores. A segunda temporada é diferente da primeira, ao passo que a terceira é diferente das anteriores. Cada uma teve o seu propósito para contar a história.

Porém, há críticos que apontam falhas — algumas que já vêm de temporadas anteriores. O que não quer dizer que escrevam que a série é má ou fraca, apenas que está a expetativa era alta devido aos envolvidos no processo — criadores, atores, a própria HBO e, por último mas não menos importante, a torneira financeira abundante para satisfazer as exigências do guião de Joy ou Nolan.

Vanity Fair considera que a "nova iteração" que a série tomou é "um pouco básica". Isto é, tem "algumas coisas fixes de sci-fi a acontecer, mas os twists e círculos [narrativos] foram apagados para criar uma superfície mais suave para conteúdo filme de ação". No fundo, as voltas e reviravoltas da série foram postas um pouco de lado para dar lugar a uma história mais linear e menos confusa, de modo a atrair nova audiência à boleia de festim visual. Por seu turno, a Rolling Stone escreve que a nova temporada tem "certamente os seus momentos", ao passo que o New York Times, enaltece algo que já tinha colocado em cima da mesa umas linhas acima, quando referia a personagem de Anthony Hopkins: há alguns diálogos sobre free will. No entanto, realça que estes foram escritos por "robôs que não receberam o update de livre arbítrio".

Westworld III
Bernard Lowe (Jeffrey Wright) créditos: HBO Portugal

Ou seja, como em quase tudo na vida, as opiniões são relativas. E cada um vai ter a sua sobre Westworld e o seu futuro. Uns vão alegar que o rumo da terciera temporada foi errado e que a série nunca devia de ter saído do local original, outros vão insinuar que nunca tiveram paciência para tantas trocas de histórias e twists e, como a história agora aparenta estar contada de forma linear, já lhe vão dar uma segunda oportunidade. Outros dirão ainda que os críticos só tiveram acesso a quatro dos oito episódios e que por isso não podem opinar com certezas absolutas sobre o destino de Dolores e companhia.

Assim, resta apenas aproveitar o livre arbítrio e decidir se vamos ou não gostar desta nova Cidade dos Anjos noir. Ou, como se diz para os lados da campanha de marketing da HBO, Bem-vindo a 2058.

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