Ela é escritora e interessa-se pelo mundo das artes. Ele é de ciências, matemático, foi professor de estatística no ISEG. Não podiam ser mais diferentes. Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, tem 91 anos, e Bento Murteira, o seu marido, tem 93. Estão casados há 70 anos.

A receita? Não há. E a realidade pode sempre superar a ficção. "Cada caso é um caso, não podemos generalizar. Antigamente, quando duas pessoas se uniam havia dois factores fundamentais para fazer durar essa união: a religião católica e a ideia de que a felicidade dos filhos estava acima de tudo. A Igreja tinha influência sobretudo nas mulheres e era castigadora. Eu, que sou uma mulher de fé, sempre fui grande crítica da religião, porque anular os sentimentos da mulher também não estava certo. Hoje assistimos a um choque de civilizações, a Igreja perdeu poder e as pessoas procuram uma felicidade interrogada, que não é definitiva, vão mudando de parceiros sucessivamente e põem de parte a felicidade dos filhos, como se fossem acessórios", analisa Manuela Nogueira .

Manuela e Bento têm quatro filhos. Mais de sete décadas juntos. São opostos, admite ela. Como, foi possível, então? "As pessoas podem ter ideias opostas em vários sentidos e fazer o possível por harmonizar as diferenças. Mas para um casamento durar, cada um por si tem tem de ter um mundo de interesses. A pior coisa que há é um estar sujeito ao outro, ao que o outro quer, ao que o outro gosta. Claro que se um se subordinar ao outro o casamento também pode durar muitos anos, mas será sempre deficiente. Há uma vida em comum, mas é importante cada um construir a sua vida".

Os 70 são bodas de vinho. Deve haver tempos em que as coisas azedam... Como é que se sabe quando o sacrifício vale a pena? Dito assim parece tão fácil. "Nada fácil. Quando se tem filhos e se gosta muitíssimo dos filhos, põe-se em primeiro lugar a sua estabilidade. Só de pensar que vão ver a mãe para um lado, o pai para o outro... Há coisas aguentáveis num casamento e coisas que não se podem tolerar. É claro que é fácil falar agora, que ultrapassei as dificuldades, mas na altura em que passei por elas não foi. Vê-se que ganhámos as batalhas quando olhamos para trás sabemos que valeu a pena. Somos uma família de 33 e gostamos de pertencer a ela, vivemos em harmonia, gostamos de pertencer a esta família".

Setenta anos é muito tempo? "O mais engraçado é isso: não se dá pelo tempo, o tempos passa depressa. Quando se tem interesses, quando se tem uma vida ocupada, hoje é segunda-feira e amanhã já é sexta. Actualmente 89% dos meus amigos já morreram, mas tenho a minha vida, não com gente da minha idade, mas com amigas mais novas. E a família, em conjunto, consegue aguentar muitas diferenças. Os momentos difíceis tornam-nos mais fortes. Também não se vive em paixão permanente, mas o sentimento de entusiasmo pode transformar-se em amizade e a pessoa que está ao nosso lado, apesar da discórdia, que também existe, é um amigo que sofre connosco".

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