No momento em que este texto chega ao leitor, é muito provável que já tenha ouvido falar da história de Cláudia Simões, uma mulher que acusa a PSP do Casal de São Brás, na Amadora, de a ter detido e manietado em frente à filha de oito anos, no domingo, 19 de janeiro. Um caso com marcas de violência, retratadas nas fotografias divulgadas nas redes sociais e depois comprovadas no relatório médico do hospital Amadora-Sintra.

Provavelmente, também conheceremos a história contada pela forças da autoridade, uma versão que não encaixa propriamente com a de Cláudia em que a polícia contrapõe com uma postura agressiva por parte da detida.

Hoje conhecemos as fotografias divulgadas na internet e o relatório médico que dá conta que tanto Cláudia como o agente chegaram com ferimentos ao hospital. O que aconteceu antes ainda carece de muitos esclarecimentos.

A internet discute, em posições extremadas, com o apuramento dos factos a ser muitas vezes posto de lado, com pedidos de justiça ora do lado de Cláudia, ora do lado do polícia que ficou de baixa médica. Esquecemo-nos que falta um terço da história, o de uma menina de oito anos que viu a mãe ser detida, levada.

Passámos os últimos dias a falar de vidas que mudaram num minuto, ora dos 100 milhões de euros que calharam num sorteio do Euromilhões a um apostador na Malveira, ora dos Luanda Leaks que, no momento em que as notificações do Expresso e do The Guardian chegaram aos smartphones, colocaram Isabel dos Santos no centro do mundo.

A vida da filha de Cláudia mudou no domingo. Não em um minuto, mas sim ao longo de vários, que, muito provavelmente, aos olhos daquela criança poderão ter parecido horas. O apuramento da verdade é essencial para ela, por ela, para a geração dela. Se aquela menina de oito anos viver com aquela imagem na cabeça sem qualquer sentimento de justiça, crescerá com o sentimento de que o mundo está contra ela, que o Estado está contra os seus.

Num país em que a justiça faz dos minutos anos, não nos podemos esquecer dela e de como ela se vai lembrar deste momento. Ela tem de saber o que aconteceu. Ela tem de saber se a mãe errou ou se o polícia errou. Enquanto país temos de lhe dar uma explicação e uma resposta sincera, honesta e justa qualquer que seja o apuramento dos facto.

Se contamos histórias de vidas que mudaram num minuto, não nos vamos esquecer de esclarecer a que os olhos desta menina viram, antes que a percamos a ela.

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