Olhando para a televisão, há visões do passado: as notícias falam de crises políticas, energéticas, económicas, do pão, no trânsito em Santo Ovídio, na defesa do Benfica e nas Forças Armadas. A enumeração continua antes de encontrarmos a outra crise que, desde março de 2020, anda a enquadrar o país: a sanitária.

Num artigo divulgado no ‘site’ da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Manuel Carmo Gomes (epidemiologista) e Carlos Antunes (matemático) dizem que o Rt se tem situado acima de 1,1 e defendem que, se se mantiver como está, “o número de novos casos deverá duplicar a cada 30 dias”, podendo chegar aos 2.000 casos diários na primeira metade de dezembro.

Lembram que, nas últimas semanas, as idades onde o risco de infeção tem sido mais elevado se situam entre os 18 e os 25 anos, seguidos das crianças com menos de 10 anos e dos jovens adultos entre 25 e 40 anos de idade, faixas que aumentaram a socialização após 1 de outubro.

Manuel Carmo Gomes e Carlos Antunes recordam ainda que, desde o início de outubro, a incidência da doença tem apresentado uma “tendência de subida persistente” e avisam que a persistência de um Rt acima de 1 “origina um crescimento exponencial da incidência, o qual é passível, em situação prolongada, de originar situações de elevada pressão hospitalar”.

Caso este cenário se concretize e o presidente da República entenda que há necessidade de decretar novamente o estado de emergência, cabe à Comissão Permanente da Assembleia da República (que entra em funções com a dissolução do parlamento) autorizar Marcelo Rebelo de Sousa a fazê-lo.

Portugal contou hoje 1.182 novos casos confirmados de infeção com o coronavírus e a morte de oito pessoas. Segundo o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS), estão agora internadas 361 pessoas, mais uma do que na segunda-feira, das quais 60 em unidades de cuidados intensivos, menos duas nas últimas 24 horas.

Desde março de 2020, morreram 18.217 pessoas e foram contabilizados 1.099.307 casos de infeção. Nas últimas 24 horas, o número de contactos em vigilância pelas autoridades de saúde subiu (mais 414), situando-se nos 25.264.

Já esta semana, a covid-19 fechou uma escola de Marvão: um surto na Escola Básica Dr. Manuel Magro Machado, na freguesia rural de Santo António das Areias, já infetou, pelo menos, 22 pessoas, disse hoje o presidente do município, Luís Vitorino.

“Nós, na câmara, fizemos a nossa contagem e contabilizamos 22 casos, mas poderá haver mais”, acrescentou. Sem especificar em detalhe e separadamente o universo de alunos e funcionários infetados, Luís Vitorino indicou apenas que estão infetados “funcionários, alunos e pessoal na comunidade”, nomeadamente encarregados de educação.

Não é fácil — nem há de servir de muito — antever aqui o que vai acontecer no futuro. Na outra Europa, uma quarta vaga já chegou com força, alimentada pelo frio, pela variante Delta e pela baixa vacinação. Aqui, os números (analisados por quem sabe) apontam uma tendência: havemos de estar a caminhar para uma qualquer quinta vaga, que entrará em cheio quando o país já está submerso em todas as crises com que começámos este texto.

Quando era pequeno, na praia de Magoito, a minha mãe ensinou-me a ler o mar. Havia uma lógica qualquer nas ondas, uma razão no caos aparente das vagas sucessivas que entram rochas fora, que ela me indicava com os olhos no horizonte. Não anda longe da mesma linha que hoje nos avisa que amanhã algo pode estar para chegar. Só depois virá o dia claro, que no atro da erma noite começou.

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