A peça “Angela I” está em cena na Bremer Shakespeare Company, na cidade de Bremen, que vai a eleições para o parlamento regional a 26 de maio, liderado atualmente por uma coligação formada pelo Partido Social Democrata Alemão (SPD) e pelos Verdes.

Katja Hensel, a autora, revela em declarações à agência Lusa que a peça “não é apenas sobre a chanceler Angela Merkel, mas também sobre a política, os políticos e sobre a pressão que eles enfrentam diariamente”.

“Expressa também uma espécie de alienação, por um lado os alemães parecem não conseguir entender os políticos e, por outro lado, os políticos parecem já não conseguir chegar aos eleitores. Penso que há um vazio que está a ganhar cada vez mais dimensão”, acrescenta.

A peça, que mistura a história de vida com o percurso político da chanceler de 64 anos, “não é um tributo”.

“Também incluo muitos momentos da sua governação que são passíveis de critica. Não quero torná-la uma heroína, mas sim uma pessoa. Não quero que a vejam como uma política fria, não humana. A minha intenção é que os políticos sejam vistos como seres humanos, que muitas vezes lutam pelos nossos problemas”, revela a dramaturga e atriz que escolheu o nome “Angela I.” para aproximar-se das peças de Shakespeare.

“Nelas os reis, que têm muito poder, vivem sempre momentos trágicos. E, na minha opinião, também a forma como Merkel se dedica à política e lidera o país tem um lado trágico. Nas peças de Shakespeare os lados político e pessoal têm um forte peso, e isso é algo que me interessa muito”, explica.

Para Katja Hensel, Angela Merkel “é única” no mundo da política porque “todas as decisões que toma são quase pessoais”.

“Não considero que seja uma estratega, mas sim alguém que se mantém sempre muito ligada às suas opiniões e à forma como vê as coisas. Isso é algo que a separa da maioria dos políticos alemães”, considera a dramaturga, sublinhando que esse caráter também já lhe passou fatura.

“Parece-me verdadeiramente trágico que ela, sendo uma mulher com origem na Alemanha de Leste, não seja sequer convidada para integrar a campanha eleitoral que decorre em algumas dessas zonas do país. Isto acontece porque ela já não é popular no próprio partido com o qual e pelo qual ganhou tantas vezes eleições (a União Democrata Cristã, CDU). E isso é trágico porque essas são as suas raízes que, de certa forma, a excluem e a renegam”, lamenta Katja Hensel, lembrando a decisão polémica da abertura de fronteiras, em 2015, que permitiu a entrada de um número massivo de refugiados na Alemanha.

A atriz e dramaturga assume já ter escrito muitas peças de teatro com conteúdo político, mas nunca com uma reação tão “forte”, o que a deixou “quase em choque”.

“Na minha opinião, Merkel pode orgulhar-se de muito do trabalho que levou a cabo estes anos. Mas, por outro lado, há muita gente que reage de uma forma muito emocional e sente até uma espécie de ódio em relação a ela. Notei isso quando estava a fazer investigação para poder escrever esta peça. Houve quem reagisse com raiva, outros com pena e tristeza por ela não continuar como chanceler. Há uma grande separação entre estes dois lados, mas as reações são sempre muito fortes”, admite.

A peça está em cena quando faltam menos de dois meses para as eleições no Estado federado de Bremen, o mais pequeno da Alemanha, governado quase sempre pelo SPD desde o final da Segunda Guerra Mundial. Hensel reconhece, ainda assim, que a estreia da peça nesta altura “não foi intencional”.

“O que fizemos foi convidar todos os partidos, com a exceção do Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita, para uma conversa. O objetivo era que nos explicassem como é que chegam às pessoas, como é que as convencem a votar neles. Foi uma espécie de mesa redonda e correu muito bem, foram todos muito honestos e contaram-nos muitos detalhes sobre as dificuldades que têm em chegar ao diálogo com as pessoas. Porque nos últimos anos parece que as pessoas não querem dialogar com os políticos”, assume a escritora.

Angela Merkel deixou a liderança da CDU no final do ano passado, depois de 18 anos, passando Annegret Kramp-Karrenbauer a tomar as rédeas do partido. Anunciou também que depois de terminado o mandato como chanceler, em 2021, não se recandidatará. Muitos consideram que o executivo que governa, em coligação com o SPD de Andrea Nahles, não chegará ao fim.

“Angela I” está em cena, no teatro Bremer Shakespeare Company até ao início do mês de maio.

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