Federico Fabbrini, que falava numa conferência sobre o futuro da Europa, sustentou que não há “grandes dúvidas de que o ‘Brexit’ não foi o último elemento disruptivo na vida da União Europeia” (UE) e que “são esperados importantes ajustamentos entre os 27 Estados-membros”.

A UE, considerou o académico, “esteve notavelmente unida nas negociações com o Reino Unido” sobre a sua saída do bloco comunitário, “um dos aspetos mais marcantes” neste processo, mas os 27 estão “muito divididos entre eles em matérias cruciais”.

Ao mesmo tempo que decorre o processo para a saída do Reino Unido da União Europeia, “as tensões e divisões entre os membros aumentaram numa série de áreas” e além do ‘Brexit’ essas crises – do euro, das migrações, do cumprimento das regras europeias – “produziram feridas profundas na construção da União”, afirmou o diretor do Brexit Institute.

“De forma evidente, o crescimento do populismo – e a batalha para as próximas eleições europeias – polarizou os Estados-membros, levantando nuvens negras sobre o futuro da EU a 27”, considerou o académico.

Por isso, com ou sem o Reino Unido, Federico Fabbrini vê três cenários possíveis para a União Europeia, e entende que o mais plausível é o de uma “integração diferenciada”.

Isto não é novo na União Europeia, afirmou, recordando que “tem raízes nos tratados de Maastricht e Amsterdão, e o estabelecimento de ‘opt-outs’ nomeadamente adotar ou não o euro”, e enumerando áreas crescentes em que a “integração diferenciada tem sido a ferramenta usada”.

Um dos outros dois cenários que referiu como possíveis para o futuro da UE depois do ‘Brexit’ foi o ‘status quo’, que considera mais perigoso para a sustentabilidade do projeto, mas não impossível.

“A UE pode simplesmente conseguir resistir a mais uma série de crises, e continuar como está”, admitiu, referindo que muitas vezes se viu a UE ter muito pouca ação face a diferentes dificuldades e crises que foi ultrapassando.

Um terceiro cenário seria a separação entre um núcleo de Estados-membros (mais integração) e uma periferia de Estados-membros, o que considera também possível, sobretudo quando se nota a que há diferentes visões sobre qual é a principal finalidade da União, havendo quem tenho uma visão mais de mercado e uma visão mais política.

Estas duas visões distintas “não desaparecem” caso se concretize a saída do Reino Unido, que estava fora da moeda única, e o ‘Brexit’ pode até ser uma oportunidade, na visão de Federico Fabbrini para as reformas necessárias.

“Não tenho a bola de cristal (…) mas o que espero ter mostrado com a minha apresentação é que há um futuro além do ‘Brexit’ mas para o projeto ter sucesso é preciso reformar as instituições”, afirmou no final da sua intervenção, num painel com o tema “A União Europeia depois do Brexit: tensões centrífugas e integração diferenciada” da conferencia “Para Onde Vai a Europa”, que decorreu hoje na Fundação Gulbenkian.

O processo do ‘Brexit’ pode ajudar neste caminho, afirmou ainda, num painel moderado por Luísa Meireles, diretora de informação da agência Lusa, e em que participaram também o economista António Cabral, antigo diretor-geral Adjunto dos Assuntos Económicos e Financeiros da Comissão Europeia, e Paulo Portas, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro-ministro português.

Paulo Portas, que também admitiu o cenário mais provável de “reagir e diferenciar” para que não se rompa a União e corresponda as vontades nacionais, elencou, por seu turno, os vários problemas, incluindo os populismos e separatismos.

O antigo governante lembrou também o problema de competitividade e o das migrações, entre outros, afirmando que “o número de problemas é grande” e que não vê “muitas lideranças capazes de propor soluções duradouras”.

O economista António Cabral centrou mais a sua intervenção no euro e em como este vai mostrar que é “uma força aglutinadora” em caso de um cenário de integração diferenciada em que surjam tensões. O euro, defendeu ainda, salvou Portugal, a Grécia e a Itália.

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