Ao longo do segundo dia de debates no evento virtual “The Power of Food”, promovido pelo simpósio Sangue na Guelra para discutir o futuro da restauração face à pandemia de covid-19, cozinheiros de todo o mundo partilharam as suas experiências sobre o impacto da crise na restauração, um dos setores mais atingidos com as medidas de contingência para travar o novo coronavírus, que já causou mais de 251 mil mortos e quase 3,6 milhões de infetados em todos o mundo.

Daniel Humm transformou, em poucos dias, o nova-iorquino “Eleven Madison Park” (três estrelas Michelin e o melhor restaurante do Mundo em 2017, pela lista 50 Best) num centro de produção de cinco mil refeições diárias para os mais necessitados.

Ainda sem saber se ou quando terá condições para reabrir o restaurante, o ‘chef’ garante que este é um trabalho que quer continuar, no futuro. E “agradece” à crise por “apagar as tretas e mostrar o que cada pessoa é”.

“A pandemia é uma enorme chamada de atenção. As coisas não podem continuar como estavam. Tudo se descontrolou, as pessoas eram demasiados egoístas. (…) A pandemia foi necessária para nos fazer voltar aos valores reais, a ter respeito e a apreciar o local onde vivemos”, comentou.

No futuro, considerou, vai deixar de fazer sentido “ter um restaurante sem um propósito maior”.

“Esse não é o caminho em frente”, sustentou Humm.

Devastado por ter despedido cerca de 100 dos seus 280 funcionários, Alex Atala (“D.O.M”, duas estrelas Michelin, São Paulo) descreve a pandemia como o “acordar de um sonho lindo para um pesadelo muito duro”.

“O sonho acabou. Temos de encarar isto de uma forma nova, por isso, eu defendo uma solução coletiva. O pior já aconteceu”, comentou o cozinheiro brasileiro, para quem a solução “não vem dos políticos, mas de todos nós”.

Atala, que tem o Instituto ATÁ, que trabalha com indígenas da Amazónia, relatou que aprendeu com eles a não desperdiçar comida, uma lição que quer ajudar a divulgar.

“Nós nunca deitamos fora dinheiro. Então porque é que deitamos fora comida?”, questionou.

“Tudo começa e acaba. Como atravessamos o rio? Com valores reais: amizade, família, natureza, cuidar do próximo. São esses os ingredientes da nova receita, do novo mundo, da nova sociedade”, afirmou.

Henrique Sá Pessoa (“Alma”, duas estrelas Michelin, em Lisboa) afirmou que a crise uniu a comunidade de ‘chefs’, que hoje falam entre si para trocar informações sobre as suas realidades.

Para o ‘chef’ português, a necessidade de consumir produtos nacionais vai ser maior, “para apoiar os produtores nacionais e porque vai ser mais difícil importar produtos e isso não vai fazer sentido”.

Algo que, sustentou, “vai mudar a forma como os ‘chefs’ trabalham e criam os seus menus e isso provavelmente ficará após a covid-19”.

Sá Pessoa defendeu que “os ‘chefs’ famosos devem usar a sua exposição para apelar às suas comunidades”, o que José Avillez tem feito no último mês e meio.

O responsável do “Belcanto” (duas estrelas Michelin, Lisboa) tem apoiado a campanha do Governo português “Alimente quem o alimenta” para estimular o consumo dos produtos locais, quando muitos produtores perderam quase todos os seus clientes da hotelaria e da restauração.

Avillez concordou que haverá “uma maior preocupação em comprar produtos locais” e que, neste período de confinamento, os cozinheiros podem ajudar as famílias a cozinhar certos alimentos que podem agora comprar diretamente a estes produtores.

“Daqui a dois meses, quando as pessoas voltarem aos seus trabalhos, vão voltar a precisar dos ‘chefs’. Espero que o Governo perceba quão importantes são os restaurantes para a sociedade, não só pelos empregos que dão, mas também pelos empregos indiretos”, sustentou.

Depois “destes tempos difíceis”, será altura de se perceber “o que se aprendeu e o que se pode fazer melhor”, defendeu José Avillez, que tem uma certeza: “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”.

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