Os livros do escritor Alberto Manguel têm muitos quilómetros. Começaram por se acumular numa casa em Israel, depois na Argentina, e a seguir tiveram de fugir com o dono para a Europa, acabando por ficar adormecidos em caixas de cartão em Montreal, no Canadá, desde 2015.

Em todos os lugares em que se instalou, uma biblioteca crescia “como que por geração espontânea”, explica Manguel no livro “Embalando a minha biblioteca”. Colecionou livros em Paris, Londres, Milão, “no calor húmido do Taiti”, onde trabalhou cinco anos como editor (e onde alguns livros acumularam bolor polinésio). Também em Toronto e Calgary os livros insistiam em se multiplicar.

A residir em Nova Iorque, nos Estados Unidos, Manguel revelava em junho deste ano a vontade de se instalar em Lisboa de forma definitiva, numa entrevista ao jornal Sol. Nessa ocasião, Manguel disse que via a “queda do Império Americano” e que por isso ponderava “deixar Nova Iorque e ir viver para Portugal” porque o acaso, que diz ter guiado a sua vida, lhe colocou no caminho “pessoas maravilhosas em Portugal que se tornaram amigos muito queridos”.

No último parágrafo de “Embalando a minha biblioteca” (2017), Manguel pergunta-se: “Que alianças inesperadas se formarão entre os meus volumes encaixotados, assim que forem instalados noutro território?” Agora, três anos depois, o assentar do ensaísta em terras lusas parece estar a concretizar-se - e com ele vêm os cerca de 40 mil livros da sua vida, numa doação à Câmara Municipal de Lisboa.

O experiente editor Manuel Alberto Valente não editou Manguel, mas conhece a sua obra – e biblioteca. “Acho que é de uma grande importância e uma grande mais valia para Lisboa uma biblioteca tão vasta e valiosa como a de Manguel”, diz ao SAPO24.

“A riqueza de ter connosco aquela que é, provavelmente, uma das mais importantes bibliotecas particulares do mundo é formidável”, partilha Manuel Alberto Valente.

Mas porquê Portugal? Depois de viver em tantas cidades, como surge a decisão de Lisboa? Manuel Alberto Valente diz que Lisboa já ombreia com as grandes capitais europeias e que a escolha pode decorrer disso mesmo.

“Há uma grande atração por Portugal porque realmente o país oferece condições que outros não oferecem em termos de clima, gastronomia e é normal que seja atrativo”, refere. Sabe-se que Manguel tem boas relações com a cultura portuguesa e com portugueses.

A casa que os livros vieram habitar em Lisboa

Os milhares de volumes vão compor o futuro Centro de Estudos da História da Leitura (CEHL), nome curiosamente parecido com o livro de Manguel "Uma História de Leitura", que se encontra esgotado em Portugal.

Entre exemplares raros, primeiras edições e livros encadernados a couro verde-escuro (alguns que a secretária do pai mandou guilhotinar à medida quando Manguel era pequeno, para caberem nas prateleiras da casa de Buenos Aires), estão também livros da Penguin, “novos e brilhantes”, coleção que descreve no livro “Embalando a minha biblioteca”. Nesse livro, editado em Portugal pela Tinta-da-China, ficamos também a saber que uma prateleira inteira de livros de Franz Kafka vai estar na nossa capital.

O espólio pessoal de Manguel, que inclui obras de literatura e não ficção nas áreas das artes e humanidades – também é um grande amante da pintura - vai ter como teto o Palacete dos Marqueses de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, junto ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. O espaço vai ocupar mais ou menos 600 metros quadrados e incluirá espaços de leitura, de escrita e de eventos, sendo que vai ser remodelado para as novas funções.

Trata-se de uma doação que a Câmara Municipal de Lisboa diz reafirmar a capital “como ponto de encontro de culturas e línguas, internacional e intercultural”.

Mesmo que muitos livros estejam escritos em espanhol, francês e inglês, o CEHL não perde relevância. O editor e poeta Manuel Alberto Valente lembra que “hoje maior parte dos estudiosos e académicos – e não só - lêem em inglês quase como lêem português”, e muitos dominam o espanhol e o francês.

“Qualquer país se sentiria orgulhoso de ter uma biblioteca como esta no seu território”, reitera Alberto Valente, que passou pela editora Dom Quixote e pela Asa, sendo até há semanas director da Divisão Editorial e Literária de Lisboa da Porto Editora.

A vereadora da Cultura da CML, Catarina Vaz Pinto, disse ao jornal PÚBLICO que o CEHL será “um ponto de encontro entre autores e intelectuais e o público leitor”, que fará "jus a Lisboa enquanto cidade literária".

É uma vida a ler e a tratar dos livros. E embora lhe chamemos bibliotecário, em “Embalando a minha biblioteca” confessa que nunca o foi porque nenhuma das suas bibliotecas tinham um catálogo, as secções eram “loucas” e a ordem estava entre a alfabética e a aleatória, o que fazia com que fosse o único a encontrar determinado livro.

Neste novo capítulo, vai caber a Alberto Manguel a gestão do Centro de Estudos da História da Leitura e, de facto, a internacionalidade fica bem ilustrada ao saber que já confirmados para o Conselho Honorário do futuro Centro de Estudos estão autores de renome, como a polaca Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura de 2018; Salman Rushdie, que foi Prémio Booker Prize de 1981 e a canadiana Margaret Atwood, vencedora do Booker Prize do ano passado.

Mas a lusofonia também entra no conselho. O poeta e cardeal português Tolentino de Mendonça, atualmente Arquivista e Bibliotecário do Vaticano, e o brasileiro Chico Buarque, Prémio Camões 2019, fazem igualmente parte do Centro de Estudos.

Alberto Manguel, os olhos de Borges

Manguel, nascido na Argentina e de nacionalidade canadiana, é autor de livros como "História Natural da Curiosidade”, “Monstros Fabulosos - Drácula, Alice, Super-Homem e outros amigos literários” e, este ano, viu o livro “Com Borges” publicado junto da Tinta-da-China.

Em “Com Borges” descreve partes da sua relação com o escritor Jorge Luis Borges, autor compatriota de Manguel e seu professor em muitos aspetos. Podemos levantar o véu a esta novidade literária e sublinhar a história destes dois grandes amantes de bibliotecas.

Alberto Manguel em 2007 em França
créditos: LAIN JOCARD / AFP

Com 16 anos, Manguel tinha o seu primeiro trabalho como guardião de livros. Trabalhava na livraria Pygmalion, em Buenos Aires, quando o escritor Jorge Luís Borges, autor de “Ficções”, já com uma cegueira progressiva, o recrutou para ser os seus olhos ao ler para si, em casa.

Em 1964, Manguel tornou-se num dos leitores de Borges. Também apontava as palavras que o “velho homem”, como lhe chama neste novo livro de memórias, lhe ditava. Leu e escreveu por Borges durante quatro anos. Em 1969, mudou-se para a Europa, algum tempo antes da ditadura militar na Argentina, deixando “maior parte dos livros para trás”. De certa forma, salvou a sua biblioteca porque, se tivesse ficado no país, provavelmente ter-se-ia visto livre dos livros, já que naquele tempo, como relata em “Embalando a minha biblioteca”, quem fosse visto a ler um livro de “aparência suspeita” podia ser preso.

Uma biblioteca que é uma “selva exuberante de papel e tinta”

Viveu em Espanha, França, Itália e Inglaterra, onde foi leitor – claro -, mas também tradutor para várias editoras. A biblioteca de Manguel, quer os livros estivessem encaixotados ou dispostos em prateleiras, sempre foi “uma criatura fantástica constituída pelas várias bibliotecas” que construiu e abandonou.

Também podemos pensar numa biblioteca como uma espécie de biografia – pelo menos assim gosta de pensar o dono desta “selva exuberante de papel e tinta”, como a descreve em “Embalando a minha biblioteca”. A biblioteca é uma “autobiografia com várias camadas”, em que as notas escritas nas margens dos livros ou um bilhete entre as páginas escondido fazem o leitor recordar-se de quem foi no momento em que leu o livro pela primeira vez.

Os volumes de Manguel chegaram a estar quase 15 anos guardados sob o teto de vigas desgastadas de um velho presbitério de pedra no Vale do Loire, em França. No livro “Embalando a minha biblioteca”, Manguel escreve que na sua biblioteca convivem Zola, Júlio Verne, Verlaine, Shakespeare, Marguerite Yourcenar, H.G.Wells, Cervantes, Kipling, Stendhal, Nabokov.

Manuel Alberto Valente diz ao SAPO24 que imagina que “na biblioteca do Manguel está tudo o que é importante da literatura universal” e imagina bem: nela vivem personagens como Ulisses, Madame Bovary e Josef K., mas também as diversas escolas filosóficas, as mitologias antigas e as crenças das várias religiões.

E há, claro, enciclopédias e dicionários – uma das secções preferidas de Manguel na sua biblioteca. Os dicionários, escreve o autor em “Embalando a minha biblioteca”, tinham importância na sua geração: “[P]ara quem gostava de ler, o dicionário era um objeto mágico”, desde já porque continha toda uma língua nas suas páginas.

Alberto Manguel em 2007 em França
créditos: LAIN JOCARD / AFP

Foi este o início do caminho de Manguel como diretor da Biblioteca Nacional da Argentina - tal como Borges foi -, ensaísta e romancista premiado. Mas podemos andar muito mais para trás no tempo para conhecer o pequeno Manguel, que cresceu para ser Prémio Formentor das Letras (2017), Prémio Gutenberg, Prémio Medicis Prize, entre outros.

Diz que tinha cerca de quatro anos quando aprendeu, sozinho, a ler. Nessa mesma altura já arrumava os livros de forma meticulosa. “Lembro-me de arrumar e voltar a arrumar os meus livros segundo regras secretas que inventava: todos os livros da coleção Golden Books tinham de estar juntos, as grossas colectâneas de contos de fadas não estavam autorizadas a tocar nos livros minúsculos de Beatrix Potter, e os peluches não podiam sentar-se na mesma prateleira que os livros.” Foi a sua primeira biblioteca.

A dureza de embalar livros pode chegar ao fim

Com o passar dos anos, a biblioteca de Manguel deixou de ser apenas uma prateleira ao nível do chão e tomou a forma de uma casa inteira com paredes forradas a livros. Acumulou milhares de livros. Não podia viver sem eles. Embalar os exemplares em França para os ir albergar no Canadá pareceu arrancar algo dele próprio.

A cerimónia que oficializa a doação da coleção pessoal de livros do bibliófilo vai ter lugar este sábado, às 18h00, na Feira do Livro de Lisboa, onde será assinado o protocolo entre o escritor e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

Manguel escreve que desembalar uma biblioteca é “um ato selvagem de renascimento”, em que acorda os livros do seu tempo de hibernação. E se toda a biblioteca é autobiográfica, o ato de a desembalar parece um pouco com renascer. Mesmo que o dono tenha 72 anos.

Pesquisa e testemunhos recolhidos por Magda Cruz

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