"O que é isto?" pergunta sobressaltada Paula Carvalho, da Doce Licores, de Idanha-a-Nova, enquanto conversa com a jornalista do SAPO24 ao mesmo tempo que o resto da equipa vai arrumando a casa que lhes coube na “Village portugais”, bem no centro da praça Gutenberg. «Isto» são as sirenes de uma ambulância e de carros patrulha a passar porque, ali ao lado, as Galerias Laffayette acabam de ser evacuadas por causa de uma ameaça de bomba. Mas isso ela ainda não sabe, embora acabe por confessar: "Estou aqui com este ar descontraído, mas estou cheia de medo que haja um atentado terrorista".

É para garantir que tudo vai correr bem que estão ali tantos polícias (muitos dos quais à paisana). A operação “Sentinela”, que vai manter-se até 24 de Dezembro, quando termina o mercado, custará ao município cerca de 450 mil euros – a vila tem um efectivo de 160 polícias e contratou ainda 150 seguranças privados. Além destes, há militares vindos de todos os pontos do país por todo o lado (o número total não foi divulgado), o que transformou o centro de Estrasburgo numa espécie de praça forte.

A verdade é que é impossível ficar alheio a todo este aparato, mas a vida continua. Nas Galerias Lafayette tudo não passou de um susto - uma hora depois do alerta veio a descobrir-se que a “bomba” era, afinal, um envelope esquecido por um estudante - e aqui é preciso continuar a montar as tendas, que é véspera da abertura de mercado e o tempo começa a faltar.

Enchidos tradicionais da Sacif, patês de javali ou de veado e perdiz de escabeche da Penha Monte, compotas da Geocake e outros produtos gourmet, como o borrachão, um bolo típico da região de Idanha-a-Nova confecionado à base de azeite, feito pelo chef Mário Ramos, são alguns dos produtos que pode encontrar na casa da dona da Doce Licores.

"Represento todos os que têm aqui os seus produtos, que são muitíssimo bons, mas estou mais à vontade para falar dos licores, porque sou eu a produtora", explica Paula Carvalho. E, quando diz que é produtora, não quer apenas dizer que é a dona da empresa, um negócio de família ou, mais do que isso, da família. É que é mesmo ela quem os faz. São mais de 34 variedades no total, mas trouxe para Estrasburgo “apenas” 14.

Paula Carvalho era funcionária pública até há quase três anos, no Instituto do Emprego e Formação Profissional, decidiu pedir a rescisão. "Era a minha casa, eu organizava seminários e congressos quando estava em Lisboa, primeiro, e nos últimos 16 anos estive no CEFP de Castelo Branco".

Paula era funcionária pública, hoje faz e vende licores

"Muitas pessoas deviam passar por ali para estar do nosso lado. Como profissional, acredito que nos devíamos colocar sempre no lugar do outro. A base é a humildade e o respeito. E faço isso também com os licores". A aventura da Doce Licores, que representou um investimento inicial da ordem do 7500 euros, começou por brincadeira: era preciso fazer alguma coisa para a quermesse a favor da viagem de finalistas da filha, mas não podiam ser bolos.

Hoje, a empresa ainda não dá lucro, mas o negócio já se paga. Em Portugal, além da venda directa, a marca encontra-se à venda em Lisboa, na Bread 4 You, uma confeitaria na Rua dos Sapateiros. Uma garrafa pode custar entre 10 euros (200ml) e 15 euros (500ml) e vários sabores já foram premiados.

Em Estrasburgo, nesta altura o preço ainda não está definido. "Foi a principal dificuldade deste mercado, gerir as regras, diferentes das de Portugal no que toca à venda de álcool e em matéria de rotulagem", conta Paula. Pior isso do que não saber uma palavra de francês. "Só sei dizer “un petit peu", ri-se. Mas sabe mais do que isso nomeadamente quanto lhe vai custar estar ali um mês, depois de pagas as contas das viagens, alojamento e alimentação que a autarquia ajudou suportar na fase inicial.

Na sua situação estão muitos outros ali presentes. Joaquim Catana também veio de Idanha-a-Nova e está a representar outro leque de produtores. A Hortas da Beira é apenas uma das muitas marcas, presente com frutos que não são perecíveis no curto prazo, como dióspiros de roer, romãs ou abóboras.

Café e empadas cozidas na hora

"O convite para vir a Estrasburgo veio através da autarquia e eu contactei os produtores que não podiam estar aqui pessoalmente, fiz um sortido, seleccionei os que acredito que têm viabilidade neste mercado, e vim. Conheço mais de 30 países e vivi em Zurique um ano e meio, sei o que as pessoas procuram aqui e espero encontrar parceiros", afirma Joaquim. "Pretendemos divulgar o produto, mas coloca-lo nas grandes cadeias, mesmo nas nacionais, é complicado. O nosso alvo são os retalhistas de média e pequena dimensão e também queremos aproveitar o mercado de Estrasburgo para fazer venda directa".

José Salvado traz café e empadas. Representa a Delta e a Beira Salgados, uma empresa que fabrica empadas de vários tipos, cinco dos quais estarão no mercado: frango, beirã, pato, bacalhau e vegetais. É a primeira vez que vem e as expectativas são "um bocadinho altas, pelo menos dizem que é um dos melhores mercados de Natal do mundo. Como somos o país convidado, vamos fazer o nosso melhor".

E o melhor são as empadas, que vêm feitas de Portugal, cruas, e são cozidas na hora. "Já temos algumas vendas para fora, Alemanha e Espanha, entre outros países. Temos capacidade para fazer 24 mil empadas por dia e fazemos tudo manualmente, da massa aos acabamentos, passando pelo recheio. A máquina só corta e estica a massa, mais nada, e é isso que faz a diferença". Uma empada custa 2 euros, a maior, a beirã, 2,5 euros e um café um euro e meio.

Mas isto é apenas uma amostra do muito que os portugueses trouxeram ao Noël de Estrasburgo, porque do Alentejo a Viana do Castelo é possível encontrar casacos de lã de ovelha, toalhas de mesa e até óleos e sabões aromáticos. Tudo para um Feliz Natal.

Um bom primeiro dia 

O dia de trabalho ainda não vai a meio e são muitos os que já passaram pela Village Portugais, na praça Gutenberg, em Estrasburgo. Paula Carvalho até inventou uma receita de vin chaud, o vinho quente feito com especiarias, típico desta região, e a sua fórmula, o vin de bonheur, está a fazer sucesso.

Ainda é cedo para saber o número de visitantes e, afinal, o mercado abriu apenas ao meio-dia, tem ainda um mês para andar, mas já deixou todos cheios de esperança. As empadas da Beira Salgados são um êxito, as frutas, o azeite de Ródão e os queijos da Serra, entre outras iguarias escolhidas por Joaquim Catana, saem com rapidez.

Mas o mercado é muito mais além da comida. A Aromas do Valado também atrai os visitantes pelo cheiro, mas o negócio é outro. Helena Vinagre conta como se meteu nestas andanças, em Segura, no concelho de Idanha-a-Nova, bem pertinho de Espanha: «É um projecto de mudança de vida, representa o regresso ao campo».

É que Helena Vinagre foi directora de uma grande multinacional e deixou a sua carreira para criar uma empresa de raiz, entretanto premiada pela Câmara do Comércio Franco-Portuguesa pelo seu carácter inovador: a Aromas do Valado faz destilação das plantas aromáticas que existem no Geoparque Naturtejo e são esses aromas os óleos essenciais usados para fabricar todos os produtos de higiene e cosmética com certificação biológica.

O projecto possui ainda uma vertente a de academia, ou seja, forma outros produtores na produção de óleos essenciais para conseguir quantidades suficientes para exportar. Actualmente, já exportam para a Bélgica, França e Itália entre 50 e 100kg por ano, uma quantidade considerável.

Para fechar o ciclo, a empresa entrou ainda no turismo de experiências, em que o cliente é convidado a fazer e participar nas actividades e no processo produtivo.

Os sabonetes, cremes, óleos de massagem e bálsamos resultam de fórmulas desenvolvidas por um químico e um farmacêutico, em laboratório, e são vendidos em farmácias, parafarmácias, lojas bio e também em hotéis de cinco estrelas, havendo até casos em que se fabricam produtos específicos para determinados clientes, como termas, em que utilizam as águas termais. Os preços podem ir de seis a 20 euros.

A ideia nasceu talvez porque Helena Vinagre fez na Suíça algum turismo de termas e a parte dos óleos essenciais sempre a atraiu e fazia aromaterapia há mais de 15 anos. A mudança para o campo veio apenas tornar possível um sonho antigo e, «sobretudo, aproveitar recursos endógenos para que o projecto servisse até de exemplo para os mais novos, que estão a abandonar o interior e esta também é uma maneira de contribuirmos para que percebam que é possível ficar». Neste e noutro mercados, Portugal é já reconhecido como um país que cria produtos de alta qualidade, «onde se ganha dinheiro e prestígio», assegura.

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